Refugiados em seu próprio território, eles resistem ao Brasil da bala, fome e indiferença. Seu simples ato de existir é acinte ao capitalismo agrário. Mas no ser e permanecer, aliando-se a outros povos ancestrais, está sua estratégia de resistência
por Antônio Augusto Rossotto Ioris, em Outras Palavras
Em meio a tanta informação que recebemos diariamente, às vezes não é fácil perceber que um dos fenômenos mais importantes e perturbadores do mundo contemporâneo segue acontecendo em pleno território nacional: o massacre contínuo e sistemático dos povos Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul. Tão séria quando as tragédias do Afeganistão, da Palestina, do México ou do Sudão, a situação dramática dos indígenas nos últimos anos parece demonstrar que este país perdeu todo senso de respeito humano, legalidade e decência. A intolerância do agronegócio e o fracasso do sistema político-judicial fazem com que os Guarani e Kaiowá não sejam apenas considerados cidadãos de segunda classe, mas também indígenas degenerados e de menor valor, desmerecedores de viver na sua própria terra. Apesar de a legislação desde o tempo colonial lhes garantir o direito líquido e certo às áreas ancestrais, confirmado e sublinhado no texto da atual Constituição, mais de 50.000 pessoas vivem uma vida de impostura, racismo e violência. Além de toda a crueldade cometida pelo roubo das suas terras por fazendeiros e pelo Estado nacional, é um genocídio diário, à luz do dia, que deixa este país cada vez menor, mais incompleto e com vergonha de si mesmo.
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