Dos 26 convocados para a seleção brasileira de 2026, nove atuam em times com casas de apostas no centro da camisa
Por Dyepeson Martins, Isabel Seta, na Agência Pública

Poucas horas depois de ter sido oficialmente convocado para jogar pela seleção brasileira na Copa do Mundo, que começa em menos de um mês, o atacante Neymar Jr. postou um vídeo em seu perfil no Instagram. Nele, o jogador fez um convite aos seguidores: “se divertir” com um código promocional para fazer apostas. O post, o primeiro de Neymar após a convocação, já vinha com links para levar o usuário a “rodadas grátis” de um jogo de caça-níquel online, oferecido pela Blaze, marca regularizada no Brasil na qual o jogador atua como embaixador.
A relação, ainda que explícita, não surpreende: nos últimos anos, as casas de apostas se tornaram presença onipresente no futebol brasileiro e internacional e, além de patrocinar jogadores individualmente, também passaram a estar por trás de times e campeonatos inteiros. A seleção convocada por Carlo Ancelotti é prova disso: um a cada três jogadores atua em um time que possui uma bet como patrocinadora master (ou principal), conforme levantamento feito pela Agência Pública.
Dos 26 convocados, nove jogadores exibem uma marca de aposta no centro da camisa quando entram em campo por seus times. É o caso do próprio Neymar, cujo Santos tem a Novibet como patrocinadora principal. Mas também de Danilo, que atua pelo Botafogo, cuja camisa estampa o patrocínio da Vbet. Além dos quatro jogadores do Flamengo (Alex Sandro, Danilo, Léo Pereira e Lucas Paquetá), time patrocinado pela Betano.
Fora do Brasil, casas de apostas também são as principais patrocinadoras de dois times da Premier League, o campeonato inglês, com jogadores brasileiros entre os convocados por Ancelotti: o Brentford, de Igor Thiago, exibe a sul-africana Hollywoodbets na camisa. Já o Bournemouth, de Rayan, tem a asiática BJ88 como patrocinadora master para a temporada 2025/2026.
A lista ainda inclui o Roma, no qual joga o defensor Wesley, que tem a “Eurobet.live” como patrocinadora. A “Eurobet.live” não é exatamente uma bet, mas sim uma plataforma de atualização de resultados da marca Eurobet – essa sim uma casa de apostas. Na Itália, empresas de bets não podem fazer publicidade desde 2018, mas as restrições têm sido contornadas por clubes de futebol, que exibem marcas associadas de entretenimento ou notícias em suas camisas.
Se considerados os times que possuem bets como patrocinadoras secundárias, mas que ainda aparecem nas camisas, a lista aumenta para 12 dos 26 convocados, já que Douglas Santos e Luiz Henrique jogam pelo Zenit, time da Rússia que exibe a bet Winline, uma das principais empresas de apostas do país, na parte superior da camisa. Já o time turco Fenerbahçe, do goleiro Ederson, também conta com uma casa de apostas nacional, a Nesine, como patrocinadora, mostrada na manga.
Entre os países com jogadores brasileiros convocados para a seleção, apenas a Arábia Saudita proíbe apostas on-line.
Copa do Mundo das bets
O setor de apostas vê a Copa do Mundo como uma grande oportunidade de aumentar ganhos e chegar a novos apostadores. Em 2022, uma análise do banco Barclays, estimou que o campeonato, realizado naquele ano no Qatar, poderia render 35 milhões de dólares em apostas, um aumento de 65% na comparação com a copa anterior, realizada na Rússia.
Neste ano, os valores devem ser ainda maiores pelo tamanho do campeonato (será a maior copa da história, com 48 seleções, e uma audiência prevista de até 5 bilhões de espectadores) e pela entrada do Brasil no mercado regulado de apostas esportivas on-line. Projeções da consultoria internacional Regulus Partners, obtidas pela BBC Brasil, colocavam o Brasil como quinto maior mercado do mundo para apostas online no ano passado, só atrás de Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia.
A Copa do Mundo de 2026 será realizada entre 11 de junho e 19 de julho, com jogos distribuídos por 16 cidades dos três países-sedes: Canadá, México e Estados Unidos.
Nesta segunda-feira, 18 de maio, horas antes do anúncio dos convocados para jogar pelo Brasil, a Fifa (Federação Internacional de Futebol) divulgou uma bet como parceira oficial da Copa do Mundo. A Betano, marca da Kaizen que também patrocina o Flamengo, será patrocinadora da Copa na Europa e na América do Sul. É a terceira vez que a marca faz uma parceria com a Fifa. Na Copa do Qatar, a Betano já tinha sido uma patrocinadora regional para a Europa.
“O Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 é o ponto de encontro definitivo entre esporte e entretenimento, alcançando milhões de pessoas. Para nós, é o palco perfeito para consolidar a Betano como a marca mais confiável a nível global para apostas esportivas online responsáveis”, afirmou George Daskalakis, CEO da Kaizen.
Por que isso importa?
- Segundo a Fifa, apenas os contratos de marketing para a Copa do Mundo 2026 devem gerar uma receita entre 2,5 bilhões e 3 bilhões de dólares.
- As bets são o patrocinador master de pelo menos 12 times da série A do Campeonato Brasileiro de 2026.
Vini Jr. e a BetNacional
Além de Neymar, outra grande esperança da seleção brasileira também é representante oficial de uma das maiores casas de apostas em atividade no Brasil: a BetNacional. O atacante Vinícius Júnior – titular do Real Madrid – é embaixador oficial da empresa desde 2022 e tem contrato vigente até 2027. A BetNacional é uma das gigantes no topo do faturamento de R$ 37 bilhões de jogos de azar online só em 2025 – conforme dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF).
Vini Jr. também encabeça a atual linha de propaganda da empresa, pertencente ao grupo empresarial Flutter Brazil, para estimular a prática de jogo responsável e “maturidade” nas apostas. A ação publicitária surgiu após desgastes na imagem das bets diante das taxas de endividamento no país.
Inglaterra na contramão
Enquanto a publicidade das casas de apostas estampam cada vez mais a frente das camisetas de clubes no Brasil, a Inglaterra vai na direção contrária. A Premier League – principal divisão de ligas do futebol britânico – anunciou, em abril deste ano, o fim do patrocínio master de bets nas camisetas dos seus 20 clubes a partir de maio deste ano, quando termina a atual temporada de jogos.
As marcas ainda poderão patrocinar as mangas das camisetas, além de outras propriedades dos clubes, como anúncios em led nos estádios de futebol. Sem a publicidade na parte frontal, contudo, há a estimativa de perda coletiva de aproximadamente 80 milhões de libras- em torno de R$ 542 milhões -, de acordo com o Jornal The Guardian.
A restrição – anunciada em 2023, mas adiada por três temporadas – ocorre num contexto de adoção de medidas mais severas por parte do governo britânico contra empresas de jogos de azar irregulares no mercado; além do aumento substancial nos impostos sobre o lucro das companhias regularizadas.
Esse tipo de patrocínio secundário, porém, já é realidade para vários clubes britânicos, inclusive daqueles com jogadores brasileiros convocados para a seleção. O Liverpool, do goleiro Alisson, por exemplo, tem patrocínio da Ladbrokes, uma bet líder no Reino Unido, desde 2024 para exibição do logo da marca em telões no estádio.
O mesmo tipo de parceria foi feita por outros três times da Premier League com jogadores brasileiros convocados: o Manchester United, no qual atuam Casemiro e Matheus Cunha, tem a marca Betfred como patrocinadora desde 2006; já o Arsenal, de Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli, tem uma parceria com a Betway; e o Newcastle, onde joga Bruno Guimarães, com a BetMGM.
O patrocínio fora da camisa, mas presente no estádio ou em sites, também aparece em outros times europeus com atuação de brasileiros listados por Ancelotti. O francês Lyon, de Endrick, tem patrocínio da Betclic. Já o PSG (Paris Saint-Germain), no qual joga Marquinhos, fechou uma parceria com a 1xbet para países asiáticos e africanos. Na Espanha, o Real Madrid, de Vini Jr., tem acordos com três casas de apostas diferentes, uma para a Espanha, outra para os demais países europeus e uma para os países africanos. Na Espanha, a bet espanhola Codere é a “casa oficial” do time. O Barcelona, por sua vez, tem uma parceria até 2029 com a 1xbet. Há ainda o caso do clube em que Bremer joga, o italiano Juventus, que tem uma parceria com a Betera, bet da Belarus, apenas para países do leste europeu.
Apostas on-line são legais em todos esses países. Em 2025, uma investigação do site Investigative Europe mostrou que, apesar dos problemas sociais causados pelas apostas e dos esforços regulatórios para limitar propaganda, dois terços dos times nas principais competições de futebol na Europa e no Reino Unido tinham algum tipo de relação de patrocínio com casas de apostas online.
Paquetá investigado
O olhar mais atento às bets na Inglaterra pôs em foco um dos nomes escolhidos por Ancelotti: o meia Lucas Paquetá. O jogador foi denunciado, em maio de 2025, pela Federação Inglesa de Futebol (FIA) por suposta tentativa de manipular apostas esportivas ao, conforme a denúncia, forçar cartões amarelos em quatro partidas entre 2022 e 2023. À época, Paquetá jogava pelo clube londrino West Ham.
Paquetá foi absolvido das acusações mais severas em julho de 2025, mas recebeu punição por questões referentes à colaboração nas investigações. Mesmo assim, o resultado final do processo caracterizou grande alívio ao jogador que corria o risco de ser banido do futebol inglês caso fosse condenado.
A indústria contra as bets
Em janeiro de 2025, o faturamento de casas de apostas online foi de R$ 1,5 bilhão, valor que cresceu exponencialmente até janeiro deste ano, quando se registrou a receita bruta de R$ 2,2 bilhões, aumento de 44,4% em 12 meses, conforme pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
As bets são o principal vetor do endividamento severo e da inadimplência prolongada no país. Atualmente, os gastos com apostas online ultrapassam R$ 30 bilhões mensais, alta de mais de 500% em comparação a 2023. Os dados fazem parte de um estudo divulgado em abril pela Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
A divulgação não aconteceu por acaso. Representantes da indústria seguem preocupados com a drenagem de recursos que vão para as bets em vez do varejo. A queda no faturamento do comércio nacional por conta das casas de apostas chegou a quase R$ 144 bilhões nos últimos dois anos, aponta a CNC.
Com isso, a indústria também intensificou o lobby no Congresso, desta vez para pressionar o Congresso Nacional a aprovar propostas que enfraquecem a atuação das bets. Uma das iniciativas em pauta é o projeto de lei aprovado em fevereiro, na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, para proibir a publicidade de apostas esportivas e jogos online em todo o território nacional.
O texto seguiu para a análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que deve realizar votação em caráter terminativo – sem a necessidade de apreciação em plenário.
A aposta para 2026
Se por um lado a onda de patrocínio das bets segue avançando entre os clubes brasileiros de forma desordenada, por outro a ala mais progressista da Câmara dos Deputados quer dificultar a vida das casas de apostas, numa tentativa de influenciar nas Eleições 2026. Com as altas taxas de endividamento, a base governista tenta destacar debates e discursos contra as apostas online nas comissões temáticas da Casa e, com isso, minar os votos de interlocutores das empresas no Congresso.
A proibição total de apostas online, ainda que tema central de um projeto apresentado por deputados do PT em abril de 2026, é tratada como “quase impossível” pelos próprios petistas. Contudo, segundo integrantes da bancada, a proposta pode ser uma alavanca para aumentar a tributação sobre os lucros das bets e políticas mais restritivas à atividade.
Enquanto isso, as bets continuam despejando recursos vultosos em patrocínios no esporte, em especial no futebol. A CazéTV, por exemplo, que vai exibir todos os jogos da Copa, terá patrocínio para a transmissão da Betnacional e da Bet365, além de grandes empresas de outros setores.
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Edição: Ludmila Pizarro




