Dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal de uma Igreja em movimento. Entrevista especial com Fernando Altemeyer Junior e Júlio Lancellotti

João Vitor Santos e Patrícia Fachin – IHU On-Line

A comoção em torno da morte do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, ocorrida ontem no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, onde estava internado desde o final de novembro, é uma demonstração da importância desse homem para a História do Brasil e da própria Igreja. Arcebispo emérito de São Paulo, esteve à frente da arquidiocese da maior metrópole brasileira num dos períodos mais difíceis do país: a ditadura militar. O catarinense de estatura baixa se agigantava diante das atrocidades da repressão. Marcado também como o homem que levou a Igreja para a periferia, era duro na busca pela justiça social e pelos Direitos Humanos. Ao mesmo tempo, diante de tamanha aridez, não perdia a leveza da vida. “Dom Paulo era divertido, jocoso, brincalhão, sagaz. Bom, acho que é uma característica de um colono catarinense. Tem esse jogo do homem da roça, mas que, ao mesmo tempo, era doutor na Sorbonne, mas que também não ficava ‘cantando de galo’”, recorda o teólogo Fernando Altemeyer Junior, que trabalhou diretamente com o arcebispo, em entrevista concedida por telefone na tarde de ontem à IHU On-Line.

Para o padre Júlio Renato Lancellotti, pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de São Paulo, o legado de dom Paulo Evaristo Arns pode ser resumido na frase que ilustra a sua trajetória: “a opção preferencial pelos pobres; foi por isso que ele viveu, esse é seu legado e seu chamamento profético para todos”. Ele recorda seu pioneirismo na luta por causas até então pouco conhecidas. “Foi o primeiro a defender os doentes de Aids, quando criou a Aliança para a Esperança. Eu lembro do dia em que estavam questionando na Justiça a atuação da Casa Vida, uma casa que abrimos para as crianças com HIV e Aids. Nessa ocasião, dom Paulo fez uma procissão pelas ruas do bairro e abriu as portas da Casa Vida”, recorda Lancellotti.

Altemeyer também destaca essa característica do cardeal, que recém assume como arcebispo e já se põe a pensar o Brasil pós-ditadura. “Ele começa a reunir grandes intelectuais, gente de todas as áreas na casa dele. Eram esses os encontros que dom Paulo chamava de ‘reunião dos loucos’, porque lá se podia falar sobre qualquer ideia, que poderia ser posta em prática quando acabasse a ditadura. Imagine, a ditadura só acabou em 1989 definitivamente e ele promovia esses encontros em meados dos anos 1970”, conta.

Júlio Renato Lancellotti é formado em Pedagogia e Teologia, foi professor primário, professor universitário, membro da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo e há mais de dez anos é o vigário episcopal do povo de rua. É pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de São Paulo.

Fernando Altemeyer Junior é teólogo leigo, possui graduação em Filosofia e em Teologia, mestrado em Teologia e Ciências da Religião pela Universidade Católica de Louvain-La-Neuve, na Bélgica, e doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC. Atualmente é professor e integra o Departamento de Ciência da Religião, da Faculdade de Ciências Sociais da PUC – SP. Entre suas publicações, destacamos Aparecida, caminhos da fé (São Paulo: Loyola, 1998) e Deus sem poder (In: Centro de Estudos da antiguidade greco-romana – PUC-SP. (Org.). Hypnos 6. São Paulo: Palas Athena, 2000, v. 6, p. 57-63).

Confira a entrevista.

IIHU On-Line – Qual a importância da figura de dom Paulo Evaristo Arns?

Fernando Altemeyer Junior – Foi um homem imprescindível, sem ele teria sido outra história. Ele é um desses homens que realmente mudam tudo, e não por conta da sua arrogância ou pela qualificação pessoal, mas por estar na hora certa, no lugar certo. Dom Paulo, como Arcebispo de São Paulo por 28 anos, soube dizer uma palavra evangélica, pastoral, política e adequada para o momento histórico do Brasil. Isso é o homem no lugar essencial.

IIHU On-Line – Qual a relevância da presença de dom Paulo para São Paulo, onde uma entre tantas das suas marcas está a de levar a Igreja às periferias, construir esses pavilhões de uso comum em que eram celebradas as missas?

Fernando Altemeyer Junior – Essa foi sua grande tarefa por uns anos, chamada Operação Periferia, para a qual, inclusive, ele dispôs de um dinheiro. Decidiu que venderia o Palácio Episcopal, que era um museu totalmente obsoleto, mas que ao ser vendido possibilitou a compra de aproximadamente dois mil terrenos. Juntamente com o apoio da Adveniat, uma associação solidária alemã, permitiu construir esses centros comunitários e, com isso, fazer uma verdadeira presença junto às milhares de pessoas migrantes – nordestinos, mineiros, paranaenses – que chegavam, durante os anos 1970, a São Paulo. Dom Paulo percebeu esse movimento nas periferias, solicitou autorização ao Papa Paulo VI e ganhou a aprovação imediata de seu projeto. Depois, convocou um colégio de bispos para fazer um “time” com ele, para agir de forma colegial e colocar os dilemas e os dramas do povo migrante da periferia como prioridade da Igreja. Então, foi realmente uma ação pastoral, estratégica, pensada, lúcida e, sobretudo, firme de dom Paulo em inverter e colocar a periferia no centro, por assim dizer.

IHU On-Line – Pode nos falar sobre a trajetória de dom Paulo Evaristo Arns na Igreja, sua atuação como arcebispo de São Paulo e seu trabalho junto às pastorais sociais?

Júlio Lancellotti – À época em que foi bispo auxiliar de São Paulo, dom Paulo foi ao presídio de Tiradentes, onde estavam vários presos políticos. Quando chegou lá, o general perguntou quem ele era, ele se apresentou como bispo auxiliar, e o general respondeu que o bispo auxiliar não poderia entrar no presídio. Depois de um tempo, dom Paulo voltou ao presídio e o general insistiu que, como bispo auxiliar, ele não poderia entrar lá, então ele respondeu que acabava de ser nomeado arcebispo de São Paulo. Estou contando isso para mostrar que a vida de dom Paulo foi marcada por essa coragem em relação ao outro, em defesa do outro. Nunca vi dom Paulo se defendendo; sempre o vi defendendo os outros, o menino de rua, como o Joílson de Jesus, que foi assassinado nas ruas de São Paulo. Ele sempre defendeu os moradores de rua, e numa ocasião, inclusive, dormiu embaixo de um viaduto com os meninos de rua, deixando a prefeitura perplexa porque o arcebispo estava dormindo embaixo do viaduto com os moradores de rua. Ele também foi um defensor dos presos e dos direitos humanos.

IIHU On-Line – Como era a receptividade do povo em relação aos movimentos criados por dom Paulo? Entre os fiéis, ele recebeu apoio?

Fernando Altemeyer Junior – A receptividade se dava na contradição, porque esse tipo de figura profética, como era dom Paulo, sempre recebe apoio e também ódio. A periferia via dom Paulo como o novo Paulo de Tarso, andando como nos tempos apostólicos, animando a fé popular. A palavra de dom Paulo foi sempre vigorosa no microfone, uma voz de coragem. “Vamos em frente”, dizia ele, sempre presente nas comunidades, “metendo o pé no barro”, indo às periferias. Ele tinha essa mesma atuação no centro da cidade, onde há também periferias de cortiços, moradores de ruas, e nas cadeias.

Ao mesmo tempo, a burguesia, os ricos e poderosos, nutriam um ódio figadal por ele, justamente por conta do fato de ele não ter meias palavras; ele denunciava, enfiava o dedo na ferida e dizia “quem estava pisando em quem”. E mesmo assim, seguia com seus textos fortes e com suas falas no rádio sobre as obras em São Paulo e o crescimento da pobreza na cidade, nos anos 1970. Dom Paulo, inclusive, ficou proibido de falar por mais de 20 anos pela censura, porque o governo federal acabou roubando a Rádio Nove de Julho da Igreja Católica. Mas dom Paulo ficou fiel as suas causas e foi amado e odiado, amado pelos pobres e odiado pelos poderosos, o que lhe deu a marca de um bom pastor.

IIHU On-Line – Como foi sua experiência ao lado de dom Paulo?

Fernando Altemeyer Junior – Eu fui o porta-voz da Arquidiocese [de São Paulo] por um período pequeno, no final do mandato dele, em 1994, quando retornei da Bélgica, até 1998, quando ele se aposentou. Antes, claro, tínhamos contato com dom Paulo por ele ser o bispo da cidade, o cardeal. Na periferia, nós o encontrávamos uma ou duas vezes por ano, quando ele ia à comunidade.

Trabalhar com ele na Arquidiocese foi muito importante para mim. Em primeiro lugar, até o fim da vida, dom Paulo sempre confiou nas pessoas. Isso é muito importante, pois se fez um grande homem sempre cercado com sua equipe, na qual confiava muito. Ele confiava tanto em nós que pedia que escrevêssemos textos, que depois assinaria e publicaria.

Uma vez lembro que ele me pediu para escrever sobre como ele seria aos 80 anos. À época ele deveria ter uns 70 e eu, uns 40 anos. E eu perguntei: “dom Paulo, como eu posso escrever um texto de alguém de 80 se eu não tenho nem a metade dessa idade? Eu jamais me imaginaria com essa visão geriátrica, nunca pensei nisso [em ficar velho], sei que vou ficar, mas nunca caiu a ficha”. E ele me disse: “Então, chegou a boa hora; faça!”. Ele me deu dois ou três dias para pensar na minha velhice e escrever. Pensei muito, pois pensar é fácil, mas ainda tinha que escrever. No fim, escrevi uma página, ele gostou e disse: “É isso que eu vou querer ter com 80 anos”. Ele assinou e pediu para colocar em um jornal importante da cidade.

Eu ria sabendo que era o “ghost writer” do escrito dele, mas ao mesmo tempo ficava orgulhoso por ter confiado em mim. Ele me provocou e fiz uma espécie de deleite espiritual para tentar me colocar na frente de alguém com 80 anos. E isso me custou uns 10 livros sobre gerontologia, algumas reflexões sobre velhice dos grandes sábios do budismo. Ele ria e dizia: “Vou querer saber como você fez esse mergulho”. Mas claro, ele já estava 10 quilômetros à frente de mim. Era isso que nos dava uma grande alegria de trabalhar com ele.

Dom Paulo, o chefe

Quando o chefe confia em quem trabalha com ele, muda tudo, porque aí se faz um corpo único, não no sentido de corporativismo, mas de coragem, alegria e honra de trabalhar com um homem que era doutor, tinha fluência em quatro idiomas, mas alguns ele usava como idiomas operacionais, como Grego, Latim e Aramaico. Foi sempre uma honra poder trabalhar com alguém tão carinhoso, tão vigoroso e inteligente. E sua inteligência não é aquela que ofusca a dos outros, mas faz o outro mostrar o melhor de si. Essa é a verdadeira autoridade, esse foi dom Paulo, uma verdadeira autoridade na Igreja.

IHU On-Line – Como dom Paulo era nos bastidores, entre os seus?

Fernando Altemeyer Junior – Divertido, jocoso, brincalhão, sagaz. Acho que é uma característica de um colono catarinense. Eu sou paulistano, não entendo muito esse jeito. Ele tinha esse jogo do homem da roça, mas que, ao mesmo tempo, era doutor pela Sorbonne, mas também não ficava “cantando de galo” por ter sido doutor e escrito uma tese sobre São Jerônimo, que é uma preciosidade. Ele demonstrava que sabia que o mais importante era a fala do pai dele, da mãe dele, dos companheiros de Forquilhinha [cidade natal, em Santa Catarina]. Também era um homem muito afável, muito direto e que detestava “lambe-botas” e pessoas que ficavam querendo vanglórias. Essa coisa do holofote, por exemplo, dom Paulo não gostava. Ele se dava bem na multidão, gostava do povão.

Dom Paulo sabia que tinha esse papel profético, por isso era muito gostoso tomar café com ele. Se organizavam uma festa do povão na periferia, com “carne louca” – não sei como chama isso no Rio Grande do Sul, aquela carne seca que usam para fazer sanduíche -, lá estávamos nós. Ele comia sanduíche com todo mundo, em uma paz profunda, e isso não era populismo, ao contrário, era verdadeiro, era franciscano. Ele trouxe essa característica dos morros de Petrópolis, das aulas de Agudos. No seu gabinete entravam homens e mulheres islâmicos, judeus e ele falava com todos como um amigo.

Cardeal vai à praia?

Ele era o grande cardeal, embora fosse de pequenina estatura. Mas ele não se prendia ao cargo, embora o respeitasse muito. Uma vez, brincando, eu disse a ele que nunca o tinha visto na praia e perguntei se o cardeal não ia à praia. E ele respondeu: “Claro que vou, lá no Paraná [onde familiares tinham residência]. Mas eu vou muito cedo, quando não tem ninguém, porque não podem tirar uma foto de um cardeal de calção. Isso seria uma afronta à liturgia do cargo”.

Eu achava isso interessante. Ele sabia o papel e o lugar do cargo que exercia, mas usava desse papel e desse lugar para defender os últimos e a Igreja. Ele não defendia o clericalismo, defendia a Igreja do evangelho de Jesus. Trabalhar com ele foi importante para a formação dos meus valores pessoais. Hoje sou casado, e passo esses valores para os meus filhos, quero que eles sempre tenham orgulho por eu ter trabalhado com dom Paulo e ter aprendido muito com esse homem. Ele vai fazer falta para o Brasil, ainda mais hoje, nesse período de desgoverno e mediocridades.

IHU On-Line – Dom Paulo sempre foi um homem bastante combativo e convicto nas suas posições. Pode nos contar algumas das causas que ele defendeu em relação aos direitos humanos?

Júlio Lancellotti – Sim, inclusive foi ele quem levou a documentação dos desaparecidos políticos à Argentina para o Papa João Paulo II, porque ele estava à frente do grupo de defesa dos direitos humanos do Cone Sul. Ele também esteve na origem do Projeto Brasil: Nunca Mais, junto com o pastor presbiteriano Jaime Wright, e foi ele quem chamou os rabinos para fazer um momento de oração pelo Vladimir Herzog, na ocasião da sua morte, naquele dia em que a catedral estava cercada pelo exército. Além disso, era ele quem telefonava para o Golbery do Couto e Silva com a lista dos presos na mão, dizendo que gostaria de saber onde eles estavam.

Dom Paulo e dom Aloísio Lorscheider, os dois franciscanos, acompanharam Leonardo Boff, quando o frei sentou no “banquinho do Galileu” – como ele gostava de dizer –, ou seja, quando o Leonardo foi chamado ao Vaticano para dar explicações. Dom Paulo era um homem combativo na defesa de quem estava sendo oprimido, sofrendo e passando por dificuldades. Um dos aspectos que chama muita atenção é que ele foi o primeiro a defender os doentes de Aids, quando criou a Aliança para a Esperança. Eu lembro do dia em que estavam questionando na Justiça a atuação da Casa Vida, uma casa que abrimos para as crianças com HIV e Aids. Nessa ocasião, dom Paulo fez uma procissão pelas ruas do bairro e abriu as portas da Casa Vida, sempre defendendo os doentes. Nesse sentido, onde estivesse alguém sofrendo, era lá que ele estava. Ele nunca estava ao lado dos poderosos, mas dos fracos.

IHU On-line – Qual era o pensamento de dom Paulo a respeito do atual momento do país?

Fernando Altemeyer Junior – Não conversei com ele recentemente. Mas suas últimas falas eram sobre manter aqueles compromissos que teve durante toda a vida: a democracia como um valor. Ela sempre virá da organização social bem articulada, da base, do povo e sem corrupção. Ele acreditava muito nisso, com coerência, e não com o idealismo de achar que tudo é perfeito.

A ditadura e a reunião “dos loucos”

Desde que começou a aparecer toda essa cena nacional dramática, dom Paulo ficava horrorizado. Quando houve a ditadura, que foi duríssima, ele ainda era bispo auxiliar, tornando-se arcebispo em 1970. Esse foi um momento forte de transição na ditadura, onde houve a entrada do [Emílio Garrastazu] Médici e depois do [Ernesto] Geisel, que foi duríssimo, e dom Paulo se colocava nesse miolo.

Nesse período, ele reunia grandes intelectuais, como frei [Gilberto] Gorgulho, [Marcos] Vinícius Caldeira Brant, Fernando Henrique Cardoso, na casa dele, sempre com o risco de ter aparelhos de escuta. Eles tinham um pacto para evitar que fossem “marionetados” ou presos pelo governo. A esses encontros, dom Paulo dava o nome de “reunião dos loucos”, porque lá se podia falar sobre qualquer ideia, que poderia ser posta em prática quando acabasse a ditadura. Imagine, a ditadura só acabou em 1989 definitivamente e ele fazia isso em meados dos anos 1970, um pouquinho antes dos 1980 ainda. Ou seja, ele já estava vislumbrando o Brasil depois que acabasse o período da opressão cívico-militar.

Para dom Paulo, deve ter sido dramático ver os rumos que o país tomou, pois depois de ter pensado e projetado um Brasil democrático, com direitos humanos, justiça e paz, articulação social, ele viu, em poucos meses, esse ideal ficar para trás. Recentemente eu não conversei com ele para saber se estava reclamando ou não da atual situação do país. Com certeza não estaria contente com esse cenário. Nenhum brasileiro digno estaria, ainda menos ele.

IHU On-Line – Como dom Paulo estava se posicionando sobre a atual conjuntura do país nos últimos anos? O que o silêncio de dom Paulo significava?

Júlio Lancellotti – Dom Paulo passou os últimos anos de sua vida com bastante descrição. Quando foi instalada a Comissão da Verdade, a ex-presidente Dilma Rousseff foi visitá-lo em sua residência, mas ele viveu esse momento muito discretamente.

Ontem à noite eu o vi na UTI, por volta das 23 horas. O silêncio que vem com a morte dele é um silêncio bastante eloquente diante de tanta corrupção, e nesse silêncio está a eloquência de uma voz que nunca foi silenciada, que nunca se calou na defesa dos mais fracos.

Quando eu e outros estivemos com ele nas últimas vezes, era de um encantamento vê-lo, e bebíamos a luz dos olhos dele enquanto ele continuava nos encorajando a lutar e a trabalhar. Ele sabia que éramos aqueles que ele formou e preparou para serem defensores da vida, da liberdade, da justiça e da fraternidade. Ele olhava para nós como quem sabia o que estávamos fazendo.

IHU On-Line – Que legado ele deixa para a Igreja e para o país?

Júlio Lancellotti – Ele sempre quis uma Igreja aliada do povo, que estivesse junto do povo, não acima, nem separada. Este é o grande legado de dom Paulo: a opção preferencial pelos pobres; foi por isso que ele viveu, esse é seu legado e seu chamamento profético para todos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Fernando Altemeyer Junior – É importante destacar que ele sempre acreditou no diálogo inter-religioso. Assim, dialogou com os budistas, com os islâmicos e com os judeus, desde o caso [Vladimir] Herzog. Dom Paulo sempre foi uma pessoa aberta a todas as fés, aos cultos africanos e mães de santo. Temos a imagem do Dalai Lama na Catedral e o prêmio Nirvana, que ele ganhou dos budistas no Japão. Dom Paulo, realmente, lembrando a história de São Francisco de Assis, era mesmo um irmão universal entre as religiões.

Quando havia a oportunidade de fazer um evento que precisava envolver outras religiões, ele chamava o padre [José] Bizon, e antes dele, o frei Leonardo [Boff], e dizia a eles: “Vamos convidar a todos, não há ninguém que deva ficar de fora”. Então, às vezes, esses eventos reuniam uma multidão, de modo que tinha mais pessoas no altar do que pessoas participando do evento. Mas ele fazia questão de que todos estivessem juntos para assinarem pactos em favor da vida e das coisas comuns, onde pudesse unir direitos humanos, periferias, crianças e terceira idade. É para isso que sempre juntava as religiões.

Dom Paulo Evaristo Arns em celebração (Foto: Douglas Mansur | Arquidiocese de São Paulo)

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