Cena política é concebida para ser machista. Entrevista especial com Luciana Panke

por Patricia Fachin, em IHU On-Line

A representatividade feminina na política é ainda um dos grandes desafios do sistema democrático. Muitos partidos rifam as vagas para mulheres apenas para cumprirem a cota mínima exigida pela legislação. Não obstante, quando consegue ultrapassar essas barreiras e chega a ser eleita, a mulher tem de enfrentar um ambiente de homens, concebido para ser masculino. Mas se engana quem pensa que essa é uma realidade apenas brasileira. A professora Luciana Panke foi pesquisar mulheres na cena política de países da América Latina e constatou: “ainda que alguns países sejam mais machistas que outros, todos eles oferecem as mesmas barreiras para as mulheres que querem entrar na política”.

A primeira delas diz respeito à liberdade de escolha. “Em uma sociedade machista se aceita que o sucesso feminino esteja vinculado com suas relações pessoais e o masculino com as relações profissionais, que a  mulher seja uma posse de uma figura masculina e que o espaço público não lhe pertence como um local de expressão livre de suas ideias”, analisa, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. E constata: “a liberdade de expressão das mulheres acaba sendo falsa, pois quando se manifestam e estão em tom discordante do masculino político, são taxadas de ‘loucas’, ‘histéricas’ ou ‘burras’”. Além disso, quando as mulheres “conseguem chegar aos partidos políticos estão em quantidade, mas não com voz”. Ou seja, são apenas postas a preencher as cotas. “Organizam eventos, reuniões, articulações, mas não estão nas diretorias e nas mesas de decisão. Nos países que possuem leis afirmativas para candidaturas femininas, não é raro que os partidos cumpram apenas o esperado, quando cumprem, e não dão o apoio técnico e financeiro para a candidatura decolar”, observa.

Por fim, Luciana ainda diz que “a cena política é organizada para uma  sistemática masculina”. Como as mulheres não se enquadram nessas lógicas, são desestimuladas a serem protagonistas na cena política. “As mulheres entrevistadas são muito mais objetivas e práticas. Querem ação e uma resposta. A política masculina não é ágil. Isso frustra as mulheres e irrita os homens”, destaca.

Assim, para a professora e pesquisadora, “alcançar a naturalidade da presença de mulheres e homens em papéis não aceitos como de seu gênero é um desafio para toda a sociedade”. “Para alcançar essa naturalidade, vários campos da sociedade precisam mudar, começando pelas bases educacionais, que como consequência gerarão questionamentos e mudanças nos diversos âmbitos. Enquanto o poder permanecer na mão dos mesmos grupos políticos, midiáticos e jurídicos, a mudança será muito lenta”, resume.

Luciana Panke é pós-doutora em Comunicação Política pela Universidade Autônoma Metropolitana – UAM do México e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo – USP. Atua como professora associada na Universidade Federal do Paraná – UFPR, nos cursos de graduação em Publicidade e na Pós-graduação em Comunicação. Também é líder do grupo de pesquisa Comunicação Eleitoral.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A partir da sua pesquisa que deu origem ao livro “Campanhas eleitorais para mulheres” (Editora UFPR, 2016), você chega a quais conclusões gerais sobre a atuação das mulheres na política na América Latina?

Luciana Panke – O livro é resultado da pesquisa de pós-doutoramento realizada na Universidad Autónoma Metropolitana, com sede em  Cuajimalpa, no México. A pesquisa inicialmente analisaria as campanhas de candidatas presidenciais dos três países com os maiores PIBs da  América Latina: Argentina, Brasil e México. Com o decorrer dos trabalhos, verifiquei que os spots eleitorais tinham vários pontos em relação ao posicionamento da imagem das candidatas. Ampliei a pesquisa para uma década de spots de todas as mulheres que concorreram à presidência na América Latina.

Com isso, foi possível traçar um perfil dessas imagens públicas das  mulheres na política. A pesquisa avançou de modo qualitativo e, com isso, tive a oportunidade de entrevistar mulheres em 15 países para verificar se se identificavam com aqueles perfis e quais eram os desafios para estar na política.

Mesmas barreiras

Ainda que alguns países sejam mais machistas que outros, todos eles oferecem as mesmas barreiras para as mulheres que querem entrar na  política. Isso começa na questão das conservas culturais, ou seja, a primeira barreira é encontrar liberdade de escolha. Em uma sociedade machista se aceita que o sucesso feminino esteja vinculado com suas relações pessoais e o masculino com as relações profissionais, que a mulher seja uma posse de uma figura masculina (pai ou marido, normalmente) e que o espaço público não lhe pertence como um local de expressão livre de suas ideias. A liberdade de expressão das mulheres acaba sendo falsa, pois, quando se manifestam e estão em tom discordante do masculino político, são taxadas de “loucas”, “histéricas” ou “burras”.

A segunda dificuldade comum é que quando conseguem chegar aos  partidos políticos estão em quantidade, mas não com voz. Isso significa que estão presentes nestes espaços, organizam eventos, reuniões, articulações, mas não estão nas diretorias e nas mesas de decisão. Nos países que possuem leis afirmativas para candidaturas femininas, não é raro que os partidos cumpram apenas o esperado, quando cumprem, e não dão o apoio técnico e financeiro para a candidatura decolar. Também é comum dizer que não há mulheres. Para exemplificar, no Brasil, a maioria dos partidos possui paridade de gênero, então a desculpa de que não há mulheres na política parece um tanto incongruente.

A terceira dificuldade em comum é a dificuldade em conquistar voz e credibilidade na política. A cena política é organizada para uma sistemática masculina. Desde as questões mais comuns como horários de reuniões, até a dinâmica de negociação na qual é prática masculina o não posicionamento, as palavras difusas, o “deixa pra lá”. As mulheres entrevistadas são muito mais objetivas e práticas. Querem ação e uma resposta. A política masculina não é ágil. Isso frustra as mulheres e irrita os homens. Isso é uma das razões para que as mulheres na política formal também sejam excluídas das mesas de decisão, sejam ridicularizadas e assediadas. São mecanismos sutis e outros nem tanto que reafirmam a visão de alguns homens de que o lugar da mulher não é em espaços de liderança.

IHU On-Line – Que aspectos comuns chamam a sua atenção ao analisar diferentes campanhas de mulheres políticas com diferentes perfis?

Luciana Panke – Minha análise não levou em conta fatores como filiação partidária e idade, por exemplo. Assim, o que pude verificar são muito mais semelhanças que diferenças entre essas campanhas. Um dos principais pontos em comum foi verificar a associação que a maioria das  mulheres  faz com a maternidade. Todas se amparam, por exemplo, de uma forma ou outra no papel de maternidade (biológica ou simbólica). Biológica é quando são mães e citam isso em seus discursos ou estão com filhas ou filhos em fotos e eventos. E simbólica é quando mesmo que não sejam mães biológicas ou adotivas, se referem às pessoas no sentido de cuidá-las. É o que chamamos de “mães públicas”.

IHU On-Line – Pode observar alguma pauta comum apresentada por todas as candidatas?

Luciana Panke – As pautas dependem do objetivo da campanha, se é para o executivo ou legislativo. No primeiro caso, as pautas são gerais da administração pública, privilegiando, às vezes, aspectos como  educação  e saúde. No caso de legislativo, varia muito a bandeira feminina. Não tem como generalizar.

IHU on-Line – Quais são as diferenças que percebeu acerca da atuação de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Laura Chinchilla e Michelle Bachelet em suas respectivas campanhas e em seus respectivos governos?

Luciana Panke – Minha análise não foi sobre governos, mas sobre as campanhas, assim, comento sobre esse aspecto. Nas quatro campanhas, um dos traços em comum foi mostrar o diferencial que cada uma delas teria a partir de um traço ligado ao universo feminino, que é a sensibilidade.

No caso de Dilma, são exemplos imagens da candidata com o neto, cozinhando e caminhando, além de jingle do ex-presidente Lula, dizendo que o Brasil havia ganhado uma “mãe”. Na Argentina, a candidata estava associada ao falecido marido, as pessoas enviavam “força” à viúva. Na  Costa RicaLaura Chinchilla aparecia frequentemente dialogando com cidadãos, vestida de branco, reforçando a ideia de que a mulher acolhe. Por fim, no Chile, ainda que tenha sido a campanha mais equilibrada em relação a estereótipos, a imagem de Bachelet era frequentemente associada à profissão original de pediatra e também à característica do cuidar e do ouvir.

IHU On-Line – Em que medida as imagens de Cristina e Dilma, por exemplo, foram associadas a seus antecessores?

Luciana Panke – Nos dois casos, as imagens estavam fortemente ligadas aos antecessores como seus padrinhos políticos. No caso de Cristina foi ainda mais intensa pelo fato de ser ex-marido e haver falecido. No caso de  Dilma, a associação era feita no sentido de que ela seria a “mãe” do país, que já havia colaborado nas conquistas sociais.

IHU On-Line – O discurso feminista, em geral, aparece nos discursos das candidatas mulheres?

Luciana Panke – Não em todas. Não é pelo fato de ser mulher que a pauta feminista está presente. Isso se aplica também a candidatas progressistas  ou de esquerda. Do mesmo modo, há candidatas de direita que defendem pautas que se aproximam bastante do feminismo, mas sem essa nomenclatura.

IHU On-Line – Que papel o discurso feminista ocupou na política desempenhada por Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Laura Chinchilla e Michelle Bachelet?

Luciana Panke – Todas defendem a igualdade de voz das mulheres e a  presença de mulheres na política. Especialmente, Bachelet aplicava constantemente o discurso de equidade e igualdade de gênero em sua campanha. Todas passaram pela mesma classe de insultos machistas, especialmente Dilma e Cristina, que frequentemente eram associadas à “loucura”.

IHU On-Line – Por que as mulheres ainda não alcançaram um lugar de naturalidade na política latino-americana?

Luciana Panke – Alcançar a naturalidade da presença de mulheres e homens em papéis não aceitos como de seu gênero é um desafio para toda a sociedade. A questão é que parte desta sociedade não deseja a mudança, especialmente os que já detêm o poder. Para exemplificar a questão dos papéis de gênero, vamos pensar em um professor de pré-escola ou um homem diarista para fazer as limpezas domésticas. Possivelmente, são dois exemplos que podem gerar estranhamento.

No caso da visibilidade feminina, a questão da naturalidade está associada a todas as funções de liderança como diretorias, reitorias, organizações públicas, privadas e, claro, na política. Quando a sociedade não está acostumada com uma mulher mandando no espaço público, as críticas relacionadas a sua aparência, capacidade laboral e sanidade mental compõem o cenário cruel que a liderança feminina enfrenta.

Para alcançar essa naturalidade, vários campos da sociedade precisam mudar, começando pelas bases educacionais, que como consequência gerarão questionamentos e mudanças nos diversos âmbitos. Enquanto o poder permanecer na mão dos mesmos grupos políticos, midiáticos e jurídicos, a mudança será muito lenta. A esperança está nos movimentos nos quais mulheres e homens estão juntos pela causa da visibilidade feminina e na mudança geracional provocada pelo eco dessas ações.

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