Teremos coragem de reconhecer o que sentimos pela seleção argentina? Por Millly Lacombe

No UOL

A seleção masculina argentina fez, outra vez, o impossível em campo. Perdendo para os ingleses, parecendo não conseguir mais encontrar força física para correr, ela foi buscar uma virada improvável, heroica, emocionante, dramática. Em campo, esse time deixa o que tem, o que não tem, o que vem da Terra e o que cai do céu. Toda bola vale a vida. Toda bola vale a honra. Toda bola vale o mundo.

A Argentina nunca deixou de ser dentro de um campo de futebol o que é culturalmente. Ao contrário do Brasil, que pratica o entreguismo filosófico de sua cultura futebolística imitando europeus de forma triste e vulgar, a Argentina, mesmo perdendo, segue sendo o que seu povo quer que ela seja. Facilita, claro, ter Messi em campo. Mas poderíamos também ter alguém genial vestindo a nossa 10 se não tivéssemos deixado de formar meias ou aberto mão da criatividade, da coragem, da ousadia, do drible, do Brasil verdadeiro. Neymar não cumpriu seu destino, que poderia ter sido chegar perto de ser Messi. Optou por jamais amadurecer, por não ser jogador tático, por virar celebridade.

Thomas Tuchel foi covarde, e isso precisa ficar registrado. Lionel Scaloni foi corajoso, e isso também é preciso registrar. Perdendo, tirou o volante e mandou o time para frente. Dois treinadores que participaram ativamente da construção do resultado; um pela covardia e o outro pela ousadia.

A Inglaterra fez um a zero e recuou. Achou que, como fez contra o México, ia segurar. Mas a Argentina não sabe o que é a fronteira do impossível. Eles jogam todas as bolas como se fossem a última bola da vida. É comovente, é lindo, é edificante, é corajoso, é inspirador. São chatos dentro do campo, verdade. Mas estão mobilizados pelo grupo e pela nação e não por si mesmos. Se com a gente todo dia é um sete a um, com eles todo dia parece ser um milagre alcançado.

Choram, se debulham, se beijam, se acabam, se rasgam. É paixão em estado puro. É o reconhecimento de que estamos diante do sublime. Um grupo de homens que recusa a rendição e que sabe que tudo o que têm é o aqui e agora. Entram na dimensão do sagrado com as chaves que só essa paixão é capaz de fornecer.

Um pequeno país no sul da América vai rendendo os poderosos europeus jogo após jogo, Copa após Copa. A gente vê e sente o que? Honestamente, o que sentimos? Chama inveja e é difícil reconhecer. Quanto mais a Argentina joga, mais ridícula fica a seleção brasileira masculina. Os vizinhos estão em outra final. Com honras. E a gente que lute com o que sente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro − dois =