“O Brasil sempre foi um país colonizado, com uma República mascarada”, diz Milton Hatoum

O escritor amazonense lança no dia 4 de dezembro o romance “A Noite da Espera” , na Banca do Largo, no Largo São Sebastião, em Manaus

Por Elaíze Farias, Amazônia Real

Milton Hatoum dedicou seus últimos cinco livros à ficção retratando a Amazônia, em particular Manaus, em tom lírico e dramático, inspirado em eventos repletos de passagens e metáforas familiares.

A Manaus de sua memória está presente nos romances “Relato de um Certo Oriente” (1989), “Dois Irmãos” (2000) e “Cinzas do Norte” (2005). Também há menções à cidade em “Órfãos do Eldorado” (2008), em que ele acrescentou elementos de realismo-fantástico, e no livro de contos curtos “A Cidade Ilhada” (2009), quando o escritor surpreende com uma boa dose de humor.

Este sabor amazônico da Manaus provinciana está fora de sua ficção pela primeira vez. No recém-lançado “A Noite da Espera”, que integra a série “O Lugar Mais Sombrio”, o escritor amazonense transpõe o leitor para outros domínios da literatura e da realidade brasileira de um passado recente: o período da ditadura militar (1964-1985).

A história se passa nas décadas de 1960 e 1970, em Brasília, cidade onde Hatoum morou e estudou por pouco mais de dois anos, na juventude.

“A Noite da Espera” não é um livro político, como o escritor faz questão de destacar. O protagonista, o jovem Martim, sequer é politizado ou se envolve em militância partidária. Seu drama é interior, irredutível com a separação dos pais e magoado com a mãe. Os outros dois volumes (ainda sem títulos) estão previstos para 2018 e 2019.

“Martim é um personagem construído, não sou esse cara, que está um pouco longe da minha vida, se não muito longe. Eu precisava desse personagem para armar a trama, mas a partir de uma observação, de uma vivência”, disse Milton Hatoum, em entrevista concedida à reportagem no último domingo (19).

Hatoum estará em Manaus no dia 4 dezembro para lançar “A Noite da Espera”. Na ocasião, ele fará uma sessão de autógrafos a partir das 18h30 na Banca do Largo, no Largo São Sebastião, ao lado do Teatro Amazonas. O evento conta com o apoio da agência Amazônia Real.

No dia seguinte (05), ele fará uma palestra no auditório da Reitoria da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), às 10h. E, no mesmo dia, receberá os leitores para uma sessão de autógrafos às 19h na Livraria Saraiva do Manauara Shopping, na zona centro sul de Manaus.

Os volumes que compõem “O Lado Mais Sombrio” são resultados de uma longa gestação – começou a escrevê-los em 2008. Também revela uma desconfortável coincidência no pano de fundo, que é o clima conservador refletido em manifestações de parte da sociedade brasileira. Embora não tenha previsto, Hatoum conta que não se surpreende com o atual momento político.

“O Brasil sempre foi um país colonizado, com uma república mascarada. Logo no nascimento da República houve o massacre de Canudos, só pra falar do mais conhecido. A República foi inaugurada com o que hoje seria considerado um genocídio. Depois os períodos de autoritarismo, o Estado Novo. Democracia plena, acho que nunca tivemos”, diz.

Sempre atento e inquieto com o que acontece no país e na Amazônia, nessa entrevista à Amazônia Real ele demonstra preocupação com o que se passa na região. “Não há uma reflexão, não há um projeto para a Amazônia. O que ela significa para o Brasil e para a humanidade.”

Também faz críticas aos parlamentares brasileiros, citando especificamente o senador Romero Jucá (PMDB-RR). “O Jucá deveria ser julgado pela corte de Haia. Ele é um criminoso desde a época da Funai, no final dos anos 80”, afirma.

Milton Hatoum expressa o que sente ao retornar a Manaus e conta novidades sobre projetos em curso envolvendo suas obras anteriores. Apesar das desilusões, Manaus continua sendo a cidade que mais lhe comove. “Apesar de todas as iniquidades, da destruição, da pobreza, da violência, sempre me emociona. Isso só acontece quando volto para Manaus. Não acontece quando volto para Brasília, para Paris ou São Paulo”, diz. Leia a entrevista:

Amazônia Real – A exclusão de Manaus em “A Noite da Espera” é a ruptura com a cidade?

Milton Hatoum – Não foi uma ruptura. Eu escrevo sobre uma experiência de vida. Vivi em outras cidades. Vivi em Brasília na minha juventude. Depois em São Paulo, na década de 70. Depois na Espanha e na França. Essa experiência, que é muito difusa, de vários lugares, está presente no que escrevo. Não é ruptura. É apenas um prosseguimento da escavação da memória, à vida que eu levei em Brasília, que foi um momento muito duro. Você não é obrigado a escrever sobre o mesmo lugar, sobre sua cidade. Mesmo porque vivi em tantos lugares e carrego dentro de mim essa experiência.

Amazônia Real – Como foi o período em que viveu em Brasília, e o que tem de ficção e experiência pessoal no personagem?

Milton Hatoum – Morei em Brasília por mais de dois anos. Meu colégio foi fechado, como está no romance. Mas Martim é um personagem construído, não sou esse cara, está um pouco longe da minha vida, se não muito longe. Eu precisava desse personagem para armar a trama. É claro que os personagens são construídos, são elaborados. São inventados. Mas isso a partir de uma observação de uma vivência. Conheci alguns jovens como ele. Tive contato com diferentes tipos de pessoas, todos jovens. Eu não queria, como narrador, um personagem militante, politizado, ao contrário. Quem é militante e politizada é a namorada dele, a Dinah. O drama dele não é exatamente a ditadura e política. O drama dele, a amargura dele, é a separação da mãe.

Amazônia Real – A figura feminina está presente fortemente em seus romances. Como se dá essa escolha?

Milton Hatoum – A separação da mãe é um dos motivos centrais do romance. As mães são fundamentais em nossas vidas. Isso sempre foi uma escolha da minha ficção. O primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, foi narrado por uma mulher. As personagens femininas aparecem com muita força nos outros romances. No “Dois Irmãos” tem a Zana e a Domingas, por exemplo. Tem em “Cinzas do Norte”. Em “Órfãos do Eldorado” tem a Dinaura, personagem que desaparece e é responsável pela loucura dele (protagonista Arminto Cordovil). Na literatura há grandes personagens femininas. A gente se alimenta delas.

Amazônia Real – Em que momento se deu o início da construção do livro?

Milton Hatoum – Eu não achava que o romance ia dialogar com o que está acontecendo no tempo presente porque eu comecei a escrever em 2008. O Brasil estava quase no paraíso. Mas, às vezes, a ficção, mais do que o autor, dá um salto. O autor não pensa, mas a ficção pensa nesse diálogo com o presente. Eu fiz os três volumes de uma enfiada. E ficou muito longo. Aí eu dividi em três partes. Cabia muito essa divisão. Hoje não dá para fazer um volume de 800 páginas, seria absurdamente caro para os padrões brasileiros.

Amazônia Real – Você sempre enfatizou que escreve devagar. Até destaca que sua obra completa é pequena, isso em relação a outros autores. É difícil escrever?

Milton Hatoum – É dificílimo. Tem uma frase em “Caetés”, romance do Graciliano Ramos (1892-1953), em que ele diz que o mais difícil é escrever. É difícil escrever um romance. Escrever honestamente, falar de uma verdade íntima, trabalhar com a linguagem, construir personagens, conflitos. São tantos detalhes, tantos pormenores, você não escreve isso de um dia para a noite. Exige muita paciência. É uma coisa longa. Às vezes mesmo um poema. O João Cabral de Melo Neto (1920-1999) escrevia um poema e só publicava dez, quinze anos depois. Há casos assim. Não só o Cabral, mas outros poetas. A literatura é arte mais reflexiva. Não é como cinema. Um livro você lê, descobre muitas coisas.

Amazônia Real – Você acha que é uma triste coincidência o livro passar num período em que a gente imaginava estar enterrado, com valores conservadores resgatados e com pessoas pedindo o retorno do regime militar? O que se pode apreender com isso?

Milton Hatoum – Não me surpreendo muito com o que está acontecendo. O Brasil sempre foi um país colonizado, com uma República mascarada. Logo no nascimento da República houve o massacre de Canudos, só para falar do mais conhecido. A República foi inaugurada com o que hoje seria considerado um genocídio. Depois os períodos de autoritarismo, o Estado Novo. Democracia plena, acho que nunca tivemos.

Amazônia Real – Não é algo tão extraordinário, no seu ponto de vista?

Milton Hatoum – Isso não me surpreende porque a nossa história é muito autoritária. É a história do colonialismo, do privilégio, dos conchavos das elites, enfim. E agravada pelos erros gravíssimos do PT. Não podemos desconsiderar isso. O PT se iludiu. A coisa do poder, de compor para permanecer no poder. Cedendo à pressão dos golpistas. Ele se equivocou bastante na estratégia do poder. O troco vem com uma reação muito forte. De modo que essa reação não me surpreende.

E tem toda essa violência contra os artistas, a arte, tudo isto está enraizado em nosso conservadorismo. São pessoas muito ignorantes, muito toscas. Mas não se pode silenciar.

Amazônia Real – A Amazônia tornou-se pauta novamente das grandes discussões do país. Você tem acompanhado a pressão das forças políticas conservadoras sobre a região?

Milton Hatoum – Eu tenho acompanhado [as notícias], inclusive na Amazônia Real, no ISA (Instituto Socioambiental), no jornalismo que fala de modo mais independente e verdadeiro. No golpe parlamentar, isso [pressão sobre a Amazônia] era uma das pautas. Um dos acordos com a bancada ruralista. Isso também não me surpreende. Toda essa bancada está muito comprometida. Tem o Jucá [senador Romero Jucá], que deveria ser julgado pela corte de Haia, ele é um criminoso, desde a época da Funai, no final dos anos 80. Permitiu a entrada de garimpeiros na terra dos Yanomami (Roraima) e no Vale do Guaporé (Rondônia). Causou várias mortes por causa disso. Ele nunca parou de ser esse crápula.

Tem a redução, se não o fim, das áreas de preservação, as mineradoras. Tudo isso foi conversado antes do golpe. Não que eu goste da Dilma. A política dela para a Amazônia foi desastrosa. A política ambiental e indígena foi desastrosa. Eu não defendo a política econômica, ambiental e indígena da senhora Dilma Rousseff. Agora ela foi eleita. Sou totalmente contra o golpe parlamentar, sempre fui.

Amazônia Real – São questões que nunca fizeram parte das pautas de nenhum governo, independente do perfil ideológico?

Milton Hatoum – A preservação da natureza e da delimitação da terra indígena nunca foram preocupações nem da esquerda nem da direita. A Amazônia nunca foi preocupação. Só querem usá-la como uma área extrativista, e danem-se os índios, os caboclos da Amazônia. Não há uma reflexão, não há um projeto para a Amazônia. O que ela significa para o Brasil e para a humanidade.

Amazônia Real – Como estão seus projetos atuais? Tem adaptação em curso de outro romance?

Milton Hatoum – Estou trabalhando no segundo volume de “O Lugar Mais Sombrio”. Comecei a revisar o segundo, tem muita coisa que vai ser maior. Há vários projetos de adaptação para o cinema. Um é do Marcelo Gomes, diretor de “Cinemas, Aspirina e Urubus”. O Marcelo vai filmar o “Relato de um Certo Oriente”. É um livro difícil de filmar. O roteiro é dele e da Maria Camargo, que fez o roteiro de “Dois Irmãos”.

Tem um conto de “A Cidade Ilhada”, “O Adeus do Comandante”, que vai ser filmo ado pelo Sérgio Machado, que fez “Cidade Baixa” e “Quincas Berro D´Água”. O Sérgio está fazendo o roteiro com a Maria Camargo. Ela virou a minha roteirista oficial. E eu ajudei também. O do Sérgio vai ser rodado uma parte em Manaus, em junho. O roteiro ganhou todos os prêmios, todos os recursos. Eu não me envolvo muito com o processo todo. Mas eu converso com eles. O roteiro do “Adeus ao Comandante”, colaborei um pouco e estou acompanhando de perto.

Amazônia Real – Milton, você é um dos autores mais premiados do país. Pensa em um Nobel?

Milton Hatoum – O “Cinzas do Norte” foi meu romance mais premiado. Olha, Elaíze, o Nobel, eu lamento, e todo leitor e escritor brasileiro lamenta, não ter sido dado para o Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ou para o Guimarães Rosa (1908-1967), um grande poeta e o maior escritor na língua portuguesa, na minha opinião. Mas não temos politica literária no Brasil. O momento [do Nobel] seria nos anos 60 e 70, que era ditadura. Não iam dar nem para um nem para outro. O Drummond, inclusive, recusou prêmios durante a ditadura. As traduções do Rosa eram ruins. Eu acho o Nobel, eu não penso nisso. Tem amigos que falam isso, mas é para me sacanear. O que mais quero é um leitor de qualidade. Gostaria que os jovens lessem esse romance. Os estudantes do ensino médio, da universidade. Até para entender o momento em que a gente vive.

Amazônia Real – O que sente quando retorna a Manaus?

Milton Hatoum – Eu acho que mudou tanto para quem já é um velho, um cara de 65 anos, e que viveu numa Manaus ainda digna. Isso não falo por nostalgia, falo por civilidade, por anseio de civilização. Manaus foi muito destruída. Hoje é uma cidade muito hostil. O governo não consegue construir parques e sombrear a cidade. Não consegue fazer calçada. Isso sem falar da infraestrutura da zona Leste. Mas, apesar de todas as iniquidades, da destruição, da pobreza, da violência, sempre me emociona. Isso só acontece quando volto para Manaus. Não acontece quando volto para Brasília, para Paris ou São Paulo. É claro, estou voltando para o lugar da minha infância, meus pais estão enterrados em Manaus, meus avós. Tenho familiares vivos. Tenho uma tia, minha irmã, tenho três sobrinhos, mais uma dezena de primos. Tenho dois filhos. Um de 14 anos, o João, e o Gabriel de 10 anos. Os dois conhecem Manaus. O melhor hoje para mim é o rio Negro. É disso que sinto saudades. É o grande rio da minha infância e da minha vida.

Foto: Marcos Vilas Boas/Companhia das Letras

Enviado para Combate Racismo Ambiental por José Carlos.

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