Pesquisa da UFG avaliou como o pequi e o jerivá podem aumentar o valor nutricional de alimentos tradicionais
Geovana Polo, Jornal UFG
A insegurança alimentar enfrentada por povos indígenas brasileiros motivou pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) a buscar uma solução dentro da própria biodiversidade nacional. A pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia em Alimentos, da Escola de Agronomia da UFG, investigou o potencial nutricional do pequi e do jerivá, frutos presentes no Cerrado e que podem ser introduzidos na alimentação dos povos indígenas, como a farofa e o beiju.
O estudo desenvolvido por Gabryel da Silva Alves mostra como a farofa da castanha do pequi torrada e a polpa e a amêndoa de jerivá são alimentos ricos nutricionalmente e que podem contribuir para a alimentação dos povos tradicionais, ajudando no combate à fome e à desnutrição. Uma pesquisa transversal feita com famílias indígenas Terena da Área Indígena Buriti demonstrou que apenas 24,5% das 49 famílias entrevistadas viviam em segurança alimentar.
O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, cobrindo 21% do território do país, ficando atrás apenas da Floresta Amazônica em relação à área. Muitos frutos das árvores do bioma são ricos em nutrientes, mas são subutilizados. O pequizeiro é uma árvore encontrada em vários estados do Brasil, como Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Tocantins e Distrito Federal, e sua frutificação ocorre entre novembro e fevereiro. Já o jerivá é uma palmeira que pode ser encontrada em vários biomas no Brasil e seu fruto doce é consumido in natura e como suco por populações nativas.
Já a mandioca é um alimento muito utilizado pelos povos indígenas e mais consumida como farofa e beiju. Embora seja um alimento-base na dieta indígena e possua grande teor energético, a mandioca apresenta baixos níveis de proteínas, minerais e vitaminas. Assim surgiu a ideia de se utilizar os frutos do Cerrado para suprir os nutrientes.
“Em estudos na literatura, muitos frutos nativos brasileiros apresentam uma riqueza nutricional por vezes escondida, com presença de fibras alimentares, lipídeos, proteínas e compostos bioativos, como se observou ser o caso da polpa e da amêndoa de jerivá e da castanha de pequi utilizados no estudo”, explica Gabryel.
A pesquisa buscou utilizar métodos simples na preparação desses alimentos, para que fossem acessíveis às práticas indígenas. “Busquei utilizar metodologias mais simples, acessíveis e que pudessem ser replicadas lá na aldeia, como, por exemplo, a secagem dos frutos ao sol de forma direta”.
Os resultados com o uso do pequi e do jerivá demonstraram ganhos nutricionais significativos comparados com os alimentos derivados da mandioca. A farofa produzida com 50% de substituição da massa de mandioca pela castanha de pequi apresentou aumento nos níveis de proteínas, lipídios e valor energético, comparada à fórmula tradicional. Já a produção de beiju enriquecida com amêndoas de jerivá mostrou um aumento significativo em relação à quantidade de fibras encontrada no alimento.
Iniciativa Amazônia+10
Gabryel afirma que pretende levar a pesquisa para dentro das comunidades indígenas. “Um dos motivos para desenvolver esta pesquisa era poder levar estes resultados para aldeias, para poder complementar nutricionalmente a dieta das pessoas, por isso também o emprego de tecnologias mais acessíveis”.
O estudo também busca recuperar conhecimentos tradicionais e incentivar o uso de alimentos naturais disponíveis em territórios indígenas. “O projeto Iniciativa Amazônia+10, do qual minha pesquisa de mestrado fez parte, busca trabalhar alternativas alimentares nutritivas para populações indígenas na Terra Indígena de Tirecatinga, no Mato Grosso, principalmente com a aldeia Serra Azul, uma região onde frutos do bioma Cerrado estavam presentes, dentre os quais o pequi”.
O projeto Iniciativa Amazônia+10 tem como objetivo apoiar a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico na floresta tropical e promover o desenvolvimento sustentável e inclusivo da região. O projeto é realizado pela UFG em conjunto com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde professores e alunos desenvolvem pesquisas com diferentes frutos.




