Cumplicidade global na resistência: encontro de corações e práticas pelo mundo novo que já está sendo construído

Um relato-síntese de Maitê Guedes, especial para Combate Racismo Ambiental

“Assim fala a mãe natureza: é seu lugar no meu coração, é seu país, não permita que o conquistem, você nasceu aqui e viveu aqui, não permita que as empresas capitalistas, que se cegam pelo desejo do lucro, se apropriem da riqueza que te ofereci. Você nasceu e viveu nessa terra e vai morrer nessa terra se é necessário, até que o inimigo seja expulso dela.” (Movimento de Mulheres Curdas na América Latina)

Desde as montanhas de Chiapas – testemunhas de mais de 500 anos de expropriação dos povos indígenas, das diversas lutas populares travadas contra a dominação colonial, da Revolução Mexicana de 1911 e do levantamento do Exército Zapatista de Libertação Nacional em 1994 – foi realizado no dia 27 de setembro o primeiro Encontro pela Resistência Global Autônoma.

A convite do coletivo Nodho Solidale e da Plataforma La Pirata, se encontraram práticas e corações de povos e movimentos sociais do México, América Latina e outras partes do mundo. Foi um compartilhamento da vivência da violência cotidiana pelo avanço do capital em seus territórios, mas também das alegrias dos seus processos de resistência e construção de novos mundos. Coincidindo na construção de lutas anti-sistêmicas, teceram nós, articularam pensamentos, práticas, sonhos e planos de alternativas a esse sistema de morte.

A abertura do evento foi realizada por um sobrevivente do atentado de Ayotzinapa, no Estado de Guerrero, pelo qual 3 estudantes foram assassinados e 43 foram desaparecidos forçadamente. Este afirmou que depois de três anos de luta, que fez o Governo temer a sua organização e que logrou conjugar movimentos de várias partes do país e do mundo, tem a certeza de que essa continuará até que se faça justiça. Nos deixou um apelo para que não nos rendamos e não esqueçamos dos desaparecidos de todo o país e dos mortos de nossas lutas, que daria a tônica desse encontro.

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O evento foi organizado em duas mesas de diálogo. A primeira se chamou “A guerra de expropriação: um estado de exceção permanente”. Teve início com a participação das Organizaciones Indias por los Derechos Humanos en Oaxaca (OIDHO), que trouxe a experiência de 27 anos de luta na defesa jurídica e formação de comunidades e territórios. Frente ao avanço dos megaprojetos em Oaxaca e no sul do México, com destaque para a implementação das Zonas Econômicas Especiais nessa região, assim como do avanço do sistema capitalista em todo o mundo, propuseram outras formas de luta, que se dariam por ações diversas, como: a priorização das ações de defesa do território, o fortalecimento, formação e articulação das lutas em diferentes níveis e a criação de mínimas estruturas horizontais que reúnam os distintos povos e movimentos anti-sistêmicos, em nível regional, nacional e internacional, com a formação de uma “assembleia global de resistência”. Nos ensina: “temos que aprender a nos concentrar no que nos une e não no que nos divide, sair das nossas múltiplas bolhas e juntar nossas lutas como habitantes e povos de um só mundo em perigo”.

Desde a região da costa e serra Madre de Chiapas, a Frente Popular de Soconusco 20 de julio e a comunidade de Acocoyagua compartilharam suas lutas contra a expropriação de seus recursos minerais por empresas canadenses e chinesas, que deixam um rastro de destruição, poluição ambiental e danos à saúde da população. Com satisfação, nos deram a notícia de que recentemente conseguiram expulsar uma das empresas mineradoras que ainda estava em operação e que as comunidades se mantêm em barricadas para evitar o seu retorno.

Já o Movimiento Zoque en Defensa del Territorio, de la Vida y de la Tierra trouxe a sua experiência de resistência contra a extração de petróleo no norte do estado de Chiapas e uma recente vitória: conseguiram excluir as duas áreas que incidiam em seu território dos blocos de exploração de petróleo que foram objeto de leilão. Através da organização como Pueblos Creyentes, estão focando na formação dos seus jovens para a luta pacífica e a articulação dos coletivos e resistências.

Esteve também presente nesta mesa uma representante da Red Nacional de Resitencia Civil, organização que surgiu em 2009 com a luta contra as altas tarifas de energia elétrica e que teve como principal estratégia o não pagamento da conta de luz, ao considerar o provimento de energia elétrica um direito humano universal. No processo de luta e articulação ampliaram a sua atuação para outras áreas, outros focos de resistência, em contextos rurais e urbanos.

A Brigada Callejera de Apoyo la Mujer Eliza Martinez trouxe a sua experiência de luta, construída desde as ruas do bairro de La Merced, na Cidade do México, pela promoção da defesa dos direitos das trabalhadoras sexuais e da dignidade de sobreviventes e vítimas do tráfico de pessoas. Com o acúmulo de uma luta de 28 anos contra uma sociedade moralista e patriarcal, defendem que “a esquina é de quem a trabalha”.

Representante da Tribo Yaqui também esteve presente, contando o processo histórico de tentativas de extermínio desse povo do deserto de Sonora e das inúmeras resistências construídas. Destacou os mais recentes projetos de expropriação da água do seu território, através de estratégias violentas, mecanismos judiciais e tentativas de cooptação com políticas assistencialistas. Contudo, ressaltou também a força e resistência desse povo, que manteve sua estrutura ancestral de governo, através de assembleias e de uma organização de autodefesa.

Dessa mesa tão diversa, que reuniu movimentos de norte a sul do México, o jornalista Raúl Zibechi, que estava auxiliando a sistematização dos debates, destacou o diagnóstico desse momento de avanço da expropriação de territórios, elementos naturais e da própria vida e corpos da população em geral e principalmente daqueles em luta. Dentre os aspectos importantes das resistências relatadas foram ressaltados: a efetiva defesa dos territórios, o fortalecimento da organização interna dos movimentos e comunidades, através de capacitação e formação e, finalmente, a articulação das lutas em diversos níveis.

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A segunda mesa teve como tema ”Mundos outros: territórios em resistência e a cotidianidade rebelde”. Foi iniciada com a participação do Comite por la Defensa de los Derechos Indígenas (CODEDHI) que compartilhou seus dezoito anos de trabalho no estado de Oaxaca e, em especial, o processo de ocupação de uma área denominada Finca Alemania, que possibilitou a construção de um centro de formação que envolve as diversas comunidades vinculadas à organização. A implementação desse espaço prevê a sua gestão coletiva e horizontal, mutirões semanais de trabalho envolvendo as comunidades, produção autônoma de alimentos agroecológicos e materiais de construção, capacitação dos jovens das comunidades, encontros culturais, defesa do território, entre outros.

Desde as montanhas dos Altos de Chiapas, a Sociedad Civil Las Abejas de Acteal nos contou sobre os seus 30 anos de construção de autonomia e de luta pacífica, baseada na fé. A 25 anos do massacre por grupos paramilitares, acobertados pela omissão do Estado, de 45 irmãos e irmãs deslocados internamente e que se encontravam na localidade de Acteal, seguem exigindo justiça e defendendo o seu território e a proteção dos seus elementos naturais.

Já o Consejo Autonomo Regional de la Zona Costa de Chiapas, que tem um importante histórico de denúncias e luta em defesa dos direitos humanos, compartilhou nessa ocasião a experiência de construção de cooperativas que possibilitaram a produção autônoma em diversas comunidades dessa região.

A organização Construcción de Mundos Alternativos Roncos Robles-COMUNAR que atua junto ao povo Haramuri, enfatizou que um dos aspectos relevantes da luta desse povo está em questionar os modelos do sistema hegemônico que lhe foi imposto, recuperar suas formas tradicionais e construir novas alternativas para os problemas atuais, baseadas na decisão comunitária, no fazer coletivo, na autogestão e no aprendizado a partir das suas próprias práticas e na troca com saberes vindos de outras partes.

Vindo das montanhas de Guerrero, o coletivo Radio Nomndaa – La palavra del agua enfatizou a importância da construção de meios de comunicação autônomos em língua indígena, como ferramenta para potencializar a articulação entre as comunidades e com outros povos.

O Movimento de Mulheres Curdas na América Latina trouxe a experiência ancestral de resistência do povo curdo e de 40 anos do processo de luta pela construção de um novo mundo, baseado no feminismo e no confederalismo democrático. Contaram a experiência das mulheres curdas na construção de comunas e cooperativas, de participação ativa nas instâncias de decisão política, na formação de autodefesas e na elaboração de uma ciência das mulheres, a partir do seu próprio pensamento, lógica e experiência. Fazem um chamado a todas e todos: “Vamos construir juntos uma rede de luta universal contra o capitalismo e vamos unir nossas discussões e práticas nos espaços comuns da luta”. E alertam: “Que escutem todos: o século XXI será o século da liberação das mulheres.”

Desde o Brasil, participou a Comissão Guarani Yvyrupa, que trouxe a experiência de luta do povo Guaraní Mbya para a recuperação do seu território tradicional e demarcação de suas terras. Foi relatado o momento atual de luta contra a revogação da portaria de reconhecimento dos limites da Terra Indígena Jaraguá, que envolveu a ocupação do prédio da Secretaria Geral da Presidência em São Paulo e das antenas de transmissão do Pico do Jaraguá. O povo guarani saudou a realização do evento ressaltando a importância que conferem a espaços como este de articulação com outros movimentos, principalmente da América Latina. Participaram também lutas provenientes de outras partes do mundo, como o Mondeggi Bene Comune, da Itália e o movimento ZAD – Zone a Défendre, da França, além de outros.

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Tecendo as diversas contribuições dos povos e movimentos presentes e sua própria experiência militante, Raúl Zibechi começou a sua análise final lembrando que o século XX foi o século das revoluções. Teria ocorrido uma a cada cinco anos. Tal fato nos traria a esperança de que o povo pode vencer. Contudo, aponta que se algumas revoluções puderam sair vitoriosas, não foram capazes, na maioria dos casos, de construir o novo mundo sonhado. Tal fato haveria ocorrido pela adoção de uma estratégia em duas etapas (primeiro revolução, depois nova sociedade) e pela transposição das formas de organização, em geral hierárquicas, dos exércitos revolucionários para a base de construção das sociedades vindouras.

Atualmente, de forma distinta, os movimentos na América Latina estariam lutando e criando em um mesmo processo revolucionário, através de estratégias que envolvem tomada e recuperação de terras, inclusive de espaços urbanos e sua autogestão. Nessas lutas, o sentido de comunidade passa, então, a ter um papel central, assim como os aspectos de reprodução da vida e a atuação das mulheres e dos jovens. Os movimentos atuais, mesmo que não digam explicitamente ou não saibam, teriam efetivamente uma prática anticapitalista, anticolonial e antipatriarcal. Nesse contexto, as chamadas vanguardas revolucionárias não teriam mais sentido, os povos e comunidades teriam um processo de reflexão próprio, histórico e atual.

Nessa linha também segue a participação final do coletivo Nodho Solidale, que a partir desse contexto atual dos movimentos sociais que faria parte de uma tendência presente em diversas partes do mundo, nos disse que o internacionalismo revolucionário teria também outro formato. O que preferem chamar de cumplicidade global na resistência seria o encontro entre distintas lutas em um mesmo contexto de globalização, com características e inimigos coincidentes, através de uma relação horizontal, uma união de corações e práticas. Mais que um exercício de solidariedade internacional, essa cumplicidade significaria tomar para si e combater junto uma luta global que seria de todos e todas.

Raúl Zibechi e Nodho coincidem, assim, que o mundo novo já está sendo construído, nas diferentes barricadas, nos territórios indígenas da América Latina, nos espaços ocupados e terras tomadas da Europa, nas montanhas do Curdistão e em outras partes do mundo. Parte da energia dessas lutas está no combate e na resistência, mas parte considerável está na reprodução da vida coletiva, na construção do mundo que queremos aqui e agora.

Destacaram, assim, duas necessidades prementes para os movimentos atuais, apontadas nas experiências apresentadas e que também podem ser observadas em outras partes. A primeira seria a organização de poderes fáticos de defesa dessas resistências e mundos em construção, que tem envolvido diferentes estratégias. Outra seria a articulação, em diferentes níveis, desses povos, comunidades, movimentos e coletivos anti-sistêmicos, que brilham em diferentes partes do mundo, através de estruturas, arranjos, constelações, como seja, que possam fazer minimamente frente à organização global do capital.

Páginas eletrônicas relacionadas:

Documentos do Evento

Organizaciones Indias por los Derechos Humanos en Oaxaca-OIDHO

Comite por la Defensa de los Derechos Indígenas-CODEDHI

NODHO Solidale

Red Nacional de Resistencia Civil

Brigada Callejera de Apoyo a la Mujer Elisa Martines

Construcción de Mundos Alternativos Roncos Robles-COMUNAR

Radio Nomndaa – La palavra del agua

Consejo Autonomo Regional de la Zona Costa de Chiapas

Sociedad Civil Las Abejas de Acteal

Comissão Yurupá

Zone a Défendre

Mondeggi Bene Comune

 

 

 

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