Ecos do antissemitismo e a vida psíquica na Palestina ocupada. Por Rima Awada e Tiago Guilherme Faria

O que fazer quando as ações do Estado de Israel se parecem com antigos estereótipos antissemitas?

No Blog da Boitempo

Existe um problema intelectual nas denúncias sobre os crimes do Estado de Israel contra o povo palestino que raramente é enfrentado com honestidade.

Ao longo da história, os judeus foram vítimas de inúmeras acusações falsas que alimentaram perseguições, expulsões e massacres. Foram acusados de envenenar poços, matar crianças para rituais, controlar governos, dominar bancos, manipular a imprensa e conspirar para dominar o mundo. Essas narrativas serviram para justificar séculos de antissemitismo. Mas isso nos coloca diante de uma pergunta inevitável: O que devemos fazer quando uma ação praticada pelo Estado de Israel, por seus agentes ou por colonos israelenses se assemelha a um ou mais desses antigos estereótipos?

Muitas pessoas parecem acreditar que a resposta é simples: não falar sobre o assunto. Afinal, qualquer denúncia que lembre uma antiga narrativa antissemita seria, por definição, suspeita. Esse raciocínio, porém, leva a uma consequência absurda.

Tomemos um exemplo. Durante a Idade Média, judeus foram falsamente acusados de envenenar poços para provocar epidemias. A acusação, particularmente associada às perseguições durante a Peste Negra, contribuiu para massacres de comunidades judaicas em diferentes regiões da Europa.1 Trata-se de um dos exemplos históricos mais conhecidos de como uma fantasia antissemita podia transformar uma população inteira em bode expiatório.

Séculos depois, existem registros documentados de ataques de colonos israelenses contra fontes de água palestinas. Relatórios sobre a situação hídrica na Cisjordânia registram episódios de contaminação de cisternas e fontes, inclusive com o lançamento de animais mortos, fraldas usadas e outros materiais, além do uso de substâncias tóxicas em áreas próximas a reservatórios.2 Há também registros jornalísticos de casos específicos de contaminação de poços palestinos por colonos.3

Isso exige uma distinção fundamental. O fato de existir uma mentira medieval segundo a qual “os judeus” envenenariam poços não significa que um episódio contemporâneo de contaminação de uma fonte palestina deixe de poder ser investigado, documentado e denunciado. Mas tampouco significa que qualquer alegação contemporânea deva ser aceita sem prova apenas porque encontra algum paralelo histórico.

A analogia não prova nem refuta o fato. A evidência é que deve fazê-lo. É justamente essa precisão que impede que uma denúncia legítima seja transformada em repetição de um estereótipo antissemita.

O mesmo problema aparece em outro tema. Durante séculos, antissemitas difundiram a fantasia de que existiria um suposto “judeu internacional” controlando governos, bancos, meios de comunicação e a política mundial. Essa teoria conspiratória foi utilizada para justificar perseguições e nunca teve fundamento. A ideia de uma conspiração judaica mundial, de fato, constitui uma das formas históricas mais persistentes da fantasia antissemita sobre um poder judaico secreto.

Contudo, há quem derive daí a conclusão de que é proibido discutir a atuação de redes organizadas de influência que operam publicamente em favor dos interesses políticos de Israel. Alega-se, erroneamente, que admitir a existência de organizações, grupos de pressão ou redes políticas atuando em defesa de determinado Estado equivaleria a validar a antiga fantasia do “judeu internacional”.

Essa conclusão simplesmente não faz sentido. A falsidade de uma teoria conspiratória sobre um povo inteiro não demonstra que toda e qualquer articulação política de organizações indivíduos seja imaginária. Da mesma forma, reconhecer a existência de grupos e organizações que atuam publicamente em defesa de Israel não transforma em verdadeira a antiga fantasia antissemita do “judeu internacional”. As afirmações são completamente diferentes: uma atribui intenções e poder oculto a um povo inteiro, a outra diz respeito à atuação política de organizações, grupos e indivíduos concretos em defesa de interesses específicos.

Em ambos os exemplos, o erro é exatamente o mesmo: concluir que um fato não pode ser verdadeiro apenas porque lembra uma mentira histórica.

A verdade dos fatos não é determinada por analogias, mas pelas evidências

É aqui que as reflexões de Lara Sheehi e Stephen Sheehi ajudam a aprofundar o problema. Em Psicanálise sob ocupação: praticando a resistência na Palestina4, os autores propõem uma leitura da vida psíquica palestina que não separa artificialmente sofrimento, subjetividade e condições políticas. A partir de uma perspectiva fortemente influenciada por Frantz Fanon e pelo pensamento decolonial, eles analisam o colonialismo de povoamento como um processo também psicologicamente extrativo e discutem como discursos de “normalização”, “trauma”, “resiliência” e direitos humanos podem, em determinadas circunstâncias, obscurecer as condições estruturais nas quais a vida palestina se desenvolve.

Essa contribuição permite deslocar a pergunta. Não basta perguntar se determinada denúncia “se parece” com um antigo estereótipo antissemita. É preciso perguntar também em que condições políticas, históricas e psíquicas determinadas realidades se tornam difíceis de reconhecer, nomear e elaborar.

A violência colonial não se limita ao que acontece materialmente aos corpos e aos territórios. Ela também produz efeitos sobre a vida psíquica, sobre a memória, sobre a linguagem e sobre aquilo que pode ou não ser reconhecido como realidade. Isso acrescenta uma dimensão importante à discussão proposta aqui: não devemos apenas perguntar se uma denúncia reproduz um estereótipo antissemita; devemos perguntar também se o medo de reproduzir esse estereótipo não está sendo mobilizado para impedir que determinados fatos sejam reconhecidos, investigados e nomeados.

Em vez de perguntar apenas “o que aconteceu?”, passamos também a questionar: Quem está autorizado a dizer o que aconteceu?

Quando criticamos Israel, falamos do Estado, de seu governo, de seu aparato militar, de seus colonos, de seus soldados e de organizações concretas que atuam em defesa de seus interesses políticos. Não dos judeus enquanto povo, comunidade religiosa ou grupo étnico.

Aliás, confundir deliberadamente essas categorias produz um efeito profundamente perverso. Ao afirmar que determinadas ações do Estado de Israel não podem sequer ser discutidas porque lembram antigos estereótipos antissemitas, acaba-se reforçando justamente a ideia de que Israel e os judeus são uma única entidade política e moral. E essa é precisamente a confusão que deveria ser combatida.

A psicanálise dos Sheehi permite ir ainda mais longe: a própria disputa sobre quem pode falar, o que pode ser nomeado e qual sofrimento será considerado legítimo faz parte da realidade política da ocupação. A linguagem não é apenas um instrumento neutro utilizado para descrever acontecimentos que já estão dados. Ela também é um campo de poder.

Isso se torna particularmente importante quando a experiência palestina é reduzida a categorias psicológicas abstratas. “Trauma”, “resiliência” e “normalização”, quando empregados sem considerar as estruturas políticas que produzem o sofrimento, podem transformar uma experiência histórica e coletiva em um problema individual. Os Sheehi justamente questionam esse tipo de redução, defendendo uma prática psicanalítica capaz de considerar as condições políticas e materiais nas quais a subjetividade se constitui.

Há uma diferença fundamental entre reconhecer o sofrimento psíquico de alguém e transformar a estrutura que produz esse sofrimento em algo invisível. Se uma população vive sob condições políticas permanentes de violência, deslocamento, ocupação e insegurança, tratar suas consequências apenas como “trauma” pode, paradoxalmente, despolitizar aquilo que as produziu.

É nesse ponto que a contribuição dos Sheehi se torna especialmente relevante: compreender o sofrimento palestino não apenas como consequência de acontecimentos traumáticos isolados, mas em relação às estruturas permanentes nas quais a vida cotidiana se desenvolve.

Isso produz uma consequência ética importante para a discussão sobre antissemitismo. Combater o antissemitismo não significa retirar Israel da esfera da crítica. Significa, justamente, tornar a crítica mais precisa.

Uma crítica rigorosa não precisa recorrer a imagens sobre “os judeus”, a teorias conspiratórias ou a supostas características coletivas. Ela pode falar de decisões governamentais, operações militares, legislação, ocupação, assentamentos, expulsões, bloqueios, organizações políticas, grupos de colonos e indivíduos concretos. Quanto mais precisa for a linguagem, menos espaço haverá para generalizações antissemitas.

Mas o inverso também é verdadeiro: quanto mais uma crítica concreta é automaticamente convertida em suposto antissemitismo, apenas porque provoca desconforto, mais difícil se torna distinguir uma acusação racista de uma denúncia legítima.

É aqui que aparece aquilo que poderíamos chamar de uma segunda violência: não apenas a violência exercida sobre a população submetida à ocupação, mas também a disputa sobre a possibilidade de testemunhar essa violência, descrevê-la e atribuir-lhe responsabilidade.

Os Sheehi ajudam a pensar justamente essa dimensão. Em seu trabalho, aparece a ideia de colonial reality-bending — que podemos traduzir como a produção de uma “realidade colonial distorcida” ou uma distorção da realidade promovida pelas potências coloniais —, isto é, mecanismos pelos quais a própria realidade colonial pode ser distorcida, obscurecida ou tornada difícil de reconhecer. Em entrevista sobre o livro, os autores relacionam essa questão à recusa, em determinados espaços, de reconhecer a intencionalidade da violência política e psicológica exercida sobre palestinos.5

Essa questão é profundamente psicanalítica, porque, como dito anteriormente, a pergunta não é apenas pelo fato — o que aconteceu? É também: Quem está autorizado a dizer o que aconteceu? Quem será considerado testemunha confiável? Quem terá sua dor reconhecida como sofrimento? Quem será acusado de exagerar? E quem terá sua fala transformada imediatamente em patologia, preconceito ou ameaça?

A experiência palestina, nessa perspectiva, não pode ser compreendida apenas pela contagem dos mortos ou pela descrição das operações militares. É preciso observar também a produção de um regime discursivo no qual determinadas formas de sofrimento são continuamente relativizadas, individualizadas ou deslocadas, tornando mais difícil reconhecer suas dimensões históricas, políticas e estruturais.

É justamente por isso que precisamos sustentar, simultaneamente, duas afirmações que não são contraditórias: o antissemitismo é uma forma histórica e contemporânea de racismo que deve ser combatida com firmeza; e o Estado de Israel, assim como qualquer outro Estado, suas instituições, governos, forças militares e agentes devem estar sujeitos à investigação, à crítica e à responsabilização sempre que houver evidências de violações.

Uma afirmação não anula a outra. Ao contrário, é precisamente a distinção entre essas esferas que nos permite combater o antissemitismo sem transformar a identidade judaica em sinônimo de Estado, governo ou projeto político, ao mesmo tempo que defendemos os direitos palestinos sem reproduzir imagens e estereótipos historicamente utilizados para desumanizar judeus.

Nesse sentido, uma das contribuições mais importantes de Lara Sheehi e Stephen Sheehi é nos lembrar de que a luta contra a desumanização não pode estabelecer, de antemão, quem terá sua dor reconhecida, aqueles cuja palavra será considerada legítima, e quem poderá ser responsabilizado por seus atos. Reconhecer a humanidade de todos não significa apagar as assimetrias de poder; significa justamente recusarmo-nos a naturalizá-las, silenciá-las ou transformá-las em algo que não possa ser nomeado.

A tarefa ética é mais difícil: reconhecer a humanidade de todos sem apagar as assimetrias de poder; combater o racismo sem transformar a crítica política em tabu; e produzir uma linguagem suficientemente precisa para que nenhum povo seja transformado em caricatura e nenhum Estado seja colocado acima da possibilidade de ser responsabilizado. Afinal, combater o antissemitismo exige recusar a ideia de que os judeus sejam coletivamente responsáveis pelos atos de um Estado. Mas essa mesma recusa exige também não transformar o Estado de Israel em uma entidade que não possa ser responsabilizada por seus próprios atos.

Precisão não é uma concessão à violência. É a condição para combatê-la.

Notas

  1. Ver: UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Antisemitism in History / Why the Jews: History of Antisemitism. Washington, D.C. (material sobre as acusações medievais contra judeus de envenenamento de poços e sua relação com perseguições e massacres) e UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Blood Libel: History and Impact. Holocaust Encyclopedia (material sobre a história das acusações de libelo de sangue e sua associação histórica com acusações de envenenamento de poços). 
  2. AL-HAQ; EWASH. Israel’s Violations of Human Rights Regarding Water and Sanitation in the Occupied Palestinian Territories. Relatório apresentado ao sistema das Nações Unidas. O documento registra ataques de colonos contra cisternas e fontes de água palestinas, incluindo episódios de contaminação e uso de substâncias tóxicas. 
  3. AL JAZEERA. “Palestinian farmers face settler terror.” 13 out. 2004. Reportagem sobre ataques de colonos e relatos documentados à época sobre contaminação de uma fonte de água palestina próxima a Nablus. 
  4. SHEEHI, Lara; SHEEHI, Stephen. Psychoanalysis Under Occupation: Practicing Resistance in Palestine. New York: Routledge, 2022 (ed. bras.: SHEEHI, Lara; SHEEHI, Stephen. Psicanálise sob ocupação: praticando a resistência na Palestina. São Paulo: Edições Inadequadas, 2026). Ver também: Ver HAJJAR, Roula. “Psychoanalysis under Occupation: Practicing Resistance in Palestine.” Journal of Palestine Studies, v. 53, n. 2, 2024, p. 130–132. A resenha discute conceitos centrais do livro, incluindo “psychoanalytic innocence” e a crítica à neutralidade psicanalítica diante de assimetrias coloniais de poder.
  5. SHEEHI, Lara; SHEEHI, Stephen. Entrevista sobre Psychoanalysis Under Occupation. MESPI / Jadaliyya. Discussão sobre “colonial reality-bending” e sobre as dificuldades de reconhecimento da violência colonial e de sua intencionalidade. 

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Rima Awada é libanesa brasileira, psicóloga, escritora, e coordenadora da pós-graduação do curso de Psicologia e Migração da PUC MG.

Tiago Guilherme Faria é advogado de Direitos Humanos e pesquisador em Psicologia Social pela UFMG, com atuação em liberdade de expressão, Direito Internacional e defesa da causa palestina.

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