“Anatomia do Caos” revisita bastidores da CPI da Covid

O documentário de Dandara Ferreira reúne registros exclusivos para reconstruir um dos períodos mais dramáticos da história do país. Em Manaus, cidade marcada pelo colapso do oxigênio, a sessão foi seguida por um debate sobre memória e justiça

Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real

Manaus (AM) – O documentário “Anatomia do Caos”, que revisita os bastidores e a condução da CPI da Covid, em 2021 no Senado, foi exibido gratuitamente em duas sessões em Manaus, nesta semana. O filme entrou em cartaz no circuito comercial no dia 2 de julho em 16 cidades brasileiras, com exibições em salas de cinema e espaços culturais. Uma das sessões em Manaus foi acompanhada pela reportagem da Amazônia Real.

Com a presença da diretora Dandara Ferreira, a sessão realizada nesta quarta-feira (08) no Cine Teatro Guarany, na capital amazonense, levou o público de volta às memórias da crise sanitária de janeiro de 2021, período mais crítico e traumático da segunda onda da pandemia de Covid-19, quando pacientes morreram asfixiados durante o colapso do sistema de saúde provocado pela falta de oxigênio na capital amazonense. 

Ao fim da exibição, muitas pessoas presentes deram seus próprios depoimentos, relembrando a perda de parentes e amigos. A sessão foi transformada em espaço de memória coletiva de luto e de cobrança por justiça e foi marcado por depoimentos emocionados do público. Muitos compartilharam lembranças dos dias mais críticos da pandemia.

A professora e historiadora amazonense Gleice Antônia de Oliveira lembrou que cerca de 500 profissionais da educação morreram por Covid-19 no Amazonas e criticou a forma como a categoria foi tratada durante a crise sanitária.

Segundo ela, professores precisaram aprender novas ferramentas digitais, comprar equipamentos com recursos próprios e orientar estudantes e familiares sobre medidas de prevenção, enquanto eram acusados de não trabalhar.

“Isso que estamos fazendo aqui hoje é inédito desde que a pandemia aconteceu. Eu estou tomada por um ódio de classe daqueles que permitiram que nossos parentes, amigos e vizinhos morressem. E não são apenas 700 mil mortos. Houve subnotificação. Nós não vamos permitir que isso seja esquecido”, manifestou.

Dandara Ferreira optou por fazer um documentário exclusivamente baseado nas investigações e depoimentos dados durante a CPI. Agora, ela espera que o filme seja um chamado à responsabilização pelos atos cometidos durante a pandemia. A expectativa da diretora é que a obra reacenda o debate sobre a possível reabertura das investigações da CPI da Covid-19 e pressione por justiça diante das milhares de mortes registradas no país, além de um pedido de desculpas do antigo governo às vítimas e seus familiares. 

“Essa história não está resolvida. Bolsonaro nunca foi responsabilizado pelo que aconteceu durante a pandemia. Mais de 700 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Espero que esse filme faça as pessoas voltarem a discutir esse assunto e cobrar justiça. Eu procurei Bolsonaro para poder saber se ele queria pedir desculpa, mas eu também nunca tive resposta”, concluiu.

Em Manaus, “Anatomia do Caos” continuará em exibição na sala de cinema do espaço cultural Casarão das Ideias.

Imagens inéditas

A CPI da Covid foi realizada entre abril e outubro de 2021 e seu relatório final recomendou o indiciamento de várias autoridades, e agentes públicos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o então governador do Amazonas, Wilson Lima.

Apesar de sua importância, a CPI também recebeu muitas críticas. Uma delas refere-se à ausência de investigação sobre o impacto da covid-19 nas populações indígenas. A então deputada federal Joênia Wapichana (Rede) chegou a entregar um dossiê ao senador Omar Aziz, presidente da CPI.

Em 2025, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar o resultado da CPI da Covid.

“Anatomia do Caos” traz entrevistas com parlamentares e exibe relatos de vítimas ou familiares de vítimas da doença que participaram das sessões da CPI no Senado Federal. 

O filme também reúne imagens inéditas gravadas pela diretora durante as sessões da CPI, registros de bastidores e entrevistas com os políticos envolvidos, documentos oficiais e arquivos de emissoras de televisão para mostrar as omissões do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o negacionismo científico, o atraso na compra de vacinas e as consequências da crise sanitária que deixou mais de 700 mil mortos no país.

O ex-presidente Jair Bolsonaro frequentemente se referia ao vírus como uma “gripezinha”, posicionando-se fortemente contra medidas de isolamento social e o uso de máscaras. Bolsonaro também promoveu o uso de medicamentos como a hidroxicloroquina, mesmo após a comunidade científica global atestar sua ineficácia contra a Covid-19, além de questionar a segurança e eficácia de vacinas e imunizantes de origem chinesa.

Segundo Dandara Ferreira, “Anatomia do Caos” nasceu da necessidade de preservar a memória de um período que, para ela, ainda permanece sem respostas. Por meio das filmagens da CPI da Covid-19, o documentário também dialoga com questões atuais, como a desinformação e a fragilidade democrática.

“Como documentarista, eu tinha que registrar o que estava acontecendo no nosso país. Fui à Brasília e trabalhei meio invisível nos bastidores, no pico da pandemia. Esse filme também não fala apenas sobre a pandemia, não fala só sobre o Congresso Nacional. Eu acho que ele fala sobre o Brasil”, disse.

Foi movida por esse sentimento que, em abril de 2021, em meio ao medo, à incerteza e à revolta diante das mortes, a diretora decidiu ir a Brasília para acompanhar e registrar os trabalhos da comissão. 

“É um ano importante para as nossas decisões. O filme fala sobre fake news, desinformação e sobre o tipo de democracia que queremos construir. É um filme que fala sobre memória e justiça. A gente não pode deixar que mais de 700 mil brasileiros virem apenas números e estatísticas. Ali tinham sonhos, famílias, nomes. Para o país progredir com democracia, a gente precisa cuidar da nossa memória”, disse ao público presente na sessão, após a exibição. 

Em entrevista à Amazônia Real, a diretora afirmou que o maior desafio foi transformar em cinema uma história sem desfecho, pois ninguém foi responsabilizado pelas negligências cometidas durante a pandemia. “A pandemia ainda é um luto coletivo que a gente está vivendo. Meu desafio foi transformar isso em filme sem saber o desfecho. Também tive muito cuidado para tratar essas histórias com respeito, sem transformar a dor das pessoas em oportunismo”, destacou.

Manaus como símbolo da tragédia

Para Dandara Ferreira, exibir o documentário em Manaus tem um significado particular, já que a cidade viveu um dos episódios mais graves em relação a Covid-19 no Brasil. Manaus registrou oficialmente 9.686 mortes confirmadas pela doença, segundo dados históricos do Governo do Amazonas. No estado do Amazonas, o total de óbitos chegou a mais de 14.000 ao longo da pandemia. 

Embora a diretora não tenha acompanhado os desdobramentos da pandemia em Manaus, o documentário foi construído a partir do material registrado por ela nos bastidores da CPI da Covid, em Brasília. Além das imagens dos corredores e sessões da comissão, o longa reúne entrevistas com parlamentares que participaram das investigações, como o senador Omar Aziz, então presidente da comissão.

“Eu estava muito curiosa para vir porque o que vocês viveram aqui não foi o que a gente viu no restante do Brasil. O que aconteceu aqui foi muito maior. Vocês foram usados como cobaias. Eu queria mais ouvir do que falar, entender como essa história ainda bate para vocês”, declarou a diretora.

A capital amazonense tornou-se um dos principais símbolos da crise sanitária brasileira durante a segunda onda da pandemia. Em janeiro de 2021, hospitais ficaram sem oxigênio enquanto pacientes morriam por asfixia em unidades de saúde públicas e privadas. Familiares percorreram a cidade em busca de cilindros para manter parentes vivos, chegando a pagar até R$10 mil por um equipamento.

Naquele período, Manaus concentrava todos os leitos de terapia intensiva do estado, tornando-se o único local de referência para pacientes vindos dos 62 municípios do Amazonas. O colapso hospitalar expôs a fragilidade da estrutura de saúde na região e ganhou repercussão internacional.

A pandemia também evidenciou desigualdades históricas na Amazônia. Povos indígenas e comunidades tradicionais enfrentaram dificuldades para acessar testes, atendimento médico e vacinação, enquanto a interiorização do vírus coincidiu com o avanço das invasões e do desmatamento em territórios protegidos. Em diversas regiões, lideranças organizaram cordões sanitários e barreiras para conter a circulação da doença diante da ausência de respostas efetivas do Estado.

Dandara Ferreira é diretora e roteirista, formada em Cinema pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e doutoranda em Comunicação Social pela UnB. Dirigiu a série “O Nome Dela É Gal” (HBO) e realizou curtas-metragens, filmes publicitários e videoclipes de artistas como Fagner (“Tanto Faz”), Ricky Martin feat. Dream Team do Passinho (“Vida”) e Vanessa da Mata (“Segue o Som”), entre outros. Em 2023, lançou seu primeiro longa-metragem, “Meu Nome É Gal”, no qual atua como diretora e atriz. Atualmente, finaliza o documentário “Vou Tirar Você Desse Lugar”, sobre a trajetória e a obra de Odair José.

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