Educação: Um convite à autonomia dos jovens

Narrativa neoliberal de liberdade seduz muitos jovens. A prosperidade viria, desde que “façam por merecer”. Em época de eleições, uma consciência é fundamental: construir o próprio futuro depende de uma sociedade comprometida com a formação e o direitos de todos

Por Roberto Rafael Dias da Silva, em Outras Palavras

Quero conversar com você, jovem, que está experimentando pela primeira vez a participação nas eleições nacionais. Talvez este seja o momento em que você começa a perceber, de maneira mais concreta, que a política não é uma atividade distante da sua vida. Ela está presente na escola que você frequenta, nas oportunidades que encontra, nas condições de trabalho que terá e nos caminhos que poderá escolher para construir seu futuro.

Há muitas expectativas depositadas sobre as novas gerações. Esperamos que vocês sejam autônomos, participativos, criativos e capazes de enfrentar os desafios de um mundo em transformação. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: quais condições estamos oferecendo para que os jovens possam construir essa autonomia? Afinal, não basta dizer que o futuro está nas mãos de vocês se a sociedade não assegurar condições para que possam participar da sua construção.

Estamos em 2026 e completamos dez anos da reforma do Novo Ensino Médio, iniciada em 2016. Talvez você tenha vivenciado parte dessa experiência como estudante. Naquele momento, difundiu-se a promessa de que cada jovem poderia escolher os caminhos de sua formação, organizar seu projeto de vida e assumir o protagonismo sobre o próprio futuro. Entretanto, a valorização das escolhas individuais nem sempre foi acompanhada das condições necessárias para realizá-las.

Em muitos contextos, a promessa de autonomia acabou se aproximando de uma lógica meritocrática, na qual os estudantes eram responsabilizados por seus resultados, mesmo diante de profundas desigualdades sociais e educacionais. A escola que deveria acompanhar, orientar e ampliar possibilidades corria o risco de transferir aos próprios jovens a responsabilidade por enfrentar obstáculos que não haviam sido produzidos por eles. Em determinadas circunstâncias, aquilo que se anunciava como liberdade de escolha transformou-se em uma forma de abandono pedagógico.

Na última década, e especialmente nos anos mais recentes, as políticas educacionais brasileiras passaram por mudanças, disputas e redirecionamentos. Gostaria de compartilhar quatro questões que considero importantes para compreendermos esse processo e pensarmos sobre o futuro. Existem políticas recentes que mudaram essa história e você pode compreender a sua importância.

A primeira questão diz respeito ao direito a uma formação humana integral. A aprovação da Lei nº 14.945, em 2024, abriu uma nova etapa na reorganização do ensino médio brasileiro. A Política Nacional de Ensino Médio passou a orientar esforços de recomposição da formação geral básica, valorização das áreas do conhecimento e revisão dos itinerários formativos. A preocupação fundamental é assegurar que os estudantes tenham acesso a uma formação consistente, capaz de ampliar seus repertórios culturais, científicos e sociais.

Isso significa reconhecer que a escola não existe apenas para preparar você para uma ocupação profissional ou para uma prova. Ela também deve oferecer conhecimentos para compreender o mundo, participar da vida democrática, enfrentar desigualdades e construir projetos pessoais e coletivos. Um currículo justo não é aquele que simplesmente oferece escolhas, mas aquele que assegura condições reais para que todos possam escolher.

A segunda questão está relacionada à proteção das trajetórias escolares. Talvez você não precise de apoio financeiro para continuar estudando, mas certamente conhece jovens para os quais permanecer na escola exige enfrentar dificuldades econômicas importantes. Programas como o Pé-de-Meia procuram responder a essa realidade, oferecendo incentivos financeiros vinculados à permanência e à conclusão do ensino médio público, conforme critérios de elegibilidade.

Uma parcela mensal de R$ 200 pode parecer pouco para algumas famílias, mas pode representar uma contribuição significativa para outras. Mais importante do que o valor isoladamente é o princípio que orienta essa política: a permanência escolar não deve depender exclusivamente dos recursos econômicos de cada família.

A autonomia dos jovens não nasce pronta. Ela é construída progressivamente, mediante experiências, aprendizagens, vínculos e oportunidades. Por isso, políticas de proteção social não são contrárias à autonomia. Ao contrário, podem constituir uma de suas condições fundamentais. Uma sociedade que deseja jovens livres precisa também assumir responsabilidades coletivas pela proteção de suas trajetórias.

A terceira questão envolve as oportunidades de ingresso na educação superior. Para muitos jovens brasileiros, chegar à universidade continua sendo um sonho importante. Programas como o ProUni, criado em 2005, e as políticas de acesso às instituições públicas de ensino superior integram uma trajetória de ampliação de oportunidades, embora persistam desigualdades e desafios relacionados à permanência e à conclusão dos cursos.

O acesso à universidade não pode ser compreendido apenas como uma conquista individual. Ele também expressa escolhas coletivas sobre o tipo de sociedade que desejamos construir. Ampliar oportunidades de formação superior significa permitir que jovens de diferentes origens sociais possam participar da produção do conhecimento, desenvolver suas capacidades e encontrar novos caminhos profissionais.

A quarta questão diz respeito à educação profissional e tecnológica. A expansão e o fortalecimento das instituições federais e das oportunidades de formação técnica representam caminhos relevantes para a juventude brasileira. Nem todos os jovens desejam seguir imediatamente para a universidade, e isso não diminui a importância de seus projetos. Uma formação técnica de qualidade pode ampliar possibilidades de inserção profissional, empreendedorismo, continuidade dos estudos e participação na vida econômica e social. O desafio está em assegurar que essas alternativas não se transformem em destinos previamente determinados pela origem social de cada estudante. A educação profissional precisa ampliar horizontes, e não restringi-los.

Aliás, caso o seu caminho seja o empreendedorismo, precisamos assegurar condições para que essa escolha não se converta em novas formas de precarização do trabalho e exploração. Empreender também é um direito seu, e considero legítima e justa essa reivindicação das juventudes. Entretanto, é fundamental que essa possibilidade esteja acompanhada de condições de proteção social, acesso à formação e oportunidades concretas de desenvolvimento. Afinal, o empreendedorismo precisa representar uma possibilidade de realização pessoal e profissional, e não uma alternativa imposta pela ausência de outras oportunidades. A liberdade de empreender, assim como qualquer outra escolha, somente adquire sentido quando sustentada por condições efetivas de autonomia.

Essas quatro questões nos conduzem a uma reflexão mais ampla: não existe autonomia verdadeira quando as oportunidades são profundamente desiguais. Escolher o próprio futuro pressupõe ter acesso a conhecimentos, proteção social, instituições educacionais de qualidade e condições concretas para desenvolver um projeto de vida.

É justamente por isso que a participação política dos jovens é tão importante. As políticas públicas não são naturais nem permanentes por definição. Elas resultam de decisões, disputas, prioridades e compromissos assumidos pela sociedade. Podem ser ampliadas, modificadas, aperfeiçoadas ou interrompidas. Conhecer sua história, seus resultados e seus limites é parte fundamental do exercício da cidadania.

Não escrevo estas palavras para dizer em quem você deve votar. Escrevo para convidá-lo a pensar sobre as relações entre suas escolhas pessoais e as decisões coletivas que organizam a sociedade. Informe-se, compare propostas, examine resultados, questione promessas e procure compreender quais compromissos concretos estão sendo apresentados para a educação e para as juventudes brasileiras.

O futuro não depende apenas da capacidade individual de cada jovem. Depende também da qualidade das instituições, da vitalidade da democracia e das responsabilidades que assumimos uns com os outros. Talvez esta seja uma das aprendizagens mais importantes da vida política: a liberdade de construir o próprio futuro também depende de uma sociedade comprometida com o direito de todos a terem um futuro digno.

*Professor da Escola de Humanidades da Unisinos.

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