A batalha diária dos palestinos pelo futuro

Jovem palestina narra os traumas familiares da Nakba: ver familiares só por telas, a vida áspera no exterior, a interdição das fronteiras… Se esta dor provocou melancolia, hoje o genocídio alimenta a revolta das novas gerações, enraizada na memória e em projeto de libertação

Por Jenin, no site Z | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

Como uma palestina nascida no século XXI, sou fruto geracional dos sobreviventes da Nakba e do trauma que a acompanhou. Por mais distante que possa parecer, estou a apenas duas gerações da Catástrofe da Palestina de 1948, quando mais de 750 mil palestinos foram deslocados de suas terras e milhares foram massacrados. Milícias sionistas apoiadas pelo Império Britânico arrasaram aldeias palestinas, matando, estuprando, deslocando e aprisionando quem encontravam, tudo para estabelecer o novo projeto colonialista de assentamento chamado Israel. Esse único dia na história palestina mancharia o solo com sangue derramado e trauma acumulado por décadas vindouras.

Meus avós são mais velhos que o Estado de Israel, tendo nascidos alguns anos antes da Nakba. O 14 de maio de 1948 foi provavelmente um dia bastante normal na infância dos meus avós. Eles estariam dentro de suas casas com suas famílias, ou brincando do lado de fora, como em qualquer outro dia. No dia seguinte, tudo mudou. Em 15 de maio, milícias sionistas invadiram suas cidades natais, massacraram seus vizinhos e destruíram aldeias inteiras. A infância dos meus avós foi arrancada, e suas vidas inteiras, desenraizadas.

Após a Nakba, tudo mudou. O povo da Palestina agora vive sob a ocupação de racistas que os desprezam e desumanizam. Esses estrangeiros decidiram quais direitos eles poderiam ou não ter em suas próprias terras natais, e a ameaça de violência estava sempre presente. Meu bisavô foi baleado na cabeça por um colono. O sistema educacional palestino foi drasticamente desfinanciado, levando os pais da minha mãe a partirem para a Europa para cursar a universidade. Quando tentaram voltar para casa após a Naksa de 1967, soldados estrangeiros, de alguma forma, tinham autoridade para impedi-los de entrar novamente para sempre. Eles tiveram que se mudar para a Jordânia e começar uma nova vida. Estavam a apenas duas horas de suas famílias, mas não sabiam se algum dia seriam autorizados a fazer a curta viagem de volta. Minha avó só esteve na Palestina uma vez desde então, e meu avô, duas vezes.

Meus outros avós permaneceram em sua terra, mas agora tinham que viver uma vida de fortes restrições e mobilidade limitada. É difícil para mim imaginar como foi testemunhar o saque de nossa pátria por invasores estrangeiros, mas jamais conseguirei compreender verdadeiramente a magnitude de ver a colonização gradual que só parecia piorar com o passar das décadas. Jamais esquecerei quando meu avô, que era motorista de ônibus antigamente, me contou que certa vez pôde dirigir até Beirute ou Bagdá e voltar para casa no mesmo dia. Hoje, essa ideia é inconcebível.

Desde que tive idade para compreender as coisas, soube que a Palestina era minha pátria e que ela estava sendo ferida por algo chamado Israel. Israel foi a razão pela qual minha mãe nasceu na Jordânia em vez da Palestina, a força motriz que levou meus pais a se mudarem para os EUA em busca de melhor educação e trabalho. É a coisa que me separa do resto da minha família extensa, impedindo-me de conhecê-los plena e verdadeiramente. Israel é o motivo pelo qual só vejo meus avós a cada poucos anos, por que tenho que assistir meus primos mais novos crescerem através de uma tela de celular. Como uma palestina que cresceu nos Estados Unidos, fui imersa na cultura ocidental e desconectada da minha própria, e Israel é a razão.

Esta era a minha norma, a realidade na qual nasci. Com o tempo, os lembretes diários da privação de direitos, toda essa crueldade, tornam-se algo a que você simplesmente se acostuma. Você começa a se acostumar com a sensação inquietante de que esse talvez seja o destino de um palestino neste mundo: uma vida de deslocamento e diáspora, com a tragédia ocasional, como as campanhas anteriores de bombardeio em Gaza em 2008, 2012 e 2014. Esse processo de dessensibilização está gravado no meu DNA geracional; eu praticamente nasci já habituada à injustiça de ser palestina.

A verdade brutal era que a Nakba nunca terminou. Todos nós sabíamos disso instintivamente, mas, especialmente após os esforços de normalização dos Acordos de Oslo, uma sensação de falso conforto assombrou a comunidade palestina nas duas décadas seguintes à sua assinatura. A realidade antes de outubro de 2023 era a de protestos ocasionais e indignação ocasional, logo apaziguados por declarações mornas de apatia solidária por parte de políticos. Comecei a me envolver na organização estudantil pela Palestina em 2021 e, embora estivéssemos constantemente mobilizados, o cenário naquela época era muito mais silencioso e reduzido.

Então, há dois anos e meio, começou a atual fase do genocídio em Gaza. Não acho que algum dia voltarei a experimentar a vida da forma como ela se desenrolou naquele outono. Fui dormir em 6 de outubro, quando tudo estava relativamente “normal”, e acordei às 4h30 para meu turno da manhã com o celular praticamente explodindo de notificações. Lembro de ir para o meu trabalho de barista de fones no ouvido o tempo todo, assistindo à Al Jazeera enquanto preparava café para pessoas que não faziam ideia do que acabara de mudar no mundo.

Na esteira do 7 de outubro, os protestos tornaram-se constantes, a indignação tornou-se algo tão eterno que você sentia que podia consumi-lo e queimá-lo até virar cinzas. O que antes era algumas centenas de pessoas nas ruas tornaram-se milhares e, em alguns lugares, milhões compareciam.

Foi o início de um período de exaustão, ter algo tão importante para organizar todos os dias, a ponto de meus estudos já não importarem mais. Foi difícil, mas o que estava acontecendo com aqueles em Gaza era muito pior, e tornou-se uma questão de despender tudo o que você tem por aqueles que não têm nada. Milhões sentiram o mesmo em todo o mundo, e isso desencadeou a educação em massa e a mobilização do movimento de solidariedade à Palestina que vemos hoje.

Desde outubro de 2023, as imagens vindas de Gaza que lembram a Nakba inundaram nossos feeds. Após quase três anos da campanha mais desumana, desumanizante e genocida dos EUA e de Israel, pode-se supor que um sentimento de desesperança tomaria conta, como aconteceu após a Nakba de 1948. Mas vejo este momento como o catalisador para exatamente o oposto.

Israel acredita que pode continuar a fazer o que sempre fez. Pode embarcar em um genocídio declarado com a intenção de eliminar os palestinos do mapa, depois concordar com múltiplos cessar-fogos apenas para quebrar cada um deles. Afinal, não se pode cessar um genocídio enquanto a entidade genocida ainda opera com impunidade. A diferença desta vez é que as pessoas ao redor do mundo realmente sabem o que está acontecendo. Israel, junto com seu benfeitor, os EUA, meteu-se em um canto do qual duvido que alguma vez escapará.

E esse é o combustível para meu otimismo revolucionário. Às vezes, é difícil pensar que a libertação está próxima quando confrontados com tanta morte e destruição. Mas é ainda mais difícil ignorar as rachaduras na fachada da máquina estadunidense e israelense. Ambas foram construídas sobre alicerces falsos que já eram podres e rachados, e nada construído sobre os meios de vida esmagados de milhões jamais perdurará. As pessoas estão vendo a podridão vir à tona e estão completamente enojadas com o estado do nosso mundo que perpetuou o genocídio, mantido por uma classe dominante ultra-rica, um capitalismo agonizante e a supremacia branca.

Se antes Israel era conhecido como “a democracia do Oriente Médio”, hoje tornou-se a mancha, o vilão que espalhou caos, morte e destruição por toda a região. Se antes receber dinheiro da American Israel Public Affairs Committee era sinal de força eleitoral, agora isso pode representar uma sentença de morte em eleições locais nos Estados Unidos. Se instituições estadunidenses como a American Medical Association antes consideravam aceitável permanecer em silêncio sobre a Palestina, hoje são condenadas por isso. Se nossa mídia e nossos veículos de notícias operavam como instrumentos da propaganda israelense, agora são vistos como ferramentas de guerra e opressão. Foi nosso trabalho e nossa dedicação, enquanto ativistas, que transformaram a percepção de todas essas coisas que antes eram tratadas como normais.

Em 1948, uma época em que as notícias viajavam devagar, Israel e o Ocidente acreditavam que haviam conquistado um território para sempre. Em 2026, esse território “eterno” ainda luta contra anos de ocupação e genocídio. Essa é a diferença: a luta pela Palestina foi construída sobre o sacrifício de nossos mártires e revolucionários, sobre princípios e sobre o amor por nossa terra e nosso povo. É uma fundação bela e rica que pode resistir a qualquer força que tente derrubá-la.

A maior parte da minha família permanece na terra, ou perto dela, na Jordânia. Vejo isso como uma vitória constante contra o opressor, todos os dias. Enquanto mantivermos nossas casas, meios de subsistência e histórias, a identidade palestina nunca morrerá, e minha família trava essa batalha todos os dias. Se a dessensibilização tem uma marca no meu DNA, o mesmo ocorre com a resiliência e a fé inabalável de que a Palestina será libertada em breve.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

um × cinco =