Brasil, o lugar onde o Boi come o Trabalhador

Por Raquel Varela

Estou no Rio de Janeiro, não tenho escrito sobre as eleições, apesar de esse ser um dos temas que mais ocupa a minha cabeça de há um mês para cá. A razão é que há pouca razão. Não estamos “autorizados” ainda a fazer a pergunta que ontem um brasileiro me fazia – contando como Bolsonaro disse que ter uma filha mulher foi uma “fraquejada” ele disse-me angustiado como “a esquerda pode ser derrotada por um tipo destes?”. Essa pergunta tem uma resposta. Mas a esta altura ninguém quer sequer ouvi-la, como se pensarmos e debatermos ideias fosse mudar o curso eleitoral. Agora estamos a rigor como que pressionados a uma recta final de propaganda onde a política foi suspensa.

Quase tudo o que leio está moldado pelo medo, porque a esquerda e mesmo o amplo campo democrático foram apanhados de surpresa na sua totalidade e sem organizações minimamente estruturadas – a má notícia é que era previsível que mais cedo ou mais tarde ia dar mau resultado o curso da esquerda. Já deu. A boa é que o movimento organizado do mundo do trabalho, o único que tem força para resistir a qualquer ditadura (e o que derrubou a anterior ditadura no Brasil) é lento a ver o horizonte mas quando se coloca em marcha é uma força dificilmente parável.

Hoje é mais fácil prever o que Bolsonaro vai fazer do que o que os trabalhadores vão fazer quando Bolsonaro fizer o que quer fazer. A pergunta não é se o movimento operário brasileiro vai reagir, a pergunta é quando e quantos mortos e sofrimento depois. Todas as energias têm que estar concentradas neste sector, cometa ele os erros que cometer – e vão cometer muitos. O Homem Novo não existe, é um poço de contradições, generais não escolhem soldados, organizam-nos para vencer.

Ontem porém fiz algo aqui no Rio que tenho que vos contar, algo que faço talvez de 2 em 2 anos, deitei-me no sofá onde estive umas 6 horas a dormir e a ver TV, ora dormia, ora fazia zapping. 6 horas, 600 canais de puro lixo, interrompidos apenas pelos meus sonhos. Se em Portugal me reconciliei com a TV com os últimos anos da RTP em matéria de séries e documentários e debates públicos, no Brasil a TV é uma viagem ao desconhecido mundo do absurdo. Uma mente sensível pode achar que enlouqueceu. Há dezenas de canais onde se explica o poder de Jesus, e se conversa com Deus, há centenas onde se dá espaço à invasão da vida privada, com detalhes sórdidos sobre tudo o que devia ser intimo, há outros que filmam em directos crimes, bem como a cara dos criminosos, ainda sem julgamento; há dezenas de filmes americanos sobre invasores geneticamente modificados e terramotos, num país que acha o socialismo uma quimera a invasão marciana é um dado adquirido…e notícias que são pura propaganda onde os jornalistas apresentam e tomam posição aberta e directamente sobre tudo. Tudo isto é interrompido, aí tal como na Europa, por separadores estridentes, agressivos e de música alta a frenética, para quem está a dormir um susto, claro. Finalmente – aí sim, não estava preparada -, há um Canal do Boi. Leram bem. O Canal do Boi é nada mais nada menos que uma TV onde se acompanha aquilo em que sucessivos Governos tornaram o Brasil, um país de exportação de carne e soja, o agronegócio.

Não estou a dizer que o baixo nível cultural levou Bolsonaro às alturas, estou longe de ter essa conclusão despolitizada do problema central, mas um país que tem um Canal do Boi e não tem um Canal do Trabalhador, um país onde se debate a saúde do boi e não as condições de vida de quem trabalha, o valor do boi no mercado e não o valor do trabalho, as acções do agronegócio e não o modo de vida dos 200 milhões de seres humanos que aqui habitam, ou seja, um país mercadoria, em que a remuneração de capitais e as bolsas regozijam-se a cada lei contra os trabalhadores, em suma, um lugar em que o boi come o trabalhador em vez de ser o trabalhador a comer o boi, é um país que tem que começar de novo. Disso não tenho dúvidas.

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