Execução de Marielle: Estado foi cúmplice, não importa quem puxou o gatilho, por Leonardo Sakamoto

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Marielle Franco não era apenas liderança feminista e do movimento negro e voz forte do Complexo da Maré, mas também foi, em 2016, a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, cidade que é a vitrine do Brasil no exterior, eleita pelo PSOL.  Portanto, ao ser executada, nesta quarta (14), ela não se torna ”estatística”, como tantas outras pessoas mortas de forma violenta por causa de sua cor de pele, gênero, orientação sexual ou classe social nas periferias do país. Torna-se questão de Estado.

Caso sua execução e a do motorista Anderson Gomes não sejam investigadas de forma rápida e transparente e os responsáveis, processados e punidos, o recado que o país irá enviar à sua população e ao mundo é de que, além dos direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais, os mais pobres por aqui também não devem contar com direitos civis e políticos. Pois seus representantes são mortos.

Ou pior: vendo os fortes indícios de execução, parte da população já começou a apontar policiais corruptos, milicianos e traficantes associados a agentes públicos entre os suspeitos. Se não houver uma investigação séria, há chance do crime entrar na conta da banda podre da polícia e, portanto, da banda podre da política.

Mas o Estado, fomentando através de sua incompetência ou má fé o sentimento de impunidade ao longo do tempo, criou um ambiente em que as pessoas acreditam que é relativamente fácil e tranquilo assassinar uma conhecida liderança social e representante política. ”Pode matar que está tudo bem”, é a mensagem enviada todos os dias não apenas pelos Três Poderes do Rio como de outras partes do país diante da percepção institucionalizada de Casa da Mãe Joana.

No limite, há políticos que fazem alianças com o que há de pior na espécie humana em nome de conquistar ou manter a hegemonia – o que inclui milicianos urbanos, exércitos rurais, facções criminosas e policiais corruptos. Crime organizado e poder andam juntos no país, quando o poder não é o próprio crime organizado.

Tive azia ao ver as declarações do presidente Michel Temer, do governador Luiz Fernando Pezão e do prefeito Marcelo Crivella sobre o assassinato. Os três não apenas são gestores desse caldo de impunidade e de pouco republicanismo, mas também representam a situação contra a qual Marielle lutava.

Por exemplo, Temer reclamou de ”extrema covardia” contra ela e eu só consigo me perguntar sobre qual das covardias ele está falando? Será a dele, que enfiou o Rio de Janeiro em uma intervenção federal para desviar a atenção da população de uma gestão extremamente impopular e distrair o mercado de seu fracasso com a Reforma da Previdência?

Uma intervenção que é incapaz de garantir que um crime, ao que tudo indica, premeditado, fosse identificado através do uso de serviços de inteligência é capaz de garantir a redução da influência do crime organizado que também opera dentro de uma instituição como a polícia? Marielle, escolhida relatora da comissão da Câmara dos Vereadores para acompanhar a intervenção, achava que não.

Se as diferentes esferas de governo quisessem homenageá-la, deveriam garantir que o Estado entrasse de uma vez nas comunidades, não com armas, mas com equipamentos públicos de educação, saúde, lazer, transporte, cultura, em um processo pensado com os moradores e não imposto de cima para baixo, passando por cima dos direitos.

Quando soube da execução de Marielle, senti, além de tristeza, um forte cansaço. Às vezes, a impressão é de que a cada passo que damos adiante são seguidos de dois para trás. Mas é exatamente em momentos de dor que precisamos nos lembrar das caminhadas que nos trouxeram até aqui.

Pois o Brasil é uma moça que nasce, negra e pobre, na periferia e, apesar de todas as probabilidades contrárias, consegue um diploma de faculdade e uma pós-graduação. É uma jovem que cria uma filha sozinha, sendo mãe e pai para tudo o que ela precisa. É uma moradora da favela que, cansada de sentir na pele a violência, tenta organizar seus vizinhos para lutarem por dignidade. É a mulher que se revolta com o fato de que o salário é atrelado ao gênero no Brasil e organiza as companheiras a levantarem sua voz. É a ativista do movimento negro que reúne as pessoas para dar um basta à incompletude de uma abolição de 130 anos e de um genocídio diário.

Marielle foi tudo isso aí antes de abrir sua trincheira na Câmara dos Vereadores do Rio.

O Brasil é resistência. Não aquela cantada em prosas e versos, da resistência dos ricos e poderosos, que com seus grandes nomes deixaram grandes feitos que podem ser lidos em grandes livros ou vistos na TV. Mas a resistência solitária e silenciosa de milhões que não possuem cidadania plena, mas tocam a vida mesmo assim. Se houve melhora na maneira como esse país trata os mais humildes, isso se deve à sua resistência, ou seja, sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas.

Que a vida dela sirva de exemplo a novas resistências. E que sua morte nos lembre que, sem indignação, somos apenas gado.

Em tempo – Aos celerados que celebraram a morte dela nas redes sociais por ser negra, mulher, progressista e defensora dos direitos humanos: saibam que ela lutava também pela dignidade de vocês. Mesmo que vocês não compreendam o porquê.

Comments (1)

  1. Concordo. Vou mais alem: o Estado – uma ficção inventada pelo homem – ee responsævel por todas as mortes, assassinatos, homicidios, afinal, todos decorrem de uma desagregacao social dependente de politicas, estruturas e superestruturas do Estado.

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