Por Alysson Oliveira, no blog da Boitempo
No começo desta semana, a plataforma de cinema nacional Tela Brasil anunciou os cinco filmes mais vistos nos primeiros quinze dias do streaming lançado pelo Ministério da Cultura. Sem muita surpresa, eles são: A hora da estrela, de Suzana Amaral; Deus e o Diabo na terra do Sol, de Glauber Rocha; Carandiru, de Hector Babenco; O menino e o mundo, de Alê Abreu; e O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto. Mas, entre os mais de 500 filmes disponíveis no serviço, há pérolas e curiosidades que merecem ser descobertas.
Cerimônias da inauguração da Catedral em Santa Maria (1910), de Eduardo Hirtz
Com apenas 5 minutos e sem qualquer som, obviamente, as imagens filmadas por Hirtz mostram a procissão de saída da inauguração da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 5 de dezembro de 1909. É um curta simples, mas tocante, e de grande valor histórico desse diretor, produtor, cinegrafista e exibidor que foi uma figura fundamental na construção da identidade cinematográfica do Rio Grande do Sul.
Apuros de Genésio (1940)
Sem diretor creditado, esse curta cômico era uma propaganda anunciando os próximos espetáculos do humorista e artista multifacetado campineiro Genésio Arruda. Chamado por ele de “brincadeira cinematográfica”, o filme o acompanha em suas estripulias pelas ruas. A restauração do filme faz parte do projeto Nitratos, promovido pela Cinemateca Brasileira, que promove a conservação, catalogação e digitalização de filmes em nitrato da coleção mais antiga do cinema brasileiro, com obras produzidas nas cinco primeiras décadas do século XX.
A noite do espantalho (1974), de Sérgio Ricardo
O multiartista, para usar um termo contemporâneo, Sérgio Ricardo pode ser mais lembrado pelo episódio do violão quebrado no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1967, o que é muito injusto, afinal, ele tem uma obra sólida e importante. Sua relação com o cinema sempre foi muito próxima. Além de, por exemplo, fazer a trilha sonora de Deus e o Diabo na terra do Sol, ele dirigiu alguns filmes como o belíssimo musical A noite do espantalho protagonizado por um jovem Alceu Valença, no papel do Espantalho, numa espécie de faroeste caboclo sobre coronelismo no sertão de Pernambuco.
A mão do povo (1975), de Lygia Pape
A artista plástica Lygia Pape mergulha na cultura nacional mostrando, nesse documentário, como as tradições populares estão ameaçadas de desaparecimento diante do progresso desenfreado e da ascensão pelo consumo. “O antigo criador não percebe conscientemente a desvinculação cultural que vai o transformar no consumidor do kitsch mais reles. […] De uma existência natural, ele passa à existência em uma meio-cultura. Pela via do kitsch, ele julga ascender ao status de homem da cidade, e isso é gratificante para ele”, narra a artista diretora.
Partido alto (1982), de Leon Hirszman
Conhecido por suas ficções S. Bernardo (1973) e Eles não usam black-tie (1981), Hirszman dirigiu diversos curtas e longas-metragens. Partido Alto, feito em colaboração com o grande Paulinho da Viola, é uma declaração de amor a esse estilo de samba surgido no processo de urbanização do Rio de Janeiro. Muito bem filmado, dando espaço aos sambistas e à sua arte, é uma observação carinhosa com muito samba de partido alto. “A arte mais pura é o jeito de cada um, e só o partido alto oferecia essa oportunidade”, comenta Paulinho.
Amigos de risco (2007), de Daniel Bandeira
O primeiro longa do pernambucano Daniel Bandeira traz, em seus bastidores, uma história triste, mas com final feliz. Exibido pela primeira vez no Festival de Brasília de 2007, o filme foi bem recebido e, por isso, requisitado para outros festivais e mostras. Numa época em que o cinema digital ainda não era tão acessível, o diretor tinha apenas uma cópia em 35mm – pois era muito caro fazer outras –, e os rolos do filme foram perdidos pela companhia aérea. Depois de uma longa batalha na justiça, o diretor e a empresa chegaram num acordo em 2014, mas apenas em 2022 o longa estreou nos cinemas. Todo esse tempo, porém, não diminuiu sua importância e qualidades. “Algumas coisas não mudam: a relação de hostilidade entre habitantes (sobretudo da periferia) e a cidade; a iminência da violência; o preconceito de classes”, disse o cineasta em entrevista.
Jonas e o circo sem lona (2015), de Paula Gomes
Premiado em diversos festivais no Brasil e no exterior, o filme de Paula Gomes acompanha Jonas, um garoto que tinha 13 anos na época da filmagem e vivia na periferia de Salvador. No quintal de sua casa, o menino construiu um lugar a que chamava de circo, e que se tornou um espaço de sonhos e utopias. “E esse circo? É só pra brincar nas férias ou pra vida toda?”, pergunta a diretora. “Eu acho que é pra vida toda. Eu acho…”, responde o garoto. A fotografia de Haroldo Borges, também um dos produtores do filme, é um ponto alto aqui.
Boca de Fogo (2017), de Luciano Pérez Fernández
Premiado no Festival É Tudo Verdade, esse curta documental transforma o futebol raiz em poesia. Na pequena Salgueiro, cidade do interior pernambucano, o público enfrenta o calor escaldante para acompanhar jogos locais, protagonizados por jogadores, como eles, apaixonados pelo futebol. Enquanto isso, o comentarista Boca de Fogo transforma os jogos em brincadeiras de linguagem com sua voz inconfundível, tornando as partidas ainda mais empolgantes. O filme é uma declaração de amor ao futebol raiz – uma categoria cada vez mais rara.
Torquato Neto – Todas as horas do fim (2017), de Marcus Fernando e Eduardo Ades
Figura central do Tropicalismo brasileiro, o piauiense Torquato Neto está entre os fundadores dessa expressão artística. Transitando entre diversas artes e movimentos, sua trajetória curta, mas potente, é resgata nesse documentário rico em imagens de arquivo, e iluminado com sua poesia, declamada pelo ator Jesuíta Barbosa.
Inventário de imagens perdidas (2023), de Gustavo Falcão
O longa de Falcão é marcado por estranhamentos, a começar pelo título. A trama é situada numa distopia fundamentalista, quando uma guerra civil toma o país. A fotografia do premiado Bruno Polidoro é fundamental na construção desse mundo estranho, marcado por um céu alaranjado. Maria (Maria Galant) e Larissa (Larissa Mauro) tentam fugir da opressão e encontram refúgio numa casa aparentemente abandonada, mas o local guarda as memórias de um cineasta, Roberto (Roberto Oliveira), que viveu ali.
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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem Mestrado e Doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner.




