Artigo em revista internacional apresenta conceito de vigilância popular em saúde

Na Agência Fiocruz de Notícias (AFN)

Pesquisadores da Fiocruz estão entre os autores do artigo Popular Health Surveillance in the Face of Climate Emergencies, publicado em agosto na revista científica internacional PLOS Global Public Health. O estudo apresenta um marco conceitual da vigilância popular em saúde (VPS) como estratégia de fortalecimento da capacidade de adaptação das comunidades e dos serviços de saúde diante do avanço das emergências climáticas. O artigo parte da constatação de que eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor, têm se tornado mais frequentes e intensos, afetando principalmente populações indígenas, comunidades tradicionais, moradores de periferias urbanas e populações do campo, das florestas e das águas.

O grupo desenvolve há anos pesquisas e ações voltadas para a saúde das populações do campo, florestas, águas e povos indígenas. Esta é a primeira vez em que o conceito de vigilância popular em saúde é apresentado em uma revista internacional de grande impacto. É um conceito produzido no Brasil junto aos movimentos populares, pouco conhecido no resto do mundo, mas com grande potencial de aplicação frente às emergências climáticas.

Segundo os autores, os desafios impostos pela crise climática exigem novas formas de atuação dos sistemas de saúde, capazes de integrar conhecimentos científicos, saberes populares e experiências territoriais. Neste contexto, a vigilância popular em saúde é apresentada como uma estratégia que coloca as comunidades no centro dos processos de monitoramento, produção de informações, identificação de riscos e formulação de respostas.

A publicação reúne pesquisadores, representantes de movimentos sociais e lideranças indígenas. Entre os autores estão pesquisadores vinculados à Fiocruz Ceará, à Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, à Universidade Estadual do Ceará (Uece) e ao Ministério da Saúde.

Comunidades como protagonistas

A proposta de vigilância popular em saúde está fundamentada em princípios como a educação popular em saúde, ecologia de saberes, determinação social da saúde e o conceito do bem viver. O modelo valoriza a participação ativa das populações na produção e análise de dados relacionados às condições ambientais e de saúde dos territórios. Entre as ferramentas utilizadas estão mapeamentos participativos, oficinas comunitárias, círculos de cultura, monitoramento ambiental, comunicação popular, diagnósticos coletivos e formação de pesquisadores populares.

Para os autores, essas estratégias permitem identificar precocemente ameaças como escassez de água, contaminação ambiental, insegurança alimentar e impactos psicossociais decorrentes das mudanças climáticas, contribuindo para a construção de respostas locais e para a incidência em políticas públicas.

O estudo também destaca que a vigilância popular em saúde não busca substituir a atuação do Estado, mas fortalecer o controle social e ampliar a capacidade de resposta das políticas públicas. A articulação entre comunidades, movimentos sociais, universidades e serviços de saúde é apontada como um elemento central para aumentar a efetividade das ações de prevenção, mitigação e adaptação às emergências climáticas.

A pesquisa integra um conjunto internacional de estudos apoiados pela Alliance for Health Policy and Systems Research e pelo Programa de Emergências em Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ambos são voltados ao fortalecimento da governança de instituições públicas de saúde diante dos desafios contemporâneos.

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