O esgotamento causado pelo denuncismo crônico afastou o eleitorado da vida pública, tornando urgente a reafirmação da política como a principal via para garantir avanços reais em educação, saúde e igualdade
1.
Penso que o grande problema da política brasileira é que estamos há tanto tempo vivendo um ambiente de denúncias ininterruptas que boa parte da população perdeu toda e qualquer esperança nela. Cresce assim a figura do eleitor desencantado, que já não acredita que o voto possa melhorar coisa alguma.
Esse ambiente de denuncismo começa com a Lava Jato e depois se prolonga a tal ponto que hoje a maior parte da cobertura jornalística das campanhas é para saber quem se relacionou, e de que modo, com o banqueiro Daniel Vorcaro, que atualmente encarna todo desvio de dinheiro público que possa haver. Quando Flávio Bolsonaro disse que o dinheiro que pretendia sacar do banqueiro era público e não privado, ninguém acreditou. Mas o problema não está aí.
O problema é que, quando todos os atores da política passam a ser vistos como de alguma forma corruptos, o voto é desprezado. Wanderley Guilherme dos Santos chamou a atenção para o fato de que a operação Lava Jato criminalizava a atuação política. É verdade: a questão, por exemplo, de trocar votos por verbas para tal ou qual cidade do interior – que faz absolutamente parte da ação política – passou a ser tão obscena quanto sacar dinheiro para vantagem pessoal, o que realmente é errado ética e legalmente.
Disso resulta que hoje, quando o ministro Flávio Dino cobra as justificativas para as despesas incorridas por alguma verba parlamentar, isso não causa grande diferença. O que ele procura não é criminalizar toda emenda parlamentar; quer simplesmente distinguir o joio do trigo, distinguir as emendas que efetivamente vão beneficiar alguma coisa, que fazem sentido, e aquelas que não fazem.
Vamos a um exemplo: cidades pequenas e pobres têm pago cachês na ordem de 1 milhão de reais para cantores sertanejos, quase sempre de extrema-direita, quando lhes falta o básico na área de educação e saúde. Isso faz diferença na cabeça de uma parte da população? Talvez não faça.
Como elas já esperam o pior do político, são capazes de considerar melhor um show que as divertiu por algumas horas e lhes deu conversa por alguns dias, que colocou sua cidade no horizonte por um tempo, do que a falta de remédios na farmácia pública, que talvez já achem inevitável.
Parte disso começou com “vote em Tiririca, pior que está não fica”: eleger um palhaço, que nos seus mandatos não realizou absolutamente nada. Isso é absurdo, mas não é tão diferente de eleger um Flávio Bolsonaro, que ao longo de seus mandatos não fez aprovar nenhum projeto de lei seu que beneficiasse a sociedade, enquanto, nos comícios, dança.
2.
Assim a grande questão hoje não é simplesmente escolher direita ou esquerda. É saber se vamos retomar a crença no voto e na política. Boa parte do eleitorado se desencantou do voto; acredita que qualquer voto vai resultar simplesmente na mudança do ladrão na política.
Neste contexto, defender o voto em Lula não é só defender o voto num candidato progressista; é defender o voto em alguém que ainda propõe a política como via de solução para a sociedade brasileira. Mas alguém pode perguntar: por que Lula e não Ronaldo Caiado, e não Romeu Zema, e não algum nome de uma direita radical, que talvez beire o extremismo, mas pelo menos não é bolsonarista?
Pela simples razão de que Lula é o mais consistente na defesa da ideia de que o voto, de que a política, constitui meio para conseguir duas grandes finalidades importantes.
A primeira finalidade é nacional: a defesa da soberania dentro de um quadro democrático, o que significa não apenas nos defender contra Donald Trump, que quer roubar nossos minerais, mas também defender o direito da maior parte da população de escolher seu destino. É, portanto, a defesa da própria democracia.
A segunda grande finalidade é a questão social. Faz um século, constava que o presidente Washington Luís teria dito que a questão social é um caso de polícia: greves e manifestações de trabalhadores deveriam ser lidadas com repressão policial, com o cassetete. É duvidoso que ele tenha dito isso, mas a frase expressa uma mentalidade que foi forte no Brasil, culminando na ditadura militar.
Pois bem: questão social não é caso de polícia; é caso de justiça. Precisa ser tratada de modo que todas as pessoas, a começar pelos mais pobres, tenham as mesmas oportunidades. A consistência das políticas de Lula vai nessa direção.
Então o que temos? Temos a proposta de uma educação que melhore em duas pontas: por um lado, uma educação básica que adquira qualidade, com distribuição de livros didáticos, formação melhor de professor, remuneração justa de quem está na sala de aula; por outro lado, uma educação superior que dê aos mais pobres talentosos a oportunidade de porem seu talento a serviço do país, ao mesmo tempo que possam subir na vida.
Some-se uma saúde pública que continue reduzindo a mortalidade infantil, que pela vacinação elimine uma série de doenças que já não são inevitáveis e que, pelo acompanhamento constante das pessoas numa rede pública de saúde, garanta não só uma expectativa de vida mais longa, mas também uma qualidade de vida superior, com menos doenças, com mais aproveitamento da vida, tanto no trabalho quanto no lazer.
Acrescente-se uma política de valorização do PIB, ou seja, da produção de bens e serviços, que, com apoio em alguns pontos fundamentais – destacando a ciência, tecnologia e inovação, que são talvez hoje os fatores principais na produção –, faça a convergência com saúde e educação públicas para tornarmos o Brasil um país mais próspero e mais socialmente justo.
É esta política que Lula propõe. Por isso é tão importante explicar às pessoas a consistência dessa política, mostrar quais efeitos pode produzir positivamente para a sociedade. Assim, a reabilitação da política com a qual comecei este artigo vem junto com a defesa de uma democracia consistente e de forte perfil social.
–
*Renato Janine Ribeiro é professor titular aposentado de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maquiavel, a democracia e o Brasil (Estação Liberdade). https://amzn.to/3L9TFiK




