Emergências socioambientais levam à desorientação cognitiva e emocional coletiva. Ações solidárias da sociedade civil são muito importantes, mas tendem a se diluir com o tempo. Prevenir catástrofes exige um Estado que ouse enfrentar o poder do grande capital
por Julice Salvagni, Marília Veríssimo Veronese e Maira de Souza Ricardo, em Outras Palavras
Cidades inteiras debaixo d’água. Uma imensidão de escuro e silêncio. Um cheiro de esgoto que não é de casa, que é de lixo. Gritos de desespero, pedidos de socorro. Uma pausa em tudo o que antes era rotina. O aeroporto está alagado, os ônibus e o metrô de superfície (Trensurb) não rodam mais. Até alguns hospitais fecharam. Não é enchente de água somente, é de barro, que gruda e destrói o que estiver no caminho. É uma lama que não poupa ninguém, mas que fere mais quem é vulnerável, atestando a pertinência do termo racismo ambiental: os mais atingidos são os pobres e vulneráveis, e dentre eles o percentual de negros e negras é maior. É o desespero de não ter pra onde ir, de contar com a casa do parente ou amigo, de buscar um abrigo seguro e seco. E são muitos os acolhidos nos abrigos, aos milhares. O abrigo é a casa de passagem, mas constitui um tempo que demora a passar, é um não-lugar. Para Augé (2000) os lugares têm características identitária, relacional e histórica. Seja no espaço privado da casa, seja nos espaços públicos de uso coletivo, os lugares ajudam a compor os sujeitos sociais, em um conjunto simbólico e concreto de possibilidades de ser e estar. Perder a referência de casa e dos locais comuns, portanto, é perder-se também de si. Continue lendo “Clima: O Estado em tempo de insegurança crônica”