Pacaraima, Roraima, Brasil. O fascismo não mais esconde a sua cara. E nós?

Tania Pacheco

Uma casa foi assaltada em Pacaraima, Roraima, e seu dono, espancado. Segundo os presentes, os assaltantes (um? dois? quatro? e o que aconteceu com ele ou eles?) seriam venezuelanos. Não havia hospital para prestar atendimento à vítima, nem ambulância para transportá-lo até outra cidade. O Exército teria sido acionado para o transporte e negara, dizendo que sua ambulância deveria prestar atendimento apenas a venezuelanos. O transporte acabou sendo feito, parte em carro particular, parte em uma ambulância (de quem?) com a qual cruzaram na estrada. A vítima estaria em estado grave, com traumatismo craniano ou a vítima estaria bem, devendo ser liberada hoje, domingo.

As notícias são truncadas e, muitas vezes, conflitantes, como pode ser visto acima. Para alguns jornalistas, inclusive, a identidade atribuída aos agressores teria sido a origem de tudo; para outros, a revolta teve como origem a “resposta do Exército”, negando a ambulância a um brasileiro. O que importa mais que tudo, entretanto, são as consequências dessa história em si lamentável.

De nada valem considerações a respeito de que fatores podem transformar, num segundo, pessoas cordiais e dignas numa turba ignara, capaz de atacar, destruir, incendiar, ameaçar de linchamento e, ainda, ter prazer prazer e orgulho disso, como alguns dos vídeos postados ontem na internet comprovam. Não valem de nada, na medida em que não acredito que isso de fato aconteça. É impossível aceitar que todo esse ódio e preconceito, toda essa incapacidade de lidar com o outro, toda essa perda de humanidade, afinal, possa assumir o controle da personalidade de alguém em um instante, como um alienígena se apossando de um corpo e a ele impondo toda a sua malignidade. Isso não existe.

Nenhuma sociedade aceita as transformações para as quais não está de alguma forma preparada. O mesmo se aplica a cada um/a de nós. E o que aconteceu ontem em Roraima pode ser um último aviso, talvez.

Dos diversos vídeos aos quais assisti a noite passada, posto abaixo o que mais me tocou. Nele, uma multidão de venezuelanos – crianças, mulheres, homens – foge escorraçada, arrastando seus pertences, enquanto, à direita da tela e atrás de um cordão formado por policiais, uma turba de ‘cidadãos brasileiros’ canta o Hino Nacional. A isso chegamos.

 Não há mais como negar que o fascismo é hoje uma realidade entre nós. E ele não se instala de fora para dentro. Tem que estar presente na concepção de mundo da pessoa, para de repente eclodir ao ser acionado por algum tipo de ‘disparador’. Aí, o ato mais bestial pode ser visto como parte da ‘normalidade’, como mera reação fundamentada ‘ao outro’ que vem ‘tirar nossos direitos’. E, não importa se sequer sabem o significado da palavra, o fascismo estava de cada uma daquelas pessoas que pediam fogo, em outro vídeo postado neste blog ontem à tarde (AQUI), para queimar os pertences dos venezuelanos acampados.

O governo de Roraima vinha tentando fechar a fronteira. Perdeu. Ou melhor: havia sido contrariado em mais de uma instância, nesse sentido. Ontem, segundo o Estadão, voltou a pedir “que a fronteira seja fechada temporariamente e que os imigrantes que já estão em Roraima sejam levados a outros Estados’ (AQUI). Talvez não exatamente por acaso, a foto que escolhi para abrir esta postagem mostre em primeiro plano um cordão de policiais assistindo à queima do acampamento dos venezuelanos. Num dos vídeos, um ser ensandecido grita que “agora é assim: se o governo não faz, nós fazemos”. Talvez, afinal, ele estivesse muito mais errado do que poderia pensar.

Desde ontem, minha vergonha é imensa. Meu sentimento de repugnância, também. Tenho 72 anos. Vivi tempos sombrios e contra eles lutei, da forma que me foi possível em cada momento. Depois, vivi tempos de esperança e de orgulho: estávamos finalmente começando a construir, para nossos filhos e netos, um País livre e digno. Hoje, ouvir aquele hino cantado pela malta me dá arrepios. Não quero esta realidade que me enoja. Quero voltar a sonhar e a ter orgulho de ser brasileira. Esta podridão não pode continuar a imperar!

Deixo vocês com o vídeo que mencionei. E espero que ele não provoque apenas indignação, mas um desafio à reflexão e à ação. Não podemos continuar inertes.

Gente é muita tristeza. Meu coração chora nesse momento ?

Publicado por Heloísa Almeida em Sábado, 18 de agosto de 2018

Foto: Almir Guerreiro /Estadão

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