Conferência internacional e interdisciplinar Religiões Africanas e Afrodiaspóricas: 22 a 25/10, na UFJF

O encontro histórico do continente africano com o comércio de escravos, histórias e influências coloniais/imperiais árabes e transatlânticos foi marcado principalmente por exploração e expropriação, desumanização e violações de direitos humanos, mas também destruição das religiões africanas autóctones, padrões culturais, bem como locais e objetos sagrados. As marcas culturais europeias e árabes também são vistas no crescimento e propagação do cristianismo e islamismo. Esse encontro de outras formas religiosas e culturais, por um lado, acarretou a depreciação das religiões africanas, resultando na proibição e rejeição de suas cosmovisões e abandono de aspectos de suas cosmologias, simbolismos e práticas rituais.

Por outro lado, as religiões africanas responderam às mudanças sociais que ocasionaram influência mútua e revitalização de aspectos das culturas religiosas autóctones. O encontro transformou o pensamento e a prática religiosos autóctones, mas não os suplantou; as religiões africanas autóctones preservaram algumas de suas crenças e práticas rituais, mas também ajustadas ao novo ambiente sociocultural. O cristianismo e o islamismo também foram transformados uma vez que se domesticaram. Essa interação revela um quadro de compreensão das religiões africanas como parte integrante e inerente aos processos de globalização.

O significado histórico e cultural das tradições e espiritualidades religiosas africanas autóctones se manifesta parcialmente em sua pluralidade tanto na África como na diáspora africana. As religiões africanas autóctones influenciam os processos de globalização e respondem aos desafios e oportunidades decorrentes. A dimensão global das religiões autóctones na África transcende o continente para a diáspora africana. A migração, o turismo e a apropriação de novas tecnologias de mídia facilitaram a inserção das religiões autóctones em novos contextos. A diáspora africana, resultante do comércio transatlântico de escravos, influenciou profundamente as culturas do Brasil, Cuba, Haiti e o resto do Novo Mundo, o que em parte produziu o desenvolvimento de religiões derivadas da África, tais como o candomblé nagô e a umbanda no Brasil, a santeria (lukumi, macumba) em Cuba, o vodun, as tradições iorubá-orixá e outras tradições enraizadas na África Ocidental e Central presentes nas Américas. Essas formas religiosas se proliferam no contexto da diáspora, com o alcance de adeptos e clientela ampliado de maneira multiétnica e multirracial. No Brasil, que possui a maior população negra fora da África, e em outros contextos da diáspora africana, as religiões afrodiaspóricas sobreviveram às várias décadas de criminalização de suas crenças e práticas religiosas. Em geral, as religiões de origem africana como o candomblé e a umbanda no Brasil ainda enfrentam o racismo institucional e a demonização pública, do mesmo modo que a maioria dos afro-brasileiros é afligida por injustiça racial e marginalização sociopolítica.

Apesar dessas ameaças de sobrevivência e extinção, os africanos e afrodescendentes lutam para preservar sua herança cultural e identidade religiosa. As religiões africanas e afrodiaspóricas continuaram a impactar outras religiões do mundo, assim como foram influenciadas por elas. Por exemplo, o português brasileiro foi influenciado ricamente por pessoas de ascendência africana e suas respectivas línguas, enquanto um novo vocabulário afro-brasileiro eclodiu. Os rituais do candomblé foram incorporados ao tecido da identidade nacional brasileira, desde as oferendas ao mar no Ano Novo durante o Réveillon à capoeira, rodas de samba e preferências culinárias como o acarajé. Na umbanda, há uma associação livre de santos católicos romanos com divindades africanas e indígenas. As religiões africanas e afrodiaspóricas também moldaram a arte mundial, a escultura, a pintura e outros artefatos culturais que povoam os famosos museus, galerias, bibliotecas e exposições de arte do mundo. A mercantilização da arte e dos objetos religiosos africanos é crescente. Embora geralmente deslocada do seu contexto “religioso”, o conhecimento hortícola, culinário e medicinal obtém contribuições significativas dos povos africanos autóctones e de sua epistemologia. O caráter das religiões africanas e afrodiaspóricas em condições de globalidade continuará a ser determinado e moldado por como e em que medida elas negociam continuidade, identidade e mudança.

A resiliência das tradições religiosas autóctones na África e das religiões de origem africana na diáspora demanda atenção acadêmica para explorar como e em que medida elas são fundamentais para a vida cotidiana de africanos e afrodescendentes. A religião é crucial para a compreensão dos povos africanos bem como das suas comunidades diaspóricas em um contexto global. As religiões africanas abrangem fenômenos que são definidos primordialmente no que diz respeito à sua oralidade, orientação cosmológica e ritual em direção a paisagens geoculturais específicas. Uma compreensão adequada de suas complexas cosmologias religiosas, tradições e culturas aprofunda a compreensão dos povos africanos e afrodescendentes em condições de globalidade. A religião é um motor para a formação da diáspora e para a construção e manutenção de identidade cultural e sistemas de valores.

Em que medida as cosmovisões e religiões africanas autóctones permanecem relevantes para os africanos no continente e seus descendentes na diáspora, especialmente em uma era globalizante? Como sintetizar os sistemas de crenças, cosmologias, rituais e práticas das tradições religiosas africanas em uma referência coerente e um guia sagrado para adeptos e não adeptos? O que faz as religiões africanas sinalizarem contra o cenário de xenofobia e privação socioeconômica em contextos de secularização acelerada? O que explica a resiliência das tradições religiosas africanas apesar de uma percepção pública negativa? Como e em que medida as religiões africanas e as religiões derivadas da África moldaram os contextos locais, as culturas e as sociedades dentro dos quais elas são praticadas? Até que ponto as religiões africanas autóctones e as religiões afrodiaspóricas são influenciadas por outras tradições religiosas no âmbito global? Como e em que medida as religiões africanas autóctones e as religiões derivadas da África respondem a questões globais de pobreza, corrupção, conflitos, paz, liberdade religiosa e mudanças climáticas? Essas pertinentes questões e problemas motivaram a organização do primeiro Colóquio das Religiões Africanas Autóctones Globais na Universidade Obafemi Awolowo, em Ile-Ife, Nigéria, em agosto de 2016, um evento histórico com a participação de cerca de 100 participantes (estudiosos, pesquisadores, religiosos e atores políticos), oriundos de três continentes: África, Europa e Américas.

A 2ª Conferência Global de Religiões Africanas e Afrodiaspóricas eclode no encalço desse bem-sucedido evento, programado para ocorrer na Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil, em outubro de 2018. A escolha do Brasil como próxima sede é estratégica. Em primeiro lugar, a diáspora africana é basilar para a compreensão da globalização das religiões africanas. Em segundo lugar, a diáspora africana foi declarada pela União Africana (UA) como a 6ª região da África. Em terceiro lugar, o Brasil é o lar da maior população negra (diáspora africana) no mundo, depois da Nigéria. Dados demográficos recentes do Brasil mostram os afro-brasileiros como maioria pela primeira vez, com os resultados do censo de 2010 revelando que mais de 50,7% da população agora se identificam como pretos ou pardos, em comparação com 47,7% que se definem como brancos (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE). Por fim, o Brasil é a terra do candomblé, uma das maiores religiões de origem africana do mundo.

A 2ª Conferência Global de Religiões Africanas e Afrodiaspóricas proporcionará outra plataforma significativa para que estudiosos, praticantes de religiões africanas e afrodiaspóricas, atores políticos, grupos comunitários da diáspora africana, ONGs, organizações religiosas e públicos interessados possam ​​avaliar criticamente o status, a natureza e o papel das religiões africanas e afodiaspóricas globais em paisagens religiosas locais e globais. Como temas e subtemas do encontro inaugural, a conferência explorará abordagens variadas para o estudo das religiões oriundas da África com ênfase no foco regional e diaspórico. Discutirá também os desafios específicos enfrentados por estudantes e acadêmicos no estudo de religiões africanas e afrodiaspóricas em todo o mundo. A conferência também busca encorajar pesquisas acadêmicas e explorar vias de documentação e preservação das religiões de origem africana.

Mais informações AQUI.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Elizeu Xumxum.

Comments (6)

  1. Como Gestora de um movimento ecológico onde a principal luta e o principal papel é , convergir práticas afro’-religiosas com cuidados ambientais
    Creio ser de suma importância o diálogo intercontinental dessas ações sócio ambientais em conjunto tô com todos os atores ficar era mentais , sociais e acadêmicos. …
    Mestra Emília , Gestora do Movimento Até Ecológico “MÃE”

  2. Em minha condição de etnólogo e folclorista afrocubano, membro da Associação Cultural Ioruba de Cuba e representante do Timbalaye projeto de integração cultural Brasil – Cuba, acredito firmemente na necessidade de mostrar no contexto da diáspora afra latina a forte e decisiva presença das distintas formas das manifestações sócio – religiosas na formação multi plural de nossa identidade como nações e povos herdeiros dessas tradições.

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