Tempos atrás, quando andei no Chile, numa das casas de Neruda, comprei uma de suas antologias poéticas. Lendo aqueles poemas, de repente fiquei surpreso: já na década de 40 do século passado ele pedia que o ar permanecesse livre. Tentei reencontrar a passagem na antologia e não consegui.
(mais…)crítica ao capitalismo
Capitalismo em caos!
Pânico dos mercados: crise global tende a ser prolongada e profunda. “Classe de Davos” responderá com mais desigualdade e menos democracia. Mas abriu-se espaço para saída oposta – desde que a esquerda esteja disposta a se reinventar
Por Antonio Martins| Vídeo: Gabriela Leite, em Outras Palavras
I.
Às vezes, a História, caprichosa, se repete como farsa. Mas em outras ocasiões, oferece aos derrotados uma segunda oportunidade. Em 2008, quando o capitalismo viveu sua maior crise em oito décadas, não houve força (nem principalmente ideias novas) para convertê-la em crítica e transformação. Sem encontrar resistência efetiva, o sistema se recompôs com mais brutalidade. Os banqueiros foram salvos pelos Estados, com montanhas de dinheiro. Assim que esvaziaram os cofres públicos, os super ricos alegaram que havia “desequilíbrios fiscais” e era preciso ceifar… os direitos e o gasto social! Doze anos depois, este arranjo entrou em crise novamente. O coronavírus, como se verá, é apenas a vibração sutil que fez tremer o castelo de cartas do capital financeirizado – tão temível, mas tão frágil. Diante da emergência, os donos do mundo já sinalizaram que querem mais do mesmo: novos sacrifícios das sociedades, impostos sem examinar, debater e muito menos enfrentar as causas dos enormes desequilíbrios. Mas agora, esta “saída” soará como repetição e – ainda mais importante – já há esboço de alternativa.
(mais…)
Por um feminismo de baderna, ira e alarde
Neste 8M, ocuparemos politicamente as ruas e as nossas casas, em festa e protesto. Não queremos flores, parabéns e elogios — mas sacudir uma ordem social irrespirável, que tem a mesma cara dos machos rivalistas e opressores
por SOS Corpo*
O feminismo veio para ocupar tudo! Não tem como conter essa forma de ver, pensar e transformar o mundo. O pensamento feminista foi fundamental para que a democracia ganhasse demandas reais em espaços do cotidiano, foi fundamental para compreendermos que ele é uma forma de organizar a vida social. Nós mulheres não só denunciamos as declarações sexistas de políticos ou escrachamos os machos que se esfregam “nelas” no metrô ou no carnaval. É mais que isso: o feminismo revelou que o espaço “privado” imposto a nós mulheres, à família e à casa nada tinha de privado, mas representou e representa violação e privação. O feminismo respondeu aos que enaltecem a família patriarcal burguesa, como núcleo sagrado abençoado por Deus, dizendo desde o seu começo que o pessoal é político e provando que pais, tios e irmãos são os principais responsáveis por estupros de meninas e assassinato de mulheres.
(mais…)
“Só um movimento revolucionário de massas pode acabar com o capitalismo”. Entrevista com Michael Löwy
Falar sobre o marxismo hoje exige uma referência obrigatória: a de Michel Löwy (São Paulo, 1938), que também é um dos mais fortes impulsionadores do ecossocialismo anticapitalista. O ex-diretor de pesquisa do Centro Nacional da Pesquisa Científica na França acaba de publicar [na Espanha] “Cristianismo de liberación” (El Viejo Topo), um ensaio onde constrói um espaço de entendimento e luta conjunta entre revolucionários cristãos, ateus e agnósticos, a partir da releitura de certos clássicos como Marx, Engels e Bloch, mas também de Benjamin e Boff.
por Esther Peñas, em Ctxt. A tradução é do Cepat / IHU On-Line
Modificando a definição que alguns revolucionários franceses davam de si mesmos, seria possível dizer que somos marxistas porque somos cristãos?
Bom, eu faria a formulação de um modo um pouco diferente: “Somos marxistas porque incorporamos e colocamos em prática a mensagem revolucionária do Evangelho”.
(mais…)
A uberização sem volta e a pedagogia do socialismo
É inútil esperar que um rompante ético afaste o capitalismo do ataque aos direitos sociais. História demonstra: só ameaçadas as corporações e os bilionários recuam. É preciso fazê-los temer por seus dedos, para que entreguem anéis
Por Gustavo Freire Barbosa*, em Outras Palavras
Dados recentes do IBGE apontam para uma leve diminuição nos índices de desemprego, fechando em 11,2% no trimestre encerrado em novembro, o que totaliza 11,9 milhões de pessoas. Há um ponto, porém, que chama a atenção: o aumento da informalidade, com alta de 1,2% ou de 24,6 milhões, recorde na série histórica do IBGE. Hoje, 41,4% dos trabalhadores brasileiros têm vínculos de trabalho precários. São quase 40 milhões cujos dias são de par em par, diria Cazuza.
(mais…)
Comuns, a essência do Pós-Capitalismo
A velha classe operária acabou. As lutas típicas dos séculos passados perderam relevância. Na era do precariado, surgem novas formas de produzir e distribuir riquezas. A esquerda brasileira precisa superar a melancolia e se voltar a elas
Por Antonio Martins, em Outras Palavras
Resgatar a esquerda social brasileira da maré de pessimismo em que mergulhou desde 2016 é árduo, mas indispensável. Em textos anteriores, vimos o avanço de Bernie Sanders, candidato declaradamente socialista, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Ao fazê-lo, mostramos que há espaço para conter o avanço da ultradireita, quando se dialoga com as angústias da maioria (inclusive o descrédito com a velha política) e se exploram as novas possibilidades de construir sociedades mais igualitárias e mais democráticas, nas condições totalmente novas do século XXI. Depois, numa edição intitulada “Decifrando Bolsonaro”, expusemos como funciona, no governo brasileiro atual, a aliança entre o ultracapitalismo dos punhos de renda (o de Paulo Guedes e da aristocracia financeira), e o protofascismo do porrete (o do próprio Bolsonaro, de seus filhos, dos ministros patéticos). Naquele programa, demonstramos que a fórmula só funciona porque falta oposição. Perdem-se, todas as semanas, dezenas de oportunidades, tanto de denunciar os efeitos perversos das medidas do governo quanto – ainda mais importante – de propor uma agenda de transformações, de imaginar outro futuro e sua construção, de mostrar que há vida além do labirinto em que nos perdemos.
(mais…)
