Juventude e novas direitas, para além dos estereótipos e dos extremos

A pesquisadora Beatriz Besen analisa pertencimento, antifeminismo e radicalização entre jovens de direita, tema do livro que está lançando

por César Fraga, em Extraclasse

Em meio à intensificação da polarização política e das disputas em torno da democracia, compreender o crescimento das novas direitas entre jovens tornou-se uma das tarefas centrais para pesquisadores das transformações sociais contemporâneas. Mas quem são esses sujeitos que desafiam explicações simplificadoras? O que encontram nesses movimentos? E por que discursos conservadores passaram a oferecer, para parte da juventude, sentidos de pertencimento, reconhecimento e até transformação pessoal?

Essas são algumas das questões investigadas pela psicóloga e pesquisadora Beatriz Besen no livro Novas Direitas – Juventude além dos extremos, lançado pela Editora Vozes. A obra reúne entrevistas biográficas realizadas no Brasil e na Alemanha para analisar como jovens passaram a se identificar com diferentes expressões das novas direitas, escapando tanto da caricatura do “extremista irracional” quanto da ideia de que seriam apenas vítimas de manipulação.

Após o lançamento realizado em São Paulo, em 7 maio, o principal debate ocorreu em Porto Alegre, dia 28, na  Livraria Paisagem, no Moinhos Shopping (Rua Olavo Barreto Viana, 36, 3º andar). A proposta do encontro é ampliar a discussão sobre juventude, democracia, redes digitais e transformações políticas contemporâneas para além do espaço acadêmico.

Juventude e pertencimento no conservadorismo

Na entrevista a seguir, Extra Classe conversa com Beatriz Besen sobre neoliberalismo, antifeminismoredes sociais, cultura do cancelamento e os desafios de compreender uma juventude que já não cabe nos esquemas tradicionais da política.

Extra Classe – Por que, no que se refere ao ativismo jovem, em seu estudo, você não classifica esses jovens nem como vítimas nem como algozes? E quais seriam os novos modos de fazer política do neoliberalismo?

Beatriz Besen – Uma das motivações que tive para escrever o livro foi a constatação da rigidez das descrições dadas para os ativistas e apoiadores das novas direitas. Em muitos espaços, eles apareciam como sujeitos loucos, irracionais e violentos, ou então como vítimas de todas as mazelas sociais. Na introdução do livro, falo do impacto de acompanhar jovens de Heliópolis, em São Paulo, pelos quais eu tinha grande afeto e que passaram, ao longo do tempo, a aderir a discursos profundamente agressivos contra minorias das quais eles próprios também faziam parte. Isso me obrigou a sair de categorias mais simplificadoras e tentar compreender como essas trajetórias eram construídas.

Assim, parti para as entrevistas biográficas, buscando sair da superfície e entender caminhos e motivações que conduziram jovens a se identificarem como ativistas dentro de diversos grupos e movimentos. Em vários relatos, o ativismo apareceu muito mais como busca por reconhecimento, pertencimento e transformação pessoal do que como adesão a um campo político coerente. Alguns descreviam a política quase como processo de autotransformação moral e intelectual. Outros associavam o conservadorismo a um estilo de vida e à autenticidade.

Nesse contexto, comecei a trabalhar com a ideia de “participação liminar”, tentando compreender trajetórias que combinam práticas reconhecidas como democráticas — estudos, organização militante e participação institucional — com agendas e discursos que tensionam aspectos centrais da democracia liberal. Entendi isso tanto como uma condição para se tornar ativista, principalmente enquanto jovens, mas também como uma estratégia de negociação: “quanto mais eu atendo às normas, mais legítimas serão consideradas minhas reivindicações, mesmo que elas possam se chocar com os princípios democráticos”. O neoliberalismo aparece nesse terreno não apenas como política econômica, mas como racionalidade que reorganiza formas de interpretar sofrimento, reconhecimento e responsabilidade.

Em muitos relatos, havia uma valorização intensa da autorresponsabilidade, do mérito e da disciplina. Apesar dessa valorização de dimensões de performance individual, também observei que esses movimentos e grupos ofereciam vínculos coletivos muito fortes: grupos de estudo, redes de amizade, espaços de acolhimento e experiências de pertencimento político.

A crise das narrativas progressistas

Extra Classe – Você menciona que as injustiças e a falta de perspectiva de futuro descritas pelos jovens são experiências reais, mas que a direita oferece explicações simplistas baseadas no individualismo e na moralidade. Por que a esquerda ou o campo democrático têm falhado em oferecer uma narrativa explicativa que faça tanto sentido subjetivo para essa juventude quanto a narrativa da direita radical?

Beatriz Besen – As entrevistas mostravam que muitos desses jovens não estavam apenas buscando respostas políticas ou econômicas, mas formas de dar sentido às próprias experiências. Muitos se identificavam como conservadores e entendiam que isso significava se opor às instituições estabelecidas e, até mesmo, fazer parte de uma contracultura. Durante muito tempo, principalmente no pós-ditadura, esquerda e rebeldia estiveram muito associadas. Hoje isso não é mais um dado automático. Não precisamos negar que temos governos identificados com a esquerda e que isso também significa ocupar a esfera pública e participar da definição do que passa a ser entendido como moralmente aceitável.

Em alguns setores, aparece também uma expectativa de gratidão frente ao fato de que muitos desses jovens se beneficiaram de políticas públicas, como Prouni e Bolsa Família. Essas expectativas ou argumentos me parecem fracos e insuficientes frente à abertura e ao discurso de enfrentamento do status quo que as novas direitas têm construído.

Antifeminismo e protagonismo conservador

Extra Classe – Causa certo estranhamento que jovens mulheres de direita utilizem termos como “autonomia” e “escolha” para defender o antifeminismo. Até que ponto esse fenômeno pode ser lido como um sintoma do próprio sucesso do feminismo liberal, que consagrou o “direito de escolha” a ponto de permitir que mulheres escolham o próprio patriarcado?

Beatriz Besen – Eu teria certo cuidado com essa formulação, porque ela pode recolocar essas jovens apenas no lugar da incoerência ou da alienação. Ao longo do livro, procuro discutir algo um pouco diferente: como o antifeminismo passou a funcionar como espaço de protagonismo e pertencimento político para algumas jovens dentro das novas direitas. Muitas delas não se percebiam como submissas ou privadas de autonomia, mobilizando linguagens de autenticidade, escolha e protagonismo individual para defender posições conservadoras. Isso desmonta uma expectativa relativamente consolidada de que maior autonomia feminina produziria necessariamente alinhamento ao progressismo.

Ao mesmo tempo, essas jovens frequentemente descreviam o feminismo como um movimento incapaz de representar suas experiências concretas, seus desejos ou seus valores morais. Algumas associavam o  feminismo à hostilidade em relação à feminilidade, à maternidade, à religião ou à família. Outras afirmavam sentir que determinados posicionamentos simplesmente não poderiam mais ser expressos sem julgamento moral ou exclusão.

antifeminismo não aparecia apenas como negação. Em muitos casos, ele funcionava como forma de afirmação de suas posições no mundo. Além disso, marcava inserção política, circulação social e ascensão dentro dos próprios movimentos. As novas direitas abriram espaço para jovens mulheres atuarem como influenciadoras, comunicadoras e representantes políticas, especialmente em pautas ligadas à família, comportamento, aborto e crítica à agenda de gênero. Quanto aos paradoxos, encontramos alguns: muitas delas só têm a opção de discutir e representar essas agendas dentro dos movimentos, ou seja, trata-se novamente de um lugar definido pelo gênero.

Por outro lado, também parece ser uma denúncia dos limites das reconfigurações de gênero, que mantiveram as mulheres sobrecarregadas e pouco conseguiram tocar nas masculinidades. Talvez seja mais produtivo perguntar por que o antifeminismo passou a oferecer, para algumas delas, uma representação mais direta das suas necessidades no aqui e agora. Lideranças como Ana Campagnolo participam de podcasts afirmando que o ataque é à feminilidade e que as antifeministas também podem apoiar a autonomia financeira das mulheres. O discurso é maleável, mas também responde muito bem às novas questões que se apresentam para jovens mulheres.

Xenofobia e a nova linguagem das direitas radicais

Extra Classe – Você aponta que a direita radical atual sofisticou seu discurso substituindo a ideia de “supremacia racial” pelo conceito de “etnopluralismo”. Como as ciências sociais e o debate público podem combater essa “atualização da linguagem”, que consegue mimetizar o respeito à diversidade para promover a xenofobia?

Beatriz Besen – Um dos aspectos que discuto ao longo do livro é como muitos discursos das novas direitas já não operam por uma linguagem explicitamente racial ou biologizante.  O conceito de “cultura” passa a ocupar esse lugar estratégico. Em vez de afirmações abertas de superioridade racial, aparecem discursos sobre preservação cultural, identidade nacional e incompatibilidade entre modos de vida. Isso apareceu de forma muito forte no caso alemão, especialmente associado ao etnopluralismo e à ideia de defesa da cultura alemã frente aos chamados “estranhos culturais”. Esse deslocamento não elimina a produção de exclusão. O que muda é a linguagem através da qual ela se legitima.

Em vários momentos, os entrevistados recorriam a argumentos sobre “proteção da cultura”, “segurança” ou “preservação de valores”, evitando referências raciais explícitas. Isso permite que determinadas formas de xenofobia passem a circular revestidas de uma linguagem aparentemente aceitável, plural ou até associada à ideia de diversidade. Talvez o desafio para as ciências sociais seja não restringir a análise às formas clássicas e explícitas de autoritarismo. Em muitos casos, a exclusão aparece reorganizada em sistemas de representação que definem quem pode ou não ser reconhecido como pertencente à comunidade política. A própria substituição da categoria de raça pela ideia de cultura faz parte desse deslocamento discursivo.

Quem são os jovens das novas direitas?

Extra Classe – Quem são esses jovens e como escapam aos estereótipos que a esquerda tenta enquadrá-los?

Beatriz Besen – Durante muito tempo, ouvi pessoas próximas — inclusive pessoas pelas quais tenho grande admiração intelectual e política — reduzirem esses sujeitos a caricaturas: “loucos”, “ignorantes”, manipulados ou simplesmente ressentidos. Mas minhas experiências já tinham começado a produzir um desconforto com essas leituras muito antes do sucesso eleitoral amplo das novas direitas. Foi convivendo com jovens da periferia paulistana, alguns deles profundamente afetados pelas desigualdades sociais, que comecei a perceber algo que não cabia nas categorias tradicionais através das quais costumávamos pensar o conservadorismo.

Muitos estavam investidos em estudo, empreendedorismo, disciplina e ascensão social. Outros descreviam a política como forma de recuperar reconhecimento e protagonismo. Em vários casos, o conservadorismo aparecia menos como defesa nostálgica do passado e mais como linguagem para organizar experiências pessoais.

Acho que isso ajuda a entender por que figuras como Douglas Garcia e Alice Weidel desafiam tanto os estereótipos construídos nos últimos anos. Ainda existe uma expectativa muito consolidada de que juventude, mulheres, gays ou pessoas racializadas se alinhem automaticamente ao progressismo. Mas o cenário contemporâneo é muito mais complexo. E talvez uma parte importante do problema esteja justamente na dificuldade que ainda temos de abandonar imagens simplificadas do “outro político”.

No Brasil, por exemplo, o ativismo aparecia frequentemente associado à ideia de responsabilidade política e autotransformação. Isso aparecia inclusive na forma como performavam a própria juventude. Um dos entrevistados brasileiros descrevia seu conservadorismo por meio de hábitos cotidianos: não gostar de festas, drogas, tatuagens ou “promiscuidade”. Nesse conjunto de narrativas, o conservadorismo aparecia como forma de se colocar enquanto jovem no mundo ou até como um estilo de vida. Por isso, não entendo que exista uma figura única do jovem das novas direitas; existem muitos jovens que, por atravessamentos diversos, encontraram espaços e identificação nas novas direitas. Mas, claro, escrevi o livro buscando entender quais foram as razões para que as novas direitas fossem atrativas para esses jovens.

Redes sociais, bolhas e radicalização

Extra Classe – Você identificou em sua pesquisa e livro que, ao contrário do que se vê nas redes sociais, alguns desses grupos de direita radical fora da internet estão interessados em “disputa e negociação” política real. Como o ambiente digital atua para sufocar esses militantes mais pragmáticos e inflamar apenas os discursos mais radicalizados e binários?

Beatriz Besen – O ambiente digital opera por dinâmicas muito específicas. As redes favorecem antagonismo, choque e circulação acelerada de afetos. Quanto mais forte o conflito, maior tende a ser a circulação e o reconhecimento dentro das próprias redes. Em determinado momento do livro, descrevo como alguns dos jovens haviam formado uma espécie de “redoma”, passando a interpretar os acontecimentos sociais apenas com referência aos conteúdos circulados dentro do próprio espectro político. As entrevistas mostraram a existência de “bolhas” que, com o passar do tempo, têm potencial de radicalização. No livro, destaquei agendas e discursos que são porta de entrada, como armamentismo, antifeminismo, masculinismo e tradicionalismo.

Essas podem ser portas de entrada importantes para os jovens e, conforme outras pesquisas revelaram, esses espaços digitais podem impulsionar conteúdos que conduzem a ações de violência direta. Apesar de mencionar isso no livro, entendo que outras pesquisadoras brasileiras estão fazendo trabalhos mais apurados sobre o tema, como Marcela de Oliveira Nunes, Miriam Abramovay e Mariana Valente.

Também seria impossível compreender a expansão das novas direitas sem reconhecer o papel das redes na criação de vínculos e na formação de “contrapúblicos”. Muitos jovens relataram que foi justamente nas plataformas digitais — OrkutFacebook e WhatsApp — que encontraram pares políticos pela primeira vez ou foram convidados para suas primeiras manifestações. Isso dialoga bastante com a discussão da pesquisadora  Camila Rocha sobre formação de contrapúblicos digitais ainda durante os governos Lula.

Cancelamento, democracia e reconstrução do diálogo

Extra Classe – Você propõe uma postura mais flexível por entender que esses ativistas são “jovens em processo de formação”. Contudo, muitas vezes o debate público exige o cancelamento ou o ostracismo dessas figuras. Como defender a urgência de “estabelecer pontes” com esses jovens em um ambiente político que criminaliza o diálogo com o campo oposto?

Beatriz Besen – Acho importante dizer, antes de tudo, que estabelecer pontes não significa relativizar discursos de exclusão nem apagar limites democráticos. Existem agendas e práticas que precisam ser enfrentadas politicamente e sofrer consequências legais. Não apoio a lógica punitivista, mas acho que precisaremos fortalecer as punições às big techs pela ausência de moderação de conteúdo de ódio e desinformação. Mas, no caso individual dos jovens, minha pesquisa me permitiu perceber que muitos deles viviam processos de participação e engajamento ainda bastante abertos e instáveis.

Quando o debate público — assim como diversas instituições das quais esses jovens fazem parte — convoca esses sujeitos a assumir uma identificação política imediata, muitas nuances se perdem. Pelas entrevistas, percebi que muitas das experiências não encontram explicações suficientes nas representações fornecidas pelas novas direitas. Alguns seguem questionando ações de violência da polícia, outros já duvidam que irão conseguir sucesso apenas por seu próprio esforço, algumas mulheres defendem que o aborto faz parte da defesa da liberdade.

Então, entendo que existem muitas pontas soltas. Infelizmente, parte disso se perde quando há um fechamento e isolamento. Conviver entre iguais é diferente de conviver em espaços compostos por sujeitos diferentes, mas com direitos garantidos de forma equivalente. Entendo que boa parte dos brasileiros, não só esses jovens, apresenta uma mistura de posições progressistas e conservadoras. É o que pesquisas mais recentes, como a da organização  More in Common Brasil, têm revelado. Acho que um dos desafios contemporâneos passa justamente por reconstruir partes da esfera pública que não operem apenas pela lógica do cancelamento, da pureza moral ou do antagonismo absoluto.

E talvez isso seja especialmente importante quando falamos de juventude. Em muitos casos, os próprios espaços das novas direitas — presenciais e digitais — mostraram-se mais abertos a acolher sujeitos que não correspondiam completamente ao “pacote fechado” esperado em determinados movimentos políticos. Nesse sentido, estou de acordo com a necessidade de aceitar e abrir espaços de discussão que incorporem divergências.

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