Com participação da comunidade, CD ampliado discutiu violência em Manguinhos

No Informe ENSP

Pesquisadores, alunos, servidores da Fiocruz e lideranças comunitárias de Manguinhos lotaram o Salão Internacional da ENSP na terça-feira, 4 de abril, para debater o aumento da violência no entorno do campus e em toda a cidade do Rio de Janeiro. Para além de discutir medidas que protejam a comunidade da Fiocruz nos momentos mais agudos de conflito, o evento promoveu uma discussão ampla sobre as bases sociais da violência. Depois do CD, foi eleito um subcomitê para tratar do tema, que se reunirá ainda esta semana.

O diretor da ENSP, Hermano Castro, ao abrir o CD, fez um balanço das mortes ocorridas nos últimos dias. Entre crianças e idosos vítimas de bala perdida, traficantes sendo executados, mesmo no chão, policiais mortos em combate, não resta dúvida: são números de guerra que crescem a cada dia.

– É uma guerra em que todos sofrem. A violência aumentou muito no último mês e assistimos a isso em um cenário de falência do estado do Rio de Janeiro.  A ENSP e a Fiocruz têm discutido amplamente, em todos os seus espaços, a questão do território e o conjunto de violências, não só a violência militar, o tiro, mas as violências: o adoecimento, a vulnerabilidade social, a falta de emprego.

Participando da discussão, André Lima, que mora em Manguinhos e faz parte da Câmara Comunitária e no Conselho Gestor Intersetorial, lembrou da importância da Fiocruz para dar voz aos moradores do entorno da instituição.

– É importante marcarmos presença na agenda externa que debate esse tema,  com cartas para as autoridades do estado e participação nos protestos que estão sendo convocados. É preciso trazer a comunidade aqui para dentro, como aconteceu na Tribuna Livre pela Democracia, na ocasião do golpe, no ano passado. Temos que colocar a boca no trombone e a Fiocruz nos dá a visibilidade necessária para acessar os veículos de imprensa, que normalmente deturpam e criminalizam os movimentos sociais. Quando o Seu Evangelista, morador de Manguinhos, morreu, eu escutei o repórter do SBT dizer que o protesto tinha sido convocado pelo poder paralelo. Estava ali minha cunhada, pessoas de bem, os filhos do Seu Evangelista. Para quem não sabe, ele tinha 20 netos. Era uma família grande e já antiga da região.

Morador de Manguinhos há 45 anos, Seu José Bezerra também se manifestou durante o CD ampliado, dando voz a uma indignação lúcida e embasada.

– Por enquanto, não tem nenhuma luz no fim do túnel. Estamos, hoje, sem governo, mas na verdade, estamos há 517 anos sem governo. Nunca tivemos um governo interno para o nosso povo, sempre fomos colonizados. A violência vem desde que o Brasil existe. Negros, índios, foram vítimas de chacinas atrás de chacina e esse projeto, hoje, continua. Tem muita gente que confunde UPP com paz. Não tem nada a ver com paz. Pacificar não é paz. É controlar, domar. Assim como os escravos eram domados. Aliás, a escravidão nunca foi abolida no Brasil. O escravo só mudou de nome, para operário. E agora, em Brasília, acabam de aprovar, com a terceirização, o escravo de aluguel. Para não falar da questão das armas, que nos são enviadas por países como os EUA. Um país que se diz cristão e que manda fuzis AR-15 para os pobres matarem pobres aqui. E a mídia nunca fala das causas. Como eu li recentemente numa placa em Acari: informação, se não for alternativa, é privada. Dê descarga! Temos que nos informar e saber ver para que lado nós vamos!

Imagem: Reprodução da ENSP.

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