Lívia Oliveira, na AFN
Enchentes, inundações e enxurradas já atingiram milhares de pessoas no Brasil, deixando perdas materiais, danos à infraestrutura e mortes. Um estudo que analisou desastres hidrológicos registrados no país entre 2000 e 2023, a partir de índices inéditos, mostra que as perdas humanas e os prejuízos à infraestrutura de saúde não se distribuem de forma uniforme no país, e seus impactos atingem com mais intensidade a Região Norte.
O estudo, desenvolvido por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), se debruçou em avaliar os prejuízos imediatos causados por desastres hidrológicos no Brasil, tendo como foco as perdas humanas e danos à infraestrutura de saúde. Realizada em parceria com pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Universidade Federal do Alagoas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e da London School of Hygiene and Tropical Medicine, a pesquisa desenvolveu três indicadores para medir esses impactos.
Um deles é o Índice de Perdas Humanas (Human Loss Index – HLI), composto por informações sobre mortes, feridos, enfermos, desabrigados, desalojados e desaparecidos. Há ainda o Índice de Perdas na Infraestrutura de Saúde (Health Infrastructure Loss Index – HII), que considera a quantidade de unidades de saúde danificadas ou destruídas, o valor monetário dos danos materiais às instalações de saúde pública e prejuízos associados à assistência médica, à saúde pública e ao atendimento médico de emergência. E o Índice Geral de Severidade (General Severity Index – GSI), que combina os dois anteriores.
A partir de dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID), os pesquisadores analisaram a frequência, intensidade e distribuição desses eventos ao longo do tempo e do território brasileiro. Embora muitas vezes tratados como “naturais”, esses desastres resultam da combinação entre mudanças climáticas, vulnerabilidades socioeconômicas, ação humana e ausência ou inadequação de políticas públicas, atingindo com maior intensidade populações já vulnerabilizadas e regiões com menor capacidade de resposta.
De acordo com a pesquisadora líder do estudo, Gisele Paixão Pereira, as perdas humanas apresentam maior distribuição no território brasileiro, mas no que tange a infraestrutura de saúde, a análise indicou uma maior concentração dos impactos na Região Norte.
“Do ponto de vista territorial, os municípios da região amazônica, especialmente Japurá e Atalaia do Norte, registraram os maiores índices combinados de perdas. Esses resultados refletem vulnerabilidades associadas ao isolamento geográfico, à fragilidade da infraestrutura local e às desigualdades socioeconômicas”, explica.
Ainda segundo a pesquisadora, o impacto dos desastres hidrológicos na Região Norte também está associado à presença de populações indígenas, que costumam ser mais vulnerabilizadas historicamente aos impactos dos eventos climáticos extremos. O mesmo ocorre com populações ribeirinhas e moradores de municípios isolados.
“No Norte, os impactos são agravados pela fragilidade das unidades de saúde, marcada por deficiências estruturais, ausência de protocolos de emergência e escassez de recursos humanos e materiais, o que frequentemente leva à interrupção dos serviços durante eventos extremos”, pontua.
Os territórios refletidos nos impactos
Em nível nacional, os resultados sugerem que a ocorrência de desastres afetou principalmente áreas residenciais, em vez de instalações de saúde pública. E, ao longo dos anos, as perdas humanas variaram menos, com alguns picos em 2006, 2011, 2015 e 2019. Já os danos à infraestrutura de saúde, ocorreram com menor frequência, com valores máximos em 2012, 2019 e 2023. Nesses casos, a capacidade de atendimento em momentos críticos foi comprometida.
Os municípios pequenos, isolados e socialmente vulnerabilizados são os que mais sofreram com os impactos de desastres hidrológicos no Brasil, locais onde as unidades de saúde operam com fragilidades estruturais, escassez de profissionais e limitações de recursos. Os maiores níveis de severidade foram identificados em municípios do Amazonas, com destaque para Japurá, que registrou o maior Índice Geral de Severidade, seguido por Careiro da Várzea e Atalaia do Norte, todos no estado do Amazonas.
Além deles, os autores identificaram municípios severamente afetados em diferentes regiões do país. No Nordeste, inundações têm se tornado uma ameaça crescente, agravada por vulnerabilidades sociais e deficiências estruturais. No Sul e Sudeste, a maior renda média não elimina fragilidades na infraestrutura urbana e na gestão de riscos. Esse resultado evidencia que os impactos dos desastres hidrológicos não se restringem à Amazônia, alcançando também regiões com perfis socioeconômicos e capacidades institucionais distintas.
“Os desastres hidrológicos no Brasil são fortemente influenciados por desigualdades sociais, planejamento urbano deficiente e políticas preventivas frágeis. As perdas humanas e de infraestrutura de saúde afetam desproporcionalmente as populações vulnerabilizadas, agravando as desigualdades pré-existentes”, observa Gisele.
Diante do aumento da frequência e intensidade dos eventos extremos associados às mudanças climáticas, Gisele e os demais autores defendem estratégias integradas que combinem adaptação climática, redução da pobreza e das desigualdades sociais e regionais, bem como o fortalecimento da infraestrutura pública urbana e de saúde. Ela também destaca que as iniciativas internacionais, como o acordo global adotado pelas Nações Unidas, o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), frisam a importância da redução da mortalidade, quantidade de pessoas afetadas e perdas econômicas nas consequências de desastres. Para isso, Gisele destaca a importância de haver monitoramento e relatos dos impactos de eventos extremos. Uma das maneiras de realizar isso é tendo os índices desenvolvidos como ferramenta.
“A construção desses indicadores pode funcionar como uma ferramenta estratégica para a governança do risco de desastres, apoiando gestores na identificação de áreas mais vulneráveis, na priorização de investimentos preventivos e no planejamento de ações de resposta, recuperação e reconstrução”, enfatiza Gisele. Os resultados do estudo apontam que cidades mais preparadas e menos vulnerabilizadas socialmente tendem a sofrer menos perdas diante de eventos climáticos extremos.




