“Estamos diante de uma nova realidade de deslocamentos populacionais, agora impulsionados pelos eventos extremos de chuva e enchentes”, afirma a pesquisadora
Por: Luana de Oliveira, em IHU
As mudanças climáticas têm se intensificado nos últimos tempos, causando desequilíbrio climático e catástrofes ambientais em diferentes regiões do globo. No Brasil, o ano de 2025 foi marcado por altas temperaturas e eventos climáticos como calor extremo, secas e enchentes. Em 2024, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul inundaram 478 municípios, causando cerca de 185 mortes. O clima intenso também atinge as florestas, onde os povos indígenas precisam mudar sua rotina de rituais e suas práticas de alimentação devido ao calor intenso que prejudica seu cultivo de alimentos.
Em entrevista concedida por videochamada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, a pesquisadora Cassia Lemos afirmou que um dos principais meios de enfrentamento da crise climática no Brasil encontra-se nas estratégias do Plano Clima, a partir das “vertentes tanto para a questão de mitigação como para as ações de adaptação”.
Com base nas pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Lemos comenta que as ondas de calor vão ser ainda mais fortes nos próximos anos. Se antes as temperaturas elevadas tinham duração média de até sete dias, agora elas poderão “chegar a ocorrer por períodos de até 52 dias”, explica.
Cassia Lemos possui MBA de Relações Governamentais (2024) e pós-graduação em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getulio Vargas (FGV) (2023). É doutora em Ciência do Sistema Terrestre pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) (2021), mestra em Geociências e Meio Ambiente pela Universidade Estadual Paulista (2015) e graduada em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Itajubá (2013). É orientadora de iniciação científica pelo INPE desde 2017 e foi assistente de pesquisa na Universidade de Melbourne, na Austrália, em 2019 e 2020.
Confira a entrevista.
IHU – Como o Brasil pode se preparar para os eventos climáticos extremos daqui para frente?
Cassia Lemos – Sou colaboradora e pesquisadora no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e aqui costumamos falar da questão das estratégias transversais para a ação climática. Essas estratégias transversais baseiam-se na ideia de que não devemos deixar que apenas os gestores e o governo tomem as decisões. Da mesma forma, a população sozinha também não consegue enfrentar esses desafios. Por isso, é necessário um esforço conjunto, com a colaboração de todos, para que possamos nos adaptar às questões climáticas.
Nossa equipe do corpo técnico do Plano Clima trabalha com a ideia de um arranjo de governança que prevê investimentos em educação, pesquisa e desenvolvimento, com o objetivo de ampliar a capacidade adaptativa tanto da população quanto da infraestrutura. Assim, as duas palavras-chave para responder a essa pergunta partem das estratégias transversais de ação para o aumento da capacidade adaptativa.
IHU – Na sua visão, houve alguma melhora nas políticas climáticas nos últimos anos?
Cassia Lemos – O Plano Clima foi um grande diferencial no período da COP-30. Tendo sua aprovação em 15-12-2025, ele é um dos principais instrumentos da política nacional sobre mudanças climáticas.
O Plano Clima tem um período de implementação de 2024 a 2035, e o interessante desse projeto é absorver as lições aprendidas no primeiro plano (publicado em 2016), chamado Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima. Este novo plano traz vertentes tanto para a questão de mitigação como para as ações de adaptação, sendo desenvolvido com a participação de mais de 24 mil pessoas.
Não é uma coisa feita a poucas mãos. Essas pessoas participaram de oficinas e consultas públicas. Foi feita uma etapa de participação pública na internet, tanto que todo mundo poderia entrar lá e acessar as metas, os objetivos de cada um desses planos e comentar sobre aquilo. Então, percebemos essa melhoria na questão das políticas públicas, onde o trabalho não foi feito apenas pelos governantes, mas também por um apanhado de profissionais.
Além de contar com cerca de 24 mil participantes, o projeto envolveu a participação de 25 ministérios federais. Não foi uma iniciativa conduzida apenas pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Embora esses dois ministérios tenham exercido a coordenação principal, cada plano setorial, como os de agricultura e recursos hídricos, por exemplo, também contou com a participação de outros ministérios responsáveis por essas áreas. Isso demonstra um esforço articulado entre diferentes setores do governo. Nesse sentido, percebemos que houve, sim, um avanço, e o Plano Clima que publicamos agora é uma evidência desse processo.
O Plano Clima é dividido em dois eixos: mitigação, voltado à redução das emissões de gases de efeito estufa, e adaptação, que define objetivos e metas para que possamos nos adaptar às mudanças climáticas.
Além disso, o Plano Clima também contempla ações transversais, que contribuem simultaneamente para ambos. No eixo de Adaptação, com o qual trabalhei mais diretamente, foram elaborados 16 planos setoriais, abrangendo temas como agricultura, oceanos e zonas costeiras e povos indígenas. Cada um desses planos foi construído a partir de um amplo esforço conjunto entre especialistas, equipes técnicas e a população, por meio de consultas públicas participativas.
IHU – Qual é o panorama atual das mudanças climáticas no Brasil a partir dos dados produzidos pelo INPE?
Cassia Lemos – Trouxe para vocês cinco questões climáticas de um estudo do INPE feito em 2023 e que serviu para embasar também as discussões dentro da ação do Plano Clima.
Quando pensamos na questão das temperaturas, esse estudo mostrou um aumento em todo o país, onde alguns locais chegaram a subir mais de 3ºC do que é o padrão de referência, principalmente na região do Nordeste e em algumas áreas de Roraima e Mato Grosso do Sul. Portanto, são áreas que quando vemos o IPCC falando “vamos passar de 1,5ºC”, na realidade o Brasil nesse estudo já mostrou que vamos passar não de 1,5ºC, mas sim de 3ºC.
Os impactos que serão observados nessas regiões estão relacionados a uma maior sensibilidade aos efeitos das mudanças climáticas. Um exemplo relevante são as ondas de calor, que apresentam um aumento expressivo em todo o Brasil. Essas ondas de calor, que anteriormente tinham duração média de até sete dias, poderão chegar a ocorrer por períodos de até 52 dias.
Quanto à precipitação anual, foi observada uma redução no Nordeste, como já era esperado, além de parte das regiões Centro-Oeste e Sudeste. Em contrapartida, houve um aumento das chuvas no Sul e em pontos da região Norte, comportamento que temos observado, principalmente neste período de El Niño, com o aumento das precipitações no Sul. Assim, a região central do Brasil, onde está concentrada grande parte da nossa produtividade, poderá enfrentar uma redução das chuvas, o que pode gerar impactos econômicos.
Outra variável que o estudo trouxe tem a ver com as chuvas intensas prolongadas, onde a região Sul vai ser a mais afetada novamente, com o aumento dos volumes médios de chuva acumulados por cinco dias, passando de 140 milímetros para 160mm.
A última variável que o estudo apresentou foi a duração dos dias secos. Esses períodos de seca vão passar o que antes era uma média de oitenta dias, agora passa para cem dias. Então, teremos um aumento de vinte dias de dias secos, e tudo isso acaba impactando na questão da economia também.
IHU – Quais regiões brasileiras estão mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas e por quê?
Cassia Lemos – No dicionário climático que costumamos utilizar, o que significa essa palavra vulnerável? Dependendo da área que estivermos, o vulnerável tem conceitos diferentes. A vulnerabilidade é o quão sensível é aquela população ou aquela infraestrutura, ou seja, analisamos o quão sensível está aquela população e qual a sua capacidade adaptativa. A combinação dessa sensibilidade com a capacidade adaptativa define a vulnerabilidade dessa população. Nesse sentido, as variáveis que compõem essa sensibilidade são, muitas vezes, as questões socioeconômicas da população.
Como as regiões Sudeste e Sul apresentam condições socioeconômicas mais favoráveis, o Nordeste e, principalmente, o Norte acabam sendo as regiões mais vulneráveis. Isso ocorre também em função das políticas e ações voltadas à ampliação da capacidade adaptativa, que muitas vezes estão mais concentradas nas regiões Sul e Sudeste do que no Nordeste e Norte.
IHU – Como a frequência de enchentes, secas e ondas de calor tem afetado a economia e a qualidade de vida da população?
Cassia Lemos – As ondas de calor, por exemplo, podem contribuir para o aumento dos casos de doenças cardiorrespiratórias, gerando uma sobrecarga no Sistema Único de Saúde (SUS). Esse é um dos exemplos de como os eventos climáticos impactam diretamente a qualidade de vida da população.
No caso das enchentes, os impactos também são significativos, pois podem provocar o deslocamento de pessoas e afetar diretamente regiões produtivas. No Sul, por exemplo, muitas áreas atingidas eram propriedades de produtores rurais, cuja produção representava sua principal fonte de subsistência. Com as enchentes, o solo foi levado pela força da água, deixando áreas sobre substrato rochoso, o que compromete a recuperação da atividade agrícola.
Esse cenário gera impactos econômicos profundos. A formação de um solo produtivo, rico em nutrientes, leva milhões de anos, e a recuperação dessas áreas levanta desafios sobre como retomar os cultivos e restabelecer a atividade agropecuária.
Além disso, há o impacto emocional e psicológico sobre as pessoas afetadas. Muitas famílias não perderam apenas suas propriedades uma vez, mas enfrentaram eventos recorrentes, o que pode gerar insegurança e a decisão de não retornar a esses locais.
Dessa forma, as enchentes não afetam apenas a população no momento do desastre, mas também provocam consequências de longo prazo, levando muitas pessoas a deixarem suas regiões de origem. Esse processo se relaciona, de certa forma, com a histórica migração causada pelas secas no Nordeste, conhecida pela saída de pessoas em busca de melhores condições de vida. A questão colocada é se estamos diante de uma nova realidade de deslocamentos populacionais, agora impulsionados pelos eventos extremos de chuva e enchentes.
IHU – De que forma a degradação da biodiversidade tem intensificado a crise climática e como é possível reverter a degradação da natureza?
Cassia Lemos – Quando pensamos em biodiversidade, muitas vezes associamos diretamente à floresta em si. As florestas desempenham um papel fundamental no estoque de carbono presente em sua biomassa, contribuindo para a redução da quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera. Além disso, elas atuam na regulação hídrica por meio do ciclo hidrológico, contribuindo para a manutenção do regime de chuvas.
Esse equilíbrio depende de uma floresta saudável. Quando ocorre a degradação florestal, que representa uma perda de biodiversidade, a capacidade de funcionamento das florestas começa a ficar comprometida. Com a redução dessa funcionalidade, a floresta deixa de contribuir da mesma forma para a produção de chuvas, resultando em um ar mais seco e, consequentemente, em solos com menor umidade. Esse cenário aumenta a vulnerabilidade a incêndios, demonstrando como a degradação da biodiversidade afeta diretamente o equilíbrio climático e ambiental.
IHU – A plataforma AdaptaBrasil MCTI, desenvolvida com participação de pesquisadores do INPE, integra indicadores de riscos climáticos. Como ela pode orientar gestores públicos na tomada de decisões?
Cassia Lemos – A plataforma AdaptaBrasil foi desenvolvida para consolidar, integrar e disseminar. De modo geral, ela foi criada para integrar dados diferentes e fontes, digerindo essas informações nos conceitos climáticos das disposições e ameaças climáticas. A partir desse trabalho com essas informações de diferentes fontes, o AdaptaBrasil gera esses indicadores climáticos.
Esses índices de indicadores climáticos são fundamentais porque servem como um diagnóstico sobre a questão da vulnerabilidade, ao analisar a exposição da ameaça climática no seu município. A partir do momento em que conhecemos os riscos aos quais um município está exposto, é possível nos prepararmos melhor e desenvolver ações de adaptação. Para isso, é fundamental identificar onde atuar, considerando os chamados fatores influenciadores no AdaptaBrasil, ou seja, os elementos que mais contribuem para o aumento do risco em determinado município.
Com essas informações, os gestores públicos conseguem tomar decisões mais direcionadas, implementando medidas que atuem sobre esses fatores e contribuam para a redução dos riscos. Essa é a proposta da plataforma AdaptaBrasil: oferecer informações qualificadas para apoiar os gestores públicos no processo de tomada de decisão e no planejamento de ações de adaptação climática.
IHU – De que forma a preservação da Amazônia e a proteção e demarcação das comunidades indígenas existentes nela são essenciais para conter a crise climática? Como as próprias mudanças climáticas têm afetado a população indígena nos territórios?
Cassia Lemos – Os territórios indígenas têm um papel fundamental na proteção da biodiversidade, ou seja, na preservação das florestas. Essas áreas muitas vezes funcionam como barreiras naturais para a expansão do fogo. Por exemplo, em uma atividade agropecuária que utiliza o fogo, quando as chamas chegam a uma área de floresta preservada, a maior umidade presente nesses ambientes pode segurar o avanço do fogo. Dessa forma, a Amazônia preservada e as terras indígenas contribuem para a contenção da crise climática, além do papel que já exercem na regulação das chuvas.
Um estudo liderado pela professora Sandra Racon, da Fiocruz, também destaca os impactos dos incêndios sobre a saúde dos povos indígenas. A ocorrência de queimadas aumenta a exposição à fumaça e pode agravar problemas respiratórios nessas populações.
Outro aspecto relacionado às mudanças climáticas observado no estudo é a relação entre os conhecimentos tradicionais indígenas e a proteção contra os impactos ambientais. Durante alguns rituais, por exemplo, os povos indígenas utilizam o urucum na pele, que, além de fazer parte do ritual, também atua como uma camada de proteção contra os raios UV, funcionando como uma forma natural de proteção solar.
O que está acontecendo nesse cenário de mudanças climáticas? Só o urucum não é o suficiente para proteger a pele deles, pois a pele está começando a ser queimada. No estudo não fala nada de câncer de pele, mas já é um indicador de mudança durante os rituais.
Os impactos das mudanças climáticas também têm alterado práticas tradicionais dos povos indígenas. Atividades que antes eram realizadas normalmente, como rituais ao meio-dia, em alguns casos já não são mais possíveis devido ao aumento das temperaturas. O solo se torna muito quente para o contato direto com os pés, a exposição ao sol passa a causar queimaduras e até o uso do urucum, que tradicionalmente atua como uma proteção natural contra os raios UV, deixa de ser suficiente diante do aumento da intensidade da radiação.
Ao analisar esses estudos e as vivências em campo, é possível perceber que os impactos das mudanças climáticas vão além dos incêndios. A rotina das comunidades também é afetada: por exemplo, os horários em que as mulheres buscam água nos riachos precisaram ser alterados devido ao aumento do calor, que dificulta o deslocamento e a realização dessa atividade.
Outro impacto importante está relacionado à alimentação. O aumento das temperaturas tem alterado os ciclos de produção dos alimentos tradicionalmente consumidos, e muitos grãos cultivados não apresentam a mesma capacidade de adaptação às novas condições climáticas. Isso acaba afetando a disponibilidade de alimentos e a própria dieta das comunidades indígenas.
A questão dos peixes também evidencia esses impactos. Com os períodos de seca, os rios sofrem com a redução da oxigenação da água, o que pode levar à morte dos peixes e comprometer uma importante fonte de alimentação. Dessa forma, as mudanças climáticas contribuem para o aumento da insegurança alimentar dos povos indígenas, afetando diretamente seus modos de vida e sua relação com o território.
IHU – Como o avanço das mudanças climáticas influencia a ocorrência de doenças, como dengue e outras arboviroses, monitoradas em estudos desenvolvidos pelo instituto?
Cassia Lemos – No âmbito do AdaptaBrasil, foram realizados estudos sobre diversas doenças, incluindo as arboviroses, como dengue, Zika e Chikungunya.
Essas doenças foram analisadas em conjunto porque possuem características semelhantes: além de serem transmitidas pelo mesmo vetor, o Aedes aegypti, muitos dos sintomas podem ser confundidos, o que pode dificultar o diagnóstico. Por exemplo, um paciente pode apresentar sintomas de dengue, mas acabar sendo diagnosticado pelo SUS com outra arbovirose. Após um amplo processo de discussão e colaboração com a Fiocruz, decidimos trabalhar a abordagem das arboviroses de forma integrada.
Um resultado bastante relevante observado nos estudos foi a mudança no cenário da dengue no Sul do país. Até recentemente, a ocorrência da doença nessa região não era uma preocupação significativa e não havia muitos registros ou relatos de casos. Porém, nos últimos anos, houve um aumento expressivo das ocorrências, incluindo surtos registrados na região, como os observados em 2024. A tendência é que esse número continue crescendo.
Esse aumento está relacionado com as condições climáticas necessárias para o desenvolvimento do vetor. O Aedes aegypti depende de uma faixa específica de temperatura para se reproduzir e sobreviver. Com as mudanças climáticas, as temperaturas mínimas no Sul do país, que historicamente eram frias, estão esquentando, criando condições mais favoráveis para a expansão do mosquito.
Tal cenário demonstra uma mudança importante: aquilo que antes não era uma preocupação prioritária para os gestores públicos passa a exigir atenção. Os dados produzidos pelo AdaptaBrasil, com os mapas de cenários climáticos para as arboviroses, foram apresentados ao Ministério da Saúde e à vigilância sanitária, mostrando como o risco pode se ampliar no Sul do país. Assim como ocorre em outras regiões do Brasil, a vulnerabilidade e a exposição já existiam, mas anteriormente não havia uma condição climática tão favorável para o desenvolvimento do vetor.
Agora, com o aumento das temperaturas, esse risco começa a se intensificar, evidenciando como as mudanças climáticas estão influenciando diretamente o avanço das doenças.
IHU – O relatório da Oxfam mostra que os mais ricos emitem muito mais carbono do que a maior parte da população. Como essa desigualdade deve influenciar as políticas climáticas?
Cassia Lemos – Temos lutado e discutido bastante sobre precisarmos de uma transição do modelo econômico. É necessário sair desse modelo econômico que vivemos hoje para um modelo que respeite a capacidade de suporte do planeta, assim como precisamos ter um equilíbrio de forma ética, onde a questão das desigualdades socioeconômicas, que são históricas, passe a ser considerada.
Precisamos de um mundo no qual as ações de adaptação climática não podem deixar de lado a população vulnerável.
Precisamos considerar especialmente as populações mais vulneráveis a partir da justiça climática e da transição justa. Quando formos definir as ações necessárias para a transição do modelo econômico, é fundamental garantir que essas populações, historicamente foram deixadas de lado, estejam incluídas no processo e sejam protagonistas desse novo modelo de desenvolvimento. Agora, se isso é uma utopia ou não, deixo para os universitários responderem.
IHU – Quais os principais impactos da ecoansiedade na saúde mental dos jovens diante do agravamento das mudanças climáticas?
Cassia Lemos – A saúde mental ainda é uma área pouco estudada e passou a receber maior atenção recentemente. Quando relacionamos saúde mental e mudanças climáticas, a disponibilidade de dados e estudos é ainda mais limitada.
Nas palestras que realizo sobre os impactos das mudanças climáticas, eu costumo começar trazendo uma reflexão: “Vamos nos desesperar com calma”. Por que gosto de dizer isso? Para trazer um pouco mais de leveza para um assunto que é tão sério.
É importante ter cautela diante do excesso de informações ao qual estamos expostos atualmente. Muitas vezes, a quantidade de notícias e dados disponíveis pode gerar medo e ansiedade, por isso é fundamental saber filtrar as informações e buscar fontes confiáveis. As mudanças climáticas são uma realidade e seus impactos já estão sendo sentidos por meio de eventos como enchentes, secas e ondas de calor. No entanto, também existem diversas possibilidades de adaptação a essa nova realidade, e precisamos desenvolver essa capacidade de adaptação.
Um material que considero relevante é o guia de bolso do Ministério da Saúde de 2024, intitulado “Mudanças Climáticas para os Profissionais da Saúde“. Embora seja direcionado aos profissionais da saúde, ele também pode ser utilizado pela população em geral, pois apresenta informações importantes sobre como agir diante de diferentes eventos climáticos e reduzir seus impactos.
Por isso, é fundamental buscar informações de qualidade, provenientes de fontes confiáveis, evitando o excesso de preocupação diante de tudo que ouvimos. Precisamos compreender que, apesar dos desafios, existe capacidade de adaptação e caminhos para enfrentar essa nova realidade.




