Fiocruz e Ufopa firmam parceria para fortalecer ciência na Amazônia

Na Agência Fiocruz de Notícias (AFN)

A Fiocruz e a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) formalizaram, na última quinta-feira (27/9), um protocolo de intenções que estabelece as bases para uma cooperação técnica que une esforços para o avanço da ciência e da tecnologia na região amazônica. A iniciativa é um dos principais resultados da missão institucional da Fiocruz, em parceria com o Projeto Saúde e Alegria (PSA), no Baixo Tapajós. O fim da missão ocorreu durante a última semana, em Santarém (Pará). O protocolo marca a continuidade de uma relação de parceria entre a Fiocruz e a Ufopa que remonta décadas de trabalho conjunto na Amazônia, com foco em pesquisa, formação, inovação e fortalecimento das capacidades técnicas já existentes no território. O objetivo agora é facilitar a troca de experiências entre professores, pesquisadores e estudantes a partir do amplo acesso a infraestruturas laboratoriais e a bases de dados.

“Nosso desafio imediato é organizar um plano de trabalho, por meio de seminários e oficinas, para definirmos prioridades e garantir a sustentabilidade dessa colaboração”, afirmou o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, destacando a importância de uma atuação estratégica e integrada na localidade. “Estou muito confiante de que essa cooperação, unindo a expertise da Fiocruz à capacidade da Ufopa, será extremamente profícua”. 

Articulada pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), a missão no Baixo Tapajós reuniu representantes da Fundação, do Ministério da Saúde (MS) e da Fundação Banco do Brasil, recebida e conduzida pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA), organização da sociedade civil com quatro décadas de atuação na região. O PSA articulou a agenda da comitiva por cada uma das paradas da missão, das cooperativas de bioeconomia em Santarém às comunidades ribeirinhas do Rio Arapiuns. Foram cinco dias acompanhando o dia a dia das comunidades ribeirinhas, indígenas e centros de pesquisa.

O roteiro começou no Ecocentro de Sociobioeconomia da Cooperativa dos Trabalhadores Agroextrativistas do Oeste do Pará (Acosper), em Santarém, empreendimento que superou anos de dificuldade para se consolidar, atualmente, como uma rede de 139 comunidades cooperadas em cadeias de mel, castanha e sementes nativas. Na sequência, o grupo visitou a Unidade Básica de Saúde Fluvial Abaré II, que leva atendimento a 43 comunidades ribeirinhas ao longo do ano, e o Centro Integrado de Saúde e Clima de Santarém (CICS), unidade recém-criada pela Secretaria Municipal de Saúde para o desenvolvimento de protocolos locais de resposta a eventos climáticos extremos, como ondas de calor.

Entre os projetos que já colocam essa cooperação em prática está a FioAres, uma rede de cinco estações de monitoramento de poluição atmosférica e variáveis meteorológicas instaladas na região, com equipamento operado localmente por pesquisadores da Ufopa e coordenação da Fiocruz. Os dados gerados pelo FioAres alimentam, entre outras aplicações, o desenvolvimento de protocolos de resposta a episódios críticos de poluição atmosférica no âmbito do Centro Integrado de Saúde e Clima de Santarém, e já permitiram identificar de forma antecipada o deslocamento de fumaça de queimadas em direção a Manaus, um exemplo concreto de como o monitoramento ambiental pode subsidiar respostas de saúde pública.

Conhecimento que se aprende no território

O primeiro dia da missão (24/8) foi de apresentações institucionais, e o segundo, dedicado às comunidades no Rio Arapiuns, que funcionou como demonstração prática de tecnologias sociais já em funcionamento na região. Em Carão, o grupo de piscicultura Mulheres Unidas Sonhadoras da Amazônia (MUSAs) apresentou como a criação de peixes em tanques-rede sustenta a segurança alimentar da comunidade e como o regime de cheias do rio, afetado pela variabilidade climática, altera diretamente a disponibilidade de alimento na região.

Em Anã, a comitiva conheceu o modelo da UBS da Floresta, unidade de saúde mantida por energia solar que resistiu a um teste de sobrecarga elétrica durante um mutirão de atendimento especializado que reuniu 18 profissionais de saúde simultaneamente, entre eles cardiologista, ginecologista e dentista, sem que o sistema falhasse. A comunidade também apresentou seu sistema de reciclagem de resíduos sólidos, batizado de Espaço Motirô, e a Cooperativa Turiarte, que reúne doze comunidades em torno do turismo de base comunitária e do artesanato em palha de tucumã.

À tarde, já no Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), em Anumã, pesquisadores e representantes de órgãos federais participaram de uma oficina voltada a sistematizar tecnologias sociais de acesso à água, como cisternas comunitárias, usadas por comunidades da região.

Escuta com lideranças do território

A missão também reservou espaço para a escuta direta. Na tarde do primeiro dia, na sede do PSA em Santarém, lideranças indígenas, ribeirinhas e de movimentos sociais do Baixo Tapajós apresentaram à comitiva institucional um conjunto de demandas do território: comunidades com Unidades Básicas de Saúde Indígena previstas há três anos e ainda não construídas, casos de sequelas por falta de soro antiofídico, pedidos de resposta mais rápida sobre contaminação por mercúrio, e a situação do Lixão de Perema, em Santarém, alvo de denúncias de catadores sobre descarte irregular de resíduos.

Órgãos federais presentes relataram ações em desenvolvimento relacionadas a algumas dessas pautas, como um plano de trabalho voltado à contaminação por mercúrio, conduzido pelo Ministério da Saúde, e reforçaram que a efetivação das demandas do território depende também de sua previsão formal no Plano Municipal de Saúde de Santarém, cuja revisão foi pautada junto às lideranças.

As populações do campo, da floresta e das águas seguem historicamente sub-representadas nas políticas públicas de saúde do país, um ponto reconhecido pela própria comitiva ao final da escuta, junto ao compromisso institucional de contribuir para que essas pautas territoriais avancem nos planos municipal e estadual de saúde.

Integrantes da missão

Integraram a missão, pela Fiocruz, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, Valcler Rangel; a vice-presidente adjunta Patricia Canto; a vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Alda Cruz; a diretora do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), Stefanie Costa; a vice-diretora de Pesquisa da Fiocruz Amazônia, Michele Rocha; o coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, Paulo Gadelha; a assessora da EFA 20230, Zorilda Gomes; o coordenador da área de Ambiente da VPAAPS/Fiocruz, Guilherme Franco Netto; a pesquisadora Lorena Covem, da Coordenação de Ambiente; os coordenadores do Observatório de Clima e Saúde, Christovam Barcellos e Renata Gracie; o pesquisador e coordenador do TED voltado ao diagnóstico de UBS Fluviais, Rodrigo Tobia; as pesquisadoras da Fiocruz Rondônia, Soraya dos Santos e Najla Benevides; a pesquisadora da Fiocruz Piauí, Beatriz Oliveira; o pesquisador da Escola Politécnica de Saúde (EPSJV) e integrante dos GTs de Água e Saneamento e de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Alexandre Pessoa; e a assessora de Comunicação da VPAAPS, Silvia Batalha. 

Pelo Ministério da Saúde, o diretor do Departamento de Gestão Interfederativa e Participativa (DGOP), vinculado à Secretaria-Executiva (SE), José Bonifácio; a coordenação-geral de Vigilância em Saúde Ambiental, Eliane Ignotti; e a coordenadora-geral de Mudança do Clima, Hellen Gurgel.

Período eleitoral

Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de “conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão”.

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