Com grande biodiversidade e arraigado à subjetividade gaúcha, o bioma é submetido ao espaço-temporal do financismo, que negocia sacas de soja sequer plantadas. O ritmo frenético reordena o campo brasileiro. Marx pode ajudar a entender essa sojificação?
por Daniel L. Jeziorny e William Manassi Maia, em Outras Palavras
“A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la”
Eduardo Galeno, em As veias abertas da América Latina
Em outro texto – publicado aqui mesmo no portal Outras Palavras – comentamos sobre o processo de sojificação da Pampa e a decorrente morte do gaúcho. Um modo de vida forjado durante séculos a partir da adaptação do ser humano ao ambiente pampiano natural. Foi somente no ano de 2004 que o bioma Pampa foi reconhecido oficialmente como um dos seis biomas brasileiros – além da Mata Atlântica, da Caatinga, do Pantanal, do Cerrado e da Amazônia –; antes disso, estava vinculado aos chamados Campos Sulinos, como parte do bioma Mata Atlântica. Sua área se estende ao longo de 177.767 km², correspondendo a 2,07% do território nacional e 63% do território rio-grandense (IBGE, 2004). Além de cerca de dois terços do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, o ecossistema da Pampa faz parte de um conjunto ambiental que envolve regiões pastoris de planícies em partes da Argentina – as províncias de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Entrerríos e Corrientes – e a totalidade do Uruguai. Termo de origem indígena, proveniente da linguagem quíchua, a palavra “pampa” assume o significado de planícies ou, ainda, de região plana entre montanhas. Continue lendo “Como o Pampa deu lugar ao deserto de soja”