Sobre o vício e o lucro. Por Eugênio Bucci

A conversão de vícios individuais em motor econômico revela limites diante da expansão monopolista e da erosão de limites éticos no espaço público

Em A Terra é Redonda

1.

O capital remunera o vício, jamais a virtude. Muita gente desconhece, e mais gente ainda insiste em desconhecer, mas é assim que é. Só quem pode remediar um pouco a tirania viciosa do capital é a ordem democrática.

A história nos dá provas disso. Foram as democracias nascentes que impuseram aos primeiros industriais, contra a vontade deles, os direitos trabalhistas. No século XIX, em Londres, crianças trabalhavam em jornadas extenuantes dentro das fábricas insalubres como parte da normalidade. Não, não foi o capitalismo que assegurou as garantias mínimas de saúde e dignidade, mas a política. A ideia de justiça não faz tilintar a caixa registradora.

Entregue à sua própria dinâmica, o capital aplaude o direito à propriedade e repudia todos os outros, sejam eles os fundamentais, os sociais ou os difusos. Se pudesse, condenaria a nossa espécie àquilo que, certa vez, Florestan Fernandes chamou de “capitalismo selvagem”.

John Maynard Keynes, ainda em 1936, invocou a expressão spiritus animalis para designar o impulso do empresário que, diante de evidências racionais, teima em investir. Olhando de longe, é possível detectar aí um jogo viciante: quando acerta, o capitalista acumula mais; quando erra, toma fôlego para reincidir. Espírito animal.

Nas guerras modernas, a fome de lucro ateia fogo às cidades. Em tempos de paz (ou de suposta paz), ao menos segundo o credo de boa parte dos economistas, o sipiritus animalis de um entraria em duelo com o spiritus animalis de outro e, nesse enfrentamento civilizado, ambos acabariam se limitando. Graças a essa ideia curiosa, ou mesmo excêntrica, a competição de mercado cuidaria de conter os excessos mais danosos.

Não esqueçamos que, em A riqueza das nações, de 1776, Adam Smith enalteceu o egoísmo, não a generosidade, do homem de negócios: “Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente fazê-lo”.

No início do século XVIII, Bernard Mandeville publicou a Fábula das abelhas, onde afirmava que os vícios privados (vaidade, avareza, cobiça), concorrendo entre si, redundariam no benefício público (riqueza social, prosperidade coletiva, abastecimento, crescimento da oferta, do emprego e do salário). Moral da história: a ambição é o motor da economia; a esperteza, seu método.

2.

Sabemos disso desde sempre. Não é por amor às virtudes que as fábricas de medicamentos contratam cientistas a peso de ródio. Quando os donos do dinheiro remuneram talentos admiráveis, só o fazem porque veem nisso um atalho para lucrar mais. A ambição e a esperteza não têm escrúpulos em jogar migalhas para a criatividade, a inteligência e a beleza. O vício não tem princípios: quando necessário, chega ao cúmulo de se aliar ao que é justo, bom e belo.

Nem Adam Smith, nem Bernard Mandeville viram bondade no capitalismo. Eles apenas acreditavam que o vício ganancioso de um seria contido pelo vício ganancioso do outro, de modo a fazer prevalecer, no final, um equilíbrio tendente ao crescimento econômico. Vem daí a crença de que a competição supostamente saudável civiliza. Há controvérsias, mas, aqui, elas não importam.

O tempo passou. Sobre as ruínas morais da alegada livre concorrência, o monopólio se impôs com brutalidade e, bem a propósito, selvageria. O império desmedido das big techs, esses conglomerados avaliados em 4 ou 5 trilhões de dólares cada um, são a demonstração dessa verdade. Para piorar as coisas, os líderes políticos da temporada, em vez de cuidar dos direitos dos cidadãos, apressam-se no papel de sabujos do capital.

Donald Trump encabeça a lista, embora não tenha cabeça. O vírus da ambição e da esperteza entra na corrente sanguínea de ministros de Estado, de parlamentares, de policiais e de próceres do poder judiciário, em países longínquos ou próximos. Em vez de fixar regras para barrar o vício, a política passa a confinar a virtude.

Está tudo aí, diante de nós. Crianças de três ou quatro anos de idade passam horas deslizando os dedos em telas digitais. Não parece, mas estão trabalhando de graça para as big techs. Seus pais, envaidecidos, acham que elas estão apenas se divertindo e aprendendo. O pior dos mundos entra em cartaz. Os viciosos posam de virtuosos e as plateias aplaudem, sorridentes, neutralizadas.

Por essas razões, além de algumas outras que agora não comento, escrevi no site A Terra é Redonda, há duas semanas, que o capital só remunera a ambição e a esperteza. Só. Dentro dessa fórmula, outros traços morais podem ser recrutados pela ambição e pela esperteza, mas são as duas que comandam o processo.

No sábado retrasado, dia 22 de agosto, o engenheiro Eduardo Vaz, na seção, “Espaço Aberto”, do jornal O Estado de S. Paulo, redigiu um comentário divergente, em linguagem respeitosa e elevada. Temos visões discrepantes, mas não obtusas, pois não se pretendem excludentes. Meu artigo de hoje vai em homenagem ao diálogo. Vai também em repúdio a tudo aquilo que, no capital – e nos poderes de Estado que o adulam –, é surdo, sombrio, estupidificante e corrosivo.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

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