Há doses de cálculo político por trás do histrionismo do presidente argentino? Sua presença poucos votos rende a Flávio Bolsonaro. Talvez seu objetivo seja se firmar como líder da onda reacionária na América Latina – que cobiça a maior economia da região
Por Bruno Fabricio Alcebino da Silva*, em Outras Palavras
No último sábado, 25 de julho, o presidente argentino Javier Milei subiu ao palco do Mercado Pago Hall, na Arena Pacaembu, em São Paulo, para discursar na convenção nacional do Partido Liberal (PL) que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O que deveria ser um gesto de apoio internacional a um aliado ideológico transformou-se, em poucas horas, em um incidente diplomático entre Brasília e Buenos Aires, e reacendeu uma pergunta que analistas de política externa vêm formulando desde o início do mandato de Milei: até que ponto o presidente argentino busca converter afinidade ideológica em um projeto de liderança regional da direita latino-americana?
I. O discurso na Arena Pacaembu e a crise diplomática
Durante cerca de meia hora, Milei repetiu o receituário já conhecido de seus discursos internos: crítica ao “socialismo”, celebração de derrotas eleitorais da esquerda na região e aposta na chegada ao Brasil daquilo que a própria campanha de Flávio Bolsonaro batizou de “onda azul”, mas elevou o tom ao classificar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca”, este último em represália à decisão do STF de negar-lhe uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília após condenação por tentativa de golpe de Estado. Milei ainda acusou o governo brasileiro de tentar financiar uma campanha contra a Argentina, afirmação sem lastro público conhecido até o momento, mas ilustrativa do tom do embate.
A resposta brasileira veio por via diplomática formal: o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos, e chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para uma reunião de avaliação, enquanto o chanceler Mauro Vieira transmitiu a repulsa do governo brasileiro aos impropérios do presidente argentino. O próprio Lula preferiu o deboche à resposta formal: questionado por jornalistas sobre as falas de Milei minutos antes de receber o presidente sul-coreano Lee Jae-myung no Palácio do Itamaraty, resumiu o argentino a um lacônico “Quem é esse cara?”.
A reação do primeiro escalão do governo, porém, esteve longe de ser uniforme. Enquanto o Itamaraty e o próprio Lula optaram pela cautela, um integrante da pasta chegou a admitir à imprensa que Milei tende a crescer em engajamento quando provoca um embate direto com o presidente brasileiro, ministros como Dario Durigan (Fazenda) e Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) foram bem mais ácidos nas redes sociais, chamando o argentino, respectivamente, de “palhaço” e de “caricatura patética” e puxa-saco do presidente americano Donald Trump. O contraste sugere um cálculo: a diplomacia tradicional teme alimentar a visibilidade internacional de Milei, enquanto a ala mais identificada com a militância digital vê vantagem em confrontá-lo publicamente.
O episódio, de todo modo, não é isolado. Desde a eleição de Milei em 2023, a relação bilateral já vinha marcada por trocas ásperas, o mandatário argentino chamou Lula de corrupto e comunista ainda na campanha daquele ano, e o presidente brasileiro cobrou publicamente, em 2024, um pedido de desculpas que nunca veio. A fala na convenção do PL é, portanto, menos uma ruptura súbita do que a reedição, em tom mais agressivo e, desta vez, em solo brasileiro, de um padrão já conhecido.
II. Um acerto de cálculo? Os efeitos eleitorais da fala de Milei
A pergunta que mais interessa à campanha de Flávio Bolsonaro não é sobre a temperatura da crise diplomática, a extrema direita é ávida ao escândalo, mas sobre seu efeito eleitoral.
De um lado, pode-se interpretar que a presença de Milei representa um ganho político relevante para Flávio, ao internacionalizar sua candidatura e agregar uma voz estrangeira às críticas dirigidas ao governo Lula e ao STF. Essa leitura converge com uma estratégia construída há meses: Flávio esteve na Casa Branca com Trump em maio, viajou a Buenos Aires para uma reunião com Milei na Quinta de Olivos no fim de junho e acompanhou, em março, a posse do chileno José Antonio Kast. Trata-se de um esforço deliberado para associar sua imagem a uma rede internacional de líderes conservadores em ascensão e reforçar sua projeção política no campo conservador.
Por outro lado, esse ganho político não necessariamente se traduz em um ganho eleitoral amplo. Seu principal efeito parece concentrar-se na mobilização e no entusiasmo da base mais ideologizada do bolsonarismo, com impacto potencialmente mais limitado sobre o eleitorado moderado, para quem uma fotografia ao lado de Milei dificilmente amplia, por si só, a atratividade da candidatura. Em outras palavras, o “acerto” parece voltado sobretudo à consolidação de um público que já era de Flávio, mais do que à conquista do eleitor indeciso, segmento que costuma desempenhar papel decisivo nas eleições brasileiras.
Esse cálculo tem custo. A ofensiva verbal contra Lula e Moraes forneceu munição tanto a adversários da esquerda quanto, de forma talvez mais reveladora, a concorrentes da própria direita. Ainda no domingo, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), também pré-candidato à presidência, classificou o episódio como “baixaria” e questionou publicamente que resultado concreto os ataques trouxeram à população; no dia seguinte, foi além, chamando de inadmissível a interferência de um líder estrangeiro no processo eleitoral brasileiro.
Do lado governista, parlamentares já articulam representações judiciais contra a participação de Milei no evento, em meio a um debate mais amplo sobre financiamento eleitoral e atuação de agentes estrangeiros em campanhas nacionais, risco jurídico que se soma, no pano de fundo, à própria política tarifária americana e às críticas do Departamento de Estado dos EUA ao STF, movimento que pode ser interpretado como parte de uma aproximação mais ampla entre o bolsonarismo e a rede internacional da ultradireita, incluindo figuras como o ex-estrategista-chefe da Casa Branca Steve Bannon e o secretário de Estado Marco Rubio.
Em síntese, o discurso de Milei parece ter sido, a um só tempo, um acerto tático de curto prazo, ao conferir reforço moral, projeção internacional e visibilidade ao lançamento da candidatura de Flávio, que, sem essa participação, provavelmente teria passado quase despercebido no cenário nacional, e um risco estratégico de médio prazo, na medida em que reabre, inclusive para os próprios concorrentes bolsonaristas, o argumento de que sua candidatura depende excessivamente de padrinhos internacionais.
III. Lula na frente, direita fragmentada: o que dizem as pesquisas
O contexto eleitoral em que a fala de Milei foi proferida ajuda a explicar por que a campanha decidiu correr esse risco. As pesquisas mais recentes mostram Lula à frente na maioria dos institutos, mas com um campo à direita ainda longe de consolidado.
A sétima rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 27 de julho, mostra Lula com 42% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro, distância que era de 40% a 34% na rodada anterior, de meados de julho. No segundo turno, Lula mantém vantagem estável de quatro pontos: 47% a 43%. Já a Quaest, em pesquisa de 15 de julho, apontou diferença maior, entre 10 e 12 pontos no primeiro turno, a maior distância das seis rodadas do instituto em 2026, e mostrou também erosão do apoio a Flávio dentro da própria direita não bolsonarista, cuja intenção de voto no senador recuou de 82% para 74%. O Datafolha, por sua vez, registrou Lula à frente em todos os cenários testados, com 40% no primeiro turno e 48% num eventual segundo turno contra Flávio. A exceção fica por conta da pesquisa Gerp, que mostrou empate técnico de 38% a 38% no primeiro turno e pequena vantagem de Flávio no segundo, lembrete de que, apesar da tendência predominante, ainda há variação metodológica relevante entre os institutos.
Mais revelador que os números de Lula, contudo, é o retrato da fragmentação à direita. Até o início do ano, o nome mais competitivo do campo conservador nas pesquisas era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, visto como capaz de dialogar com o eleitorado moderado e o mercado financeiro sem depender exclusivamente do bolsonarismo. Mas, pressionado pela lealdade ao clã Bolsonaro e por um cenário fragmentado, Tarcísio recuou e declarou publicamente, ainda em janeiro, que seu nome “a partir de agora” seria o de Flávio Bolsonaro, gesto de unificação formal que, no entanto, não resolveu as disputas internas do campo.
Michelle Bolsonaro segue como fator de instabilidade dentro da própria família: em episódio de desentendimento público com o enteado, 42% dos entrevistados pela Quaest concordam mais com a ex-primeira-dama do que com Flávio, contra apenas 18% que dão razão ao senador, sinal de que ela mantém capital político próprio e pode ser cortejada por outras candidaturas. A reorganização da direita pós-Bolsonaro pode ser vista como fragmentada em pelo menos dois eixos: um identificado com pautas morais e religiosas, com Michelle como possível representante, e outro voltado à agenda de segurança pública, historicamente associado a Tarcísio. A essas duas alas somam-se candidaturas de desempenho ainda marginal, Ronaldo Caiado, Renan Santos (do recém-criado Partido Missão) e o governador mineiro Romeu Zema, todos na faixa de três a seis pontos percentuais no cenário estimulado mais recente da BTG/Nexus.
É nesse quadro de direita fragmentada, e não unificada em torno de um nome, que a fala de Milei ganha sentido tático: mais do que resolver a fragmentação, ela tenta consolidar Flávio como o polo de maior visibilidade internacional dentro de um campo ainda disperso.
IV. Lima, Bogotá e a ambição continental de Milei
O envolvimento de Milei na campanha brasileira não pode ser lido isoladamente da agenda internacional que vem construindo desde o início do mandato, agenda que ficou ainda mais visível nesta terça-feira, 28 de julho, data em que Keiko Fujimori tomou posse como presidente do Peru, dez dias antes da posse do colombiano Abelardo de la Espriella.
A cerimônia em Lima marca o retorno da direita ao poder peruano e a volta do sobrenome Fujimori à Casa de Pizarro, 26 anos depois da queda do governo autoritário de Alberto Fujimori. Keiko, que já havia perdido três disputas presidenciais anteriores em segundo turno, venceu desta vez o esquerdista Roberto Sánchez por menos de 50 mil votos, tornando-se a primeira mulher eleita para a Presidência do país e a nona presidente peruana em uma década de instabilidade institucional. Milei esteve presente à cerimônia; Lula preferiu enviar o chanceler Mauro Vieira; e Flávio Bolsonaro, que meses antes havia acompanhado a posse de Kast no Chile, empossado em 11 de março, após vencer Jeannette Jara, sucessora indicada por Gabriel Boric, optou desta vez por não viajar a Lima, priorizando agenda em Brasília, ainda que tenha parabenizado Keiko publicamente e associado sua vitória ao avanço da “onda azul” na América do Sul.
O caso colombiano é ainda mais direto quanto à disputa por influência regional. Abelardo de la Espriella, empresário e advogado sem experiência prévia em cargos eletivos, venceu o esquerdista Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro, na eleição mais apertada da história recente do país, por margem inferior a um ponto percentual, e assumirá a Presidência em 7 de agosto. A imprensa internacional já o descreve como admirador declarado de Donald Trump e de Javier Milei, e o próprio Petro, ainda no poder, chegou a acusar publicamente o presidente argentino de tentar frear o projeto de integração latino-americana e de interferir na política interna colombiana, acusação que ecoa, quase ponto a ponto, o desconforto agora manifestado pelo Itamaraty em relação ao episódio da convenção do PL.
Essas coincidências não parecem acidentais. Segundo reportagem do portal argentino El Destape, crítico ao governo Milei, a construção de uma liga de nações de direita na região é projeto que o assessor presidencial Santiago Caputo persegue há cerca de três anos, inspirado inicialmente numa aliança com Itália, Hungria, Polônia e Israel, e hoje mapeado sobre lideranças sul-americanas como José Antonio Kast (Chile), Daniel Noboa (Equador), Abelardo de la Espriella (Colômbia), Keiko Fujimori (Peru), Santiago Peña (Paraguai), Rodrigo Paz (Bolívia), e o presidente de El Salvador Nayib Bukele, faltando, precisamente, definir o Brasil, apontado pela própria reportagem como peça-chave tanto para esse projeto de liderança regional quanto para o futuro do Mercosul. É exatamente essa lacuna brasileira que ajudaria a explicar o interesse pessoal de Milei em intervir na disputa interna do país vizinho.
O padrão, aliás, não é novo. Já em 2024, a poucos meses de sua posse, analistas como o internacionalista argentino Bruno Tondini apontavam que Milei buscava se marcar como líder regional dos chefes de Estado alinhados ao seu projeto liberal, em contexto de desgaste com Petro e outros governos de esquerda da região. Na mesma época, na CPAC (Conservative Political Action Conference) de Buenos Aires, o próprio Steve Bannon atribuiu a Milei a missão de expandir o “projeto ultra” pelo restante da América Latina, recebida com entusiasmo pela militância presente ao evento,
Lido em conjunto, o quadro sugere que a participação de Milei na convenção do PL foi menos um gesto pontual de solidariedade ideológica a Flávio Bolsonaro do que mais um lance dentro de um projeto geopolítico de médio prazo, no qual o Brasil, maior economia da região e âncora do Mercosul, permanece como a peça mais valiosa e ainda em disputa.
Considerações finais
A crise diplomática aberta pela fala de Milei na Arena Pacaembu dificilmente pode ser reduzida a um erro de cálculo ou a um gesto espontâneo de indignação pessoal. Ela combina, de forma bastante visível, três movimentos simultâneos: o fortalecimento tático, ainda que provavelmente limitado à base já convertida, da candidatura de Flávio Bolsonaro num momento em que a direita brasileira segue incapaz de convergir em torno de um nome único; a tentativa argentina de transformar afinidade ideológica em capital político regional, em momento de desgaste doméstico do próprio governo Milei; e a inserção do Brasil, ainda hesitante quanto ao seu lugar nessa “onda azul”, como peça decisiva de um tabuleiro que já inclui Lima, Bogotá, Santiago, Quito, Assunção, La Paz e San Salvador.
Vale um registro crítico que ultrapassa o cálculo eleitoral imediato: independentemente de quem se beneficie no curto prazo, a crescente disposição de líderes estrangeiros, sejam eles argentinos ou americanos, em intervir diretamente em campanhas presidenciais alheias, seja por meio de discursos em convenções partidárias, tarifas comerciais ou pressão diplomática, representa um fenômeno que extrapola o eixo Brasil-Argentina e tende a se tornar mais, não menos, frequente à medida que as direitas latino-americanas se organizam em redes transnacionais. Trata-se de processo que caberia às instituições eleitorais e à sociedade civil brasileiras acompanhar com atenção redobrada, independentemente do resultado que as urnas reservarão para outubro.
*Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).




