Marco Rubio expõe o projeto de recolonização

Sob aplauso das elites europeias, o secretário de Estado dos EUA abre o jogo em Munique. A descolonização foi perversa; para livrar-se da decadência, o Ocidente deve impor sua ordem à China e Sul Global; Gaza e Venezuela são caminho a seguir

Por Crismar Lujano, no Diario Red | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras

Ao falar, em 13/2, à Conferência de Segurança de Munique, um dos principais fóruns geopolíticos mundiais, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tirou o último véu da já pouco disfarçada política externa MAGA para os próximos anos. Seu discurso foi recebido com uma ovação em pé por grande parte da elite europeia, aliviada por ouvir o chefe da diplomacia norte-americana reivindicar a aliança imperialista oldfashioned do colonialismo sem complexos e do poderio militar sem limites. Ela seria a base finalmente da tão esperada restauração geopolítica da hegemonia ocidental. (mais…)

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O desafio de transcender o ódio, combustível da extrema-direita, para superar a teocracia midiática. Entrevista especial com Sayak Valencia

Pesquisadora e autora do livro Capitalismo Gore, lançado recentemente no Brasil, analisa como a violência contra minorias políticas resulta de um embaralhamento entre patriarcado e lucratividade midiática que transforma líderes extremistas em chefes de estado

IHU

Pensar a violência, especialmente àquela praticada contra minorias políticas, requer olhar para os processos de “naturalização” midiática da barbárie. “A questão mais central, bastante trabalhada no livro [Capitalismo Gore], foi a espetacularização da violência como mercadoria e dos corpos de pessoas assassinadas como uma espécie de reality show ao vivo, onde se transmite pessoas em situações deploráveis, assassinadas ou massacradas, o que também gera transmissões ao vivo que desumanizam os afetados e as vítimas”, ressalta Sayak Valencia em entrevista realizada por chamada de vídeo na plataforma Zoom ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. (mais…)

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O Sul Global como laboratório de investigação sobre a extrema-direita. Entrevista especial com Tatiana Vargas Maia

Modelo analítico do Norte Global para compreender o recrudescimento de novos autoritarismos não pode ser padronizado para nossa região do mundo, pondera a pesquisadora. Heterogeneidades de cada país devem ser levadas em consideração, observando a extrema-direita do Sul Global a partir do Sul Global

Por: Márcia Junges, em IHU

“A experiência da extrema-direita no Sul Global parece nos apresentar um processo de radicalização que é mais forte e duradouro de setores conservadores das nossas sociedades, com elevados níveis de intensidade e violência, bem como consequências institucionais de longo prazo”, analisa a historiadora Tatiana Vargas-Maia. Organizadora do livro The Rise of the Radical Right in the Global South (Routledge, 2023) junto de Rosana Pinheiro-Machado, ela acentua que a abordagem do estudo “começa com um diagnóstico das insuficiências que observávamos na literatura dominante, que tende a explicar acontecimentos em países como Brasil e Índia como parte do mesmo fenômeno, idêntico àquele observado nos EUA e Europa Ocidental, o que produz uma homogeneidade epistemológica e metodológica que consideramos insuficiente”. (mais…)

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O cálculo de Caiado e Kassab

Aparente fragmentação da direita revela algo a mais. Centrão aposta em reorganizar a direita e se libertar dos Bolsonaro, pensando em 2030. No curto prazo, busca ampliar bancada, projetar candidato próprio e testar sua força – para negociar, com Lula ou Flávio, o segundo turno

Por Glauco Faria, em Outras Palavras

No final de janeiro, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua saída do União Brasil e, em seguida, sua filiação ao PSD. A justificativa foi o fato de sua hoje ex-legenda, dentro da recém-formada e ainda não oficializada federação União Progressista, inviabilizar sua possível candidatura à Presidência da República. (mais…)

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A máquina de histeria moral das elites

Predatórias, porém hipócritas, elas evocam o combate à corrupção sempre que ameaçadas. A cada pleito, o discurso moral retorna para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação – com apelos à intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder

Por João Carlos Loebens, em Outras Palavras

Um discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira: o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite (na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o Golpe de Estado. (mais…)

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Os colonizadores – quem diria? – temem a macumba

Em Nova Orleans, vodu feito com um boneco de agente do ICE expressa a ira dos perseguidos. Na Itália, um ex-ministro de ultradireita teme o pai – feiticeiro – de uma política negra que insultou. Por que, após séculos de perseguições, certas práticas espirituais continuam vivas?

Por Fabiane Albuquerque, em Outras Palavras

Brujería (Feitiçaria, 2023) é um filme de Christopher Murray que se passa na Ilha de Chiloé, no Chile, no final do século XIX, e mostra a feitiçaria usada como resistência e luta contra os colonizadores alemães. A protagonista, Rosa Raín, busca justiça após o assassinato do pai e se envolve com a sociedade secreta de feiticeiros chamada La Recta Provincia, que existiu de fato na história chilena. Ao descobrir seus poderes e presenciar aqueles do seu povo, ela e o grupo passam a ser perseguidos e presos. É um filme que mistura drama histórico com realismo mágico, trazendo a espiritualidade indígena como arma política e cultural descolonial (processo histórico de superação do colonialismo formal.  Os poderes invocados, além de causar medo, provocavam a ira dos alemães que, embora não acreditassem no que chamavam de “crenças primitivas”, mantinham sob controle os povos originários e suas práticas. E, em muitas situações, até solicitavam os “serviços” espirituais dos nativos para resolveram os próprios problemas. (mais…)

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O retorno à política de força e o fim da ilusão multilateral: como um mundo conflagrado abre caminho para a política da extrema direita. Por Estevão Rafael Fernandes

No Blog da Boitempo

Há alguns acontecimentos capazes de revelar transformações já em curso antes mesmo de serem percebidas. Tratar as declarações e ameaças de Trump meramente como bravatas de um mandatário excêntrico já se provou um erro de leitura; estamos, na verdade, diante de sintomas de uma reconfiguração estrutural da ordem internacional.

Em janeiro de 2026, reportagens do periódico canadense Globe and Mail revelaram que as Forças Armadas daquele país vinham desenvolvendo cenários de contingência para tensões com os Estados Unidos, incluindo a modelagem de resposta a uma hipotética invasão americana. A informação passou quase despercebida fora do Canadá, talvez porque já tenhamos nos acostumado a ouvir um presidente dos Estados Unidos tratar países soberanos como imóveis à venda e alianças históricas como contratos rescindíveis. É assim que funciona normalização do impensável, como uma erosão gradual, perceptível apenas quando o terreno já cedeu. (mais…)

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