Na CPT NE2
Em 2025, os conflitos no campo em Pernambuco atingiram 25.536 pessoas, entre posseiros(as), pescadores(as), trabalhadores(as) rurais sem-terra, indígenas, quilombolas e outras identidades camponesas. O número corresponde a uma média de aproximadamente 70 pessoas afetadas por dia ao longo do ano. Segundo levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), publicado na 40ª edição do relatório Conflitos no Campo Brasil, essas pessoas estiveram envolvidas em 52 ocorrências de conflitos registradas no estado. O número revela um leve aumento em comparação com 2024, quando foram registradas 49 ocorrências de conflitos no campo no Estado.
Segundo a metodologia do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT), os conflitos no campo são classificados em três categorias: conflitos por terra, conflitos pela água e conflitos trabalhistas, incluindo, nesta última, os casos de trabalho análogo à escravidão. Em Pernambuco, os conflitos por terra seguiram predominando em 2025. Das 52 ocorrências registradas no estado, 47 corresponderam a essa categoria, representando mais de 90% dos conflitos contabilizados no período. Os demais registros compreenderam um conflito pela água e quatro conflitos trabalhistas, nos quais 16 trabalhadores foram resgatados em situação de trabalho análogo à escravidão. Ainda dentro dos 47 registros de conflitos por terra, destacaram-se 18 ocorrências de ocupações e retomadas de terra, o que fez de Pernambuco o estado do Nordeste com o maior número desse tipo de ação em 2025.
Geografia dos conflitos – Por mais um ano, a maior concentração de ocorrências de conflitos no campo permaneceu no Litoral/Região Metropolitana do Recife (26,9%) e na Zona da Mata (15,4%), que, juntas, respondem por 42,3% dos conflitos registrados no estado. O Agreste concentrou 29,8% das ocorrências, enquanto o Sertão concentrou 27,9% dos casos. “O que observamos é uma distribuição dos conflitos por todas as regiões do Estado, o que indica não se tratar de um problema pontual ou localizado. A persistência dessas ocorrências em diferentes localidades denuncia a distribuição injusta da terra, a concentração fundiária em todo Pernambuco”, destaca Plácido Junior, agente pastoral da CPT.
Já com relação aos sujeitos coletivos e grupos sociais envolvidos nos conflitos no campo em Pernambuco, os dados do ano de 2025 indicam mudanças. Diferentemente de anos anteriores, quando as famílias posseiras figuravam como a categoria mais envolvida nos registros, em 2025, as famílias Sem Terra estiveram presentes em 46,15% das ocorrências registradas no estado, como reflexo do maior número de ocupações de terra realizadas ao longo do ano. Em seguida, aparecem as famílias posseiras (13,46%), as comunidades quilombolas (11,54%), os povos indígenas (7,69%) e os(as) trabalhadores(as) rurais resgatados em condição análoga à escravidão (7,69%). Os 13,46% restantes correspondem às famílias assentadas (5,77%), aos(às) pequenos(as) proprietários(as) (3,85%), a agentes pastorais (1,92%) e a pescadores(as) (1,92%).
Segundo avaliação da CPT, a redução dos conflitos envolvendo comunidades posseiras está relacionada ao processo contínuo e intenso de denúncia, no âmbito nacional e internacional, das violências e violações de direitos humanos registradas ao longo de pelo menos uma década, decorrentes do avanço de empreendimentos pecuários sobre terras onde vivem há gerações essas comunidades. Esse processo se insere em um contexto marcado pela falência de usinas de cana-de-açúcar, por subsequentes arrendamentos de terras e leilões judiciais, utilizados como meio para “lavagens de terras” na Zona da Mata pernambucana. Outro elemento que pode ter influenciado para diminuição momentânea dos conflitos foi a abertura, pelo Incra, dos processos de negociação junto aos proprietários. Contudo, grande parte das negociações até o momento não foram concluídas e não resultaram em aquisições de terras pela autarquia, não havendo, portanto, resolução definitiva para muitos casos, o que deve manter o estado em alerta, pois “a qualquer momento diversos casos de violência e conflitos podem eclodir”, destaca Plácido Junior.
Trabalho escravo e conflitos pela água – Em 2025, Pernambuco registrou quatro ocorrências de trabalho análogo à escravidão. As ações resultaram no resgate de 16 trabalhadores, nos municípios de Caruaru e Parnamirim, em atividades ligadas ao abate de aves e à extração e britamento de pedras. Os conflitos pela água, por sua vez, apresentaram redução em comparação ao ano anterior. Houve uma ocorrência registrada, localizada na comunidade de Maracaípe, em Ipojuca, associada à destruição ou poluição dos recursos hídricos. A praia de Maracaípe vem enfrentando um grave problema de privatização dos bens da natureza, em razão da construção ilegal de um muro de mais de 500 metros, que tem sido alvo de mobilização popular e de ações judiciais por dificultar a circulação de pescadores tradicionais e a desova de tartarugas, além de prejudicar as espécies que vivem nos manguezais da região, considerada uma área turística e de preservação ambiental.
Conflitos no Campo Brasil – Esta é a 40ª edição da publicação Conflitos no Campo Brasil, elaborada pela Comissão Pastoral da Terra por meio do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT). Publicada anualmente desde 1985, a obra constitui uma das principais referências nacionais sobre a realidade dos povos do campo, das águas e das florestas, reunindo dados sobre conflitos por terra, conflitos pela água, conflitos trabalhistas, trabalho escravo e diferentes formas de violência contra a ocupação, a posse e a vida.




