Com a cassação de Maluf, encerra-se o século 20 no Brasil. Por Leonardo Sakamoto

no blog do Sakamoto

E a Câmara dos Deputados cassou Paulo Maluf.

Você pode estar se perguntando: mas ele já não havia sido cassado? Afinal, segue em prisão domiciliar.

Essa dúvida apenas comprova a capacidade de sobrevivência de um dos maiores comunicadores da história recente do país – que calhou de ser um dos políticos mais corruptos também.

Comparado com o montante que Paulo Maluf mandou para contas na Suíça e na Ilha de Jersey, desviado da Prefeitura de São Paulo, os escândalos das lideranças do MDB – as cadernetas de Eduardo Cunha, as malas de Geddel Vieira Lima, as joias de Sérgio Cabral e as vacas de Renan Calheiros – são aperitivo. Estima-se em mais de US$ 1 bilhão degredados pelo ex-governador, ex-prefeito e ex-deputado federal.

No final, ele conseguiu estender a decisão sobre sua cassação até o limite, tal como as condenações que sofreu.

O Supremo Tribunal Federal, que já havia o condenado anteriormente a sete anos por lavagem de dinheiro, determinou que começasse a cumprir prisão em regime fechado e a perda de seu mandato em dezembro. Em fevereiro, Maluf foi mandado para o presídio da Papuda e afastado das funções legislativas. Em março, o STF permitiu que continuasse cumprindo pena em casa devido ao seu estado de saúde debilitado e seus 86 anos, ou seja, por razões humanitárias – o que veio a ser confirmado em abril.

Um relatório do hospital Sírio-Libanês apontou que ele tem câncer de próstata com metástase nos ossos, incontinência urinária, cardiopatia, artéria coronária entupida, anemia, broncopneumonia e hemorragia digestiva alta, entre outros condições clínicas que demandam cuidado.

Como escrevi na época, o STF decidiu pelo caminho do bom senso. Considerando que o país não conta com pena de morte em tempos de paz, apenas em períodos de guerra, manter Maluf na cadeia nessas condições representaria tortura como parte integrante de um ato de vingança – e não manifestação da Justiça.

Considero-o uma das mais nefastas figuras da política, mas seu sofrimento nessa idade não serviria de exemplo para dissuadir ninguém. Pelo contrário, só demonstrará que somos incapazes de punir alguém decentemente. Como a subtração forçada de patrimônio, incluindo o que foi distribuído à família, para compensar o assalto ao bem público e indenizar a sociedade pelo dano moral.

A discussão sobre a perda do mandato foi adiada três vezes, neste mês, até ser tomada pela Mesa Diretora da Câmara – afinal, é difícil justificar a manutenção de um deputado que está em prisão domiciliar.

Seus advogados ainda reclamaram da decisão, dizendo que a competência para tanto seria do plenário. Ou seja, pode haver recurso.

Maluf chegou até onde chegou mentindo. Questionado sobre suas contas no exterior, que receberam milhões desviados dos cofres públicos de São Paulo, repetiu por sua própria boca ou pela de seus assessores uma frase que se tornou icônica: ”Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior”. Não importa que aparecessem testemunhas, documentos estrangeiros, batom na cueca, foto de saque em caixa eletrônico fazendo sinal da vitória. Por anos, entregou a mesma frase com tanta frequência que, por vezes, parecia rir junto dos repórteres diante daquela nonsense situação.

Uma delas ocorreu no outro período em que ficou preso, na carceragem da Polícia Federal da capital paulista, em entre setembro e outubro de 2005. Na época, chorou em entrevista à rádio Jovem Pan. Disse que esperava ser recompensado ”no outro mundo”, que não merecia aquele sofrimento e que era uma ”preso político”. Ficou 40 dias no xilindró.

Como alguém que ocupa cargos importantes e tem sido sistematicamente envolvido em casos de corrupção, pode apelar para um expediente tão patético? Talvez esteja exatamente nisso sua resistência e durabilidade. Afinal, em uma guerra nuclear, apenas os animais mais adaptados, que fazem o que for preciso ser feito, sobrevivem ao final.

Maluf é talvez o animal político que mais roubou para si mesmo na história recente do país. Em 2004, quando a imprensa noticiou que a Suíça enviara provas de suas contas, informando sobre um depósito de US$ 154 milhões, Dr. Paulo não se deu por rogado: ”Vou mandar providenciar num cartório em São Paulo uma escritura pública de cessão de direitos. Tanto não tenho contas, que vou passar uma escritura. O primeiro que encontrar a conta, o dinheiro é dele”.

Parte do dinheiro que roubou vem sendo repatriado. Mas São Paulo continuou elegendo-o até 2014, possibilidade baseada em liminares. Benefício que nem todo político preso tem. Na última eleição, Maluf foi o oitavo candidato a deputado federal mais votado em São Paulo, com 250.296 eleitores depositando nele sua convicção.

Um amigo comentou que, com a cassação de Maluf, o século 20 se encerra finalmente no Brasil.

Maluf fez a carreira política através da Arena, partido que deu apoio à ditadura militar. Foi nomeado presidente da Caixa Econômica Federal pela ditadura (1967) e, depois, nomeado prefeito da capital paulista (1969). Foi secretário dos Transportes do Estado de São Paulo (1971) e eleito indiretamente para o governo paulista (1979). Disputou a eleição indireta de 1985 pelo PDS, sucessor da Arena, perdendo para Tancredo Neves a Presidência da República. Mas, apesar de ser um espécime de outro tempo, adaptou-se enormemente à democracia, lucrando muito com ela. Mesmo sendo conservador, fechou acordos com qualquer um, da direita à esquerda.

Alguém que faz a cúpula do PMDB parecer mirim em suas mentiras e desvios merece que seu funeral político tenha pompa, com uma lápide à altura:

”Aqui jaz a carreira política de Paulo Maluf. Ou não.”

Foto: Bruno Poletti/Folhapress

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