Cortes na Ciência: a estranha decisão da FAPESP

Sem debate ou aviso, fundação de pesquisa de SP muda regras, limita bolsas no exterior e atinge milhares de cientistas. Comunidade acadêmica reage e denuncia distribuição desigual de recursos, enquanto entidade estadual se cala

Por Matheus Dezidério Busca, Terina Rocha Batista e Dimitrie Hristov Júnior, em Outras Palavras

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é uma das 27 Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) existentes atualmente no Brasil, e a mais antiga delas, fundada ainda na década de 1960. As FAPs são instituições fundamentais não apenas no que se refere ao financiamento de pesquisas e ao desenvolvimento da ciência brasileira, mas elas são essenciais para a formação de recursos humanos.

Em 2024, de acordo com dados do Centro SoU_Ciência, e publicados em reportagem na Revista Pesquisa FAPESP (fevereiro de 20263), o investimento conjunto das FAPs chegou a R$ 4,91 bilhões, enquanto o da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) apresentaram apenas R$ 3,54 bilhões e R$ 2,29 bilhões, respectivamente.

Desse total de R$ 4,91 bilhões de investimento, apenas a FAPESP foi responsável, em 2024, por 57,6% do valor. Além desse dado revelar a extrema desigualdade socioeconômica e geográfica do orçamento das FAPs, demonstra a centralidade da FAPESP no financiamento de pesquisas e formação de recursos humanos no Brasil. Ainda de acordo com a reportagem da Revista Pesquisa FAPESP (fev. 2026), 42% da produção científica brasileira conta com a participação de autores paulistas.

Atualmente (2026), a FAPESP conta com 352 bolsas no país a iniciar e 16.182 bolsas no país em andamento (Biblioteca Virtual da FAPESP, 2026). Essas bolsas incluem as seguintes modalidades: a) Iniciações Científicas (IC), para os estudantes da Graduação; b) Mestrado; c) Doutorado; d) Doutorado Direto; e) Pós-Doutorado; f) outras (Aperfeiçoamento; Estímulo a Vocações Científicas; Fixação de Jovens Doutores; e Jornalismo Científico). O Gráfico 1, a seguir, mostra a quantidade de bolsas em andamento, por modalidade.

Gráfico 1 – FAPESP. Quantidade de Bolsas em andamento, por modalidade (2026)

Fonte: Biblioteca Virtual da FAPESP (2026).

Essas bolsas são entendidas, pela FAPESP, como formação de recursos humanos e, pelos bolsistas, como valiosas oportunidades tanto de ingressarem na pesquisa científica como garantia de financiamento e incentivo a suas carreiras e às suas pesquisas. Em coerência a suas propostas de internacionalização, a FAPESP investiu quase R$ 2 bilhões, entre 1994 e 2019, nas principais linhas de fomento à internacionalização (Revista Pesquisa FAPESP, nov., 2022). Em 2011, a FAPESP criou a modalidade Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), que concedia bolsas de estágio a bolsistas de Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado, Doutorado Direto e Pós-Doutorado.

Em reportagem publicada na edição de 321 da Revista Pesquisa FAPESP4, em novembro de 2022, a própria instituição reconhece que “atualmente [2022], a Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe) é o principal instrumento de apoio à internacionalização da pesquisa adotado pela Fapesp (…)” (Revista Pesquisa Fapesp, nov., 2022). Atualmente, em 2026, a FAPESP conta com 557 BEPEs a iniciar e 1.188 BEPEs em andamento. Desse total de 1.745 bolsas, 10,8% (189 bolsas) são de processos de Iniciação Científica e 18,45% (322 bolsas) são de processos de Mestrado. O Gráfico 2 apresenta a quantidade de BEPEs (em andamento e a iniciar), por modalidade

Gráfico 2 – FAPESP. Quantidade de BEPEs em andamento e a iniciar, por modalidade (2026).

Fonte: Biblioteca Virtual da FAPESP (2026).

É neste ponto onde começam as contradições da instituição. Até o dia 31 agosto de 2026, as “Normas para Apresentação e Seleção de Propostas de Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior” permitiam a solicitação de BEPEs para os já bolsistas de Iniciação Científica e Mestrado, do mesmo modo como era permitido desde a criação desta modalidade de bolsa.

Porém, uma alteração dessas normas foi publicada pela FAPESP em seu site. De maneira sumária e sem explicações, a instituição retirou a possibilidade de os bolsistas de Iniciação Científica e Mestrado solicitaram as BEPEs. Além disso, reduziu à metade a duração das BEPEs de Doutorado, Doutorado Direto e Pós-Doutorado. Antes, era permitido aos bolsistas realizarem os estágios de pesquisa no exterior por até 12 meses, agora, no máximo, por seis meses; ainda que a instituição informe sobre a possibilidade de prorrogação das bolsas por mais seis meses, porém “em condições excepcionais e devidamente justificadas” (FAPESP, 20265)

Em primeiro lugar, a FAPESP cai em contradição entre, de um lado, o que divulga a respeito da importância da internacionalização das pesquisas e do seu papel no financiamento e apoio à ciência no Brasil e, de outro, suas recentes ações de extinção dessas duas modalidades (IC e Mestrado) de bolsas de estágio no exterior e os cortes nas bolsas de Doutorado e Pós-Doutorado.

Segundo, a FAPESP não publicou nenhuma nota, até o momento (27 de agosto de 2026), buscando esclarecer os motivos dessa decisão sumária, repentina e sem aviso algum à comunidade acadêmica. De acordo com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 2018, 80% da ciência brasileira estava ligada à Pós-Graduação, e a instituição já vinha alertando sobre os graves problemas que poderiam ser ocasionados por um corte orçamentário, em 2018/2019, na CAPES.

Passados oito anos, e uma pandemia, a Pós-Graduação das universidades e institutos de pesquisa do estado de São Paulo estão à mercê de mais um grave corte; dessa vez não de orçamento, mas da impossibilidade de realizar estágios de pesquisa no exterior. A FAPESP e todas as outras instituições de ciência, pesquisa, tecnologia, inovação e educação do Brasil devem ser defendidas contra os recorrentes cortes e sucateamentos, mas ela deve ser constantemente cobrada para que situações como essa não ocorram de maneira sumária.

Os bolsistas FAPESP, assim como todos os estudantes de Pós-Graduação e de Iniciação Científicas, têm de ser tratados com respeito e dignidade, não somos apenas números, somos cidadãos que, juntos com toda a comunidade acadêmica do Brasil, buscamos aperfeiçoar a ciência e a pesquisa brasileira para, quem sabe, transformarmos para melhor a realidade de nosso país e toda a nossa população.

Por fim, é fundamental salientar que as bolsas de financiamento de Pós-Graduação e de Iniciação Científica representam muito mais do que o avanço da ciência e da pesquisa no Brasil, elas representam a oportunidade para milhares de pessoas. Não podemos nos esquecer das abissais desigualdades socioeconômicas e geográficas de nosso país. Afinal de contas, para que serve a ciência senão para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual?


Referências

BIBLIOTECA VIRTUAL DA FAPESP. Bolsas no Brasil. Disponível em: https://bv.fapesp.br/pt/10/bolsas-no-brasil/. Acesso em: 27 ago. 2026.

BIBLIOTECA VIRTUAL DA FAPESP. Bolsas no Exterior. Disponível em: https://bv.fapesp.br/pt/11/bolsas-no-exterior/. Acesso em: 27 ago. 2026.

CENTRO SOU_CIÊNCIA. Disponível em: https://souciencia.unifesp.br/sobre-fctesp/apresentacao-fctesp. Acesso em: 27 ago. 2026.

FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Internacionalização da pesquisa. Pesquisa Fapesp, São Paulo, [n.p.], 2022. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/o-campo-digitalizado/. Acesso em: 27 ago. 2026.

FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Normas para Apresentação e Seleção de Propostas de Bolsas Estágio de Pesquisa no Exterior. Disponível em: https://fapesp.br/bolsas/bepe. Acesso em: 27 ago. 2026.

MARQUES, F. À procura de equilíbrio. Pesquisa Fapesp, São Paulo, [n.p.], 2026. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/a-procura-de-equilibrio/. Acesso em: 27 ago. 2026.

SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA. SBPC. Disponível em: https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/80-da-pesquisa-no-brasil-esta-ligada-a-programas-de-pos-graduacao-2/. Acesso em: 27 ago. 2026.

1 Estudante de Doutorado em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e bolsista FAPESP.

2 Estudante de Mestrado em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e bolsista FAPESP.

3 Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/a-procura-de-equilibrio/. Acesso em: 27 de ago. 2026.

4 Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/internacionalizacao-da-pesquisa/. Acesso em: 17 de ago. 2026.

5 Disponível em: https://fapesp.br/bolsas/bepe. Acesso em: 27 de ago. 2026.

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