Povo Paumari realiza sua primeira narrativa digital ilustrada

Por Oiara Bonilla, da UFF, para Combate Racismo Ambiental

Na semana passada, o Museu do Índio acolheu pela primeira vez dois jovens estudantes Paumari para um novo tipo de oficina sobre línguas indígenas: a Oficina de Desenho Digital nas línguas Desano e Paumari. A iniciativa surgiu do encontro entre projetos de dois povos amazônicos: o projeto de animação em língua Desano (coordenado pelo Prof. Wilson Silva, linguista do Rochester Institute of Technology (RIT) dos Estados Unidos), que já vem produzindo desenhos e animações digitais em língua desano, e o projeto do Campeonato da Língua Paumari concebido e realizado por este povo desde 2014, com apoio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e da Federação das Organizações e das Comunidades Indígenas do Médio Purus (FOCIMP) e cujo objetivo final é a transformação das histórias vencedoras em animações gráficas faladas em Paumari, na ótica de revalorizar a língua nativa. O Campeonato da Língua Paumari faz parte de um conjunto de iniciativas destinadas a revitalizar a língua e das quais também faz parte o Programa Sou Bilíngue Intercultural, programa de aulas de língua Apurinã e Paumari ministradas para a população indígena da cidade de Lábrea (AM).

A ideia inicial era realizar uma oficina conjunta, o que não foi possível neste ano, principalmente por razões orçamentárias. Assim, a Oficina Desano aconteceu em junho deste ano, em São Gabriel da Cachoeira (AM) e a Oficina Paumari foi realizada no Museu do Índio do Rio de Janeiro entre 28 de agosto e 1 de setembro, ambas ministrada pela estudante em animação 3D Isabel Marte, também do Rochester Institute of Technology (RIT). O objetivo principal foi iniciar os alunos Paumari às ferramentas e à metodologia do desenho digital e da edição de vídeo. Ao longo de cinco dias de intenso trabalho, a história vencedora do segundo Campeonato da Língua Paumari (realizado em 2015) foi decupada, ilustrada e editada pelos dois alunos escolhidos pela comissão organizadora do Campeonato: Zedequias Joro Marques de Souza Paumari, de 16 anos, morador da aldeia Crispim (Terra indígena Paumari do Lago Marahã) e Renildo Viko Lopes da Silva Paumari, de 22 anos, morador da cidade de Lábrea (AM).

Desde 2014, o Campeonato da Língua Paumari é realizado uma vez por ano nas aldeias paumari da Terra Indígena do Lago Marahã (Município de Lábrea, AM). Trata-se de um encontro lúdico, coletivo, onde as diversas gerações se reúnem em torno de uma competição de narrativas em sua língua materna. A ideia de um evento competitivo foi uma aposta para chamar a atenção dos mais jovens que, atualmente, estão particularmente atraídos pela “cultura do Jara” (não-indígena), pelas coisas da cidade, pelo consumo e sobretudo pela tecnologia. E, neste sentido, a aposta deu certo já que os jovens estão cada vez mais envolvidos na competição e na produção dos materiais na língua. A competição consiste num encontro em que, ao longo de três dias, as nove aldeias da Terra Indígena, dividas em nove times, apresentam cantos, danças e histórias do repertório ritual e mítico paumari. Cada time narra uma história e elabora suas ilustrações. O desafio principal é de narrar a história toda publicamente, sem recorrer a termos em português. No último dia, o júri, também formado por membros de todas as aldeias participantes, escolhe a história vencedora pontuando as equipes em função de quesitos específicos, que incluem postura, dicção, uso da língua, pinturas corporais, danças, originalidade, entre outros.

Na segunda edição do Campeonato, em 2015, o time da aldeia Ilha da Onça venceu o torneio, apresentando a “História do Boto e da origem da plantas cultivadas”, com ilustrações belíssimas. O relato mítico conta a origem das plantas e dos alimentos cultivados, que foram cedidos ao povo Paumari pelo boto cor-de-rosa. Aprisionado em um lago quase seco e sentido a morte se aproximar, o boto pede ajuda de uma família paumari (um pai e seu filho) que estava pescando por perto. Em troca dessa ajuda ele promete presenteá-los com algo que não conheciam até então: as plantas cultivadas (milho, batata, cará, macaxeira, abacaxi, entre muitas outras).

Portanto, esta foi a história escolhida pelos Paumari para seu primeiro trabalho de ilustração digital – ‘Basori varani hini hida -, que pode ser apreciado abaixo:

A ideia é que todas as histórias vencedoras dos Campeonatos sejam transformadas em animações gráficas faladas e legendadas em Paumari e Português, que essa primeira experiência possa abrir caminhos para garantir a continuidade das oficinas e, se possível, ampliar a experiência, atendendo à demanda de outros povos da região do Médio Purus, como do povo Apurinã, que também se encontra em situação de emergência linguística.

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Isabel Marte e os alunos Renildo e Zedequias Paumari. Foto: Oiara Bonilla

 

Equipe da Oficina Paumari: Bruna Franchetto (Museu do Índio), Wilson Silva (RIT), Renildo Viko Paumari, Isabel Marte (RIT), Zedequias Joro Paumari, Oiara Bonilla (UFF) e Mutuá Kuikuro. Foto: Museu do Índio

 

 

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