A fase anal do Brasil: o Bolsonaro no Carnaval

Por Andrés del Río e André Rodrigues, no Justificando

O Carnaval é uma das expressões culturais populares brasileiras mais conhecidas quase em todo canto do mundo. Tudo vive e se manifesta no carnaval brasileiro e sua diversidade faz ele ser único. Neste ano, depois de vivenciar dois meses do inferno astral governamental, a população foi às ruas e se expressou maciçamente sobre a situação política nacional. E, claro, a rejeição e a insatisfação com o governo atual e seus delírios foram os principais alvos de manifestação popular.

No início do Carnaval, conhecido como o pré-carnaval, onde os blocos começam a colocar o pé na rua para ir aquecendo as máquinas, começou a se escutar timidamente o “Bolsonaro vai tomar no cu”. Mas em primeiro de março, na última sexta feira, em Belo Horizonte, Minas Gerais, a Polícia Militar do estado tentou proibir manifestações políticas no carnaval. Assim, a Polícia Militar advertiu sobre os gritos contra seu excelentíssimo presidente da nação no desfile do bloco Tchanzinho Zona Norte, após o vocalista entoar canto contra o presidente Jair Bolsonaro.

A resposta à censura policial não demorou a tomar luz. A Defensoria Pública do estado declarou em documento que: “as forças policias se abstenham de deter qualquer indivíduo ou direcionar a ele orientação sobre o conteúdo de suas falas quando políticas, sob pena de praticar odiosa prática de censura institucional, ilegal, inconstitucional e, ainda, punida como crime de abuso de autoridade”[1]. Essa indicação se estende a todo o território nacional. Assim, o canto contra o presidente tomou maior envergadura e novos significados. O último: a luta contra arbitrariedade e censura por parte do Estado.

A expressão “vai tomar no cu” é amplamente utilizada nas mais diversas situações, mas dessa vez escolheu o presidente como o alvo preferencial, agregando seu sobrenome no início da frase. Segundo o dicionário informal do português: “Expressão utilizada para desprezar alguém, mandar alguém se foder, ou pra puta que te pariu!”. O seu significado não é complexo. Geralmente utilizada quando a pessoa está pouco se importando com o que o outro achar. Destaca-se que a frase BVTNC não é o único canto escutado nos blocos, existindo uma interessante variedade de músicas e marchinhas com o mesmo objetivo[2][3].

O canto faz lembrar muito a experiência Argentina com o atual desastroso governo de Mauricio Macri: nos estádios, nos bares, em todo ato político e manifestação popular se escuta: MMLPQTP (Mauricio Macri la puta que te parió). Assim, com um canto se desintegra toda diferença social momentânea para unir de forma espontânea uma sociedade que está sofrendo cotidianamente a violência do ajuste neoliberal argentino.

O canto contra Bolsonaro e sua falida censura demostra a incompetência do governo atual e seus problemas para lidar de forma institucional com a insatisfação e fúria social pelas políticas públicas delirantes do clã no poder. A violência da frase é acorde à munição disparada em formato de destrato e de desrespeito do Bolsonaro com diversos setores da sociedade. A frase é do nível do presidente. Mas essas características se aprofundaram com duas respostas: uma do filho Carlos e outra do Capitão.

A primeira, por parte do filho Carlos, em resposta ao deputado federal Rogério Correia (PT) que tinha entrado na onda popular e tuitou: “Ei Bolsonaro vai tomar no cu! Retuíte e mostre coragem!”. Com elegância, o filho do presidente, Carlos Bolsonaro (PSL), vereador pelo Rio de Janeiro, respondeu com as armas que está acostumado: “Teu ‘grito de coragem’ será respondido de outro jeito! Prepara ai, amigão! Tudo encaminhado!”[4].  Tudo a ver com ameaça, pouco a ver com uma resposta institucional da presidência.

A segunda declaração, no dia 5 de março: o próprio presidente da República lançou no Twitter oficial da presidência o primeiro tuíte proibido a um presidente pela companhia do passarinho azul, considerando a mensagem como pornografia. Na mensagem, o Capitão colocou uma imagem de um homem dançando e introduzindo o dedo no próprio ânus e na sequência um outro sujeito urinando na cabeça dele. Assim, o presidente que lidera o país do carnaval mais conhecido do planeta tentou desmerecer o próprio carnaval. Segundo Alessandro Molon, líder da oposição na câmara, a publicação é incondizente com o cargo que Bolsonaro ocupa. Neste sentido, faz alusão ao parágrafo 7º do artigo 9º da Lei do Impeachment que diz que “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo” é crime de responsabilidade contra a probidade na administração pública[5].

Como resultado dessa lambança presidencial, a hashtag #ImpechamentdeBolsonaro foi para o primeiro lugar nos trendingtopics mundiais do Twitter. Não satisfeito com a repercussão da cena pornográfica e escatológica que publicou em seu perfil com o intuito de desqualificar (por rancor e covardia) um símbolo nacional, Bolsonaro ainda tuitou: “O que é Golden Shower?” (Uma pausa de mil compassos para que o leitor possa rir, chorar, se indignar e, por fim, aceitar a realidade de que o presidente do país veio a público fazer essa pergunta). O nível do absurdo é tal que um jornalista publicou em sua conta na mesma rede social que nos corredores da ONU há embaixadores estrangeiros se questionando se foi mesmo o presidente ou uma conta falsa que publicou tal indagação. O presidente é aloprado o suficiente para esse tipo de delírio anti-carnavalesco (afinal exaltou, em recente pronunciamento público, o ditador paraguaio, estuprador e pedófilo, Stroessner).

De forma espontânea se criou o tema do carnavalesco político nacional do 2019: BVTNC. Assim, em cada bloco de rua, e mesmo na tradicional Sapucaí, os cantos contra o Capitão foram escutados por todos. Com o mesmo resultado que da censura fracassada, o tuíte lançado pelo presidente multiplicou os cânticos contra sua pessoa, e nos sinaliza o desnorteado da pessoa que está dirigindo o país, a falta de compreensão do seu cargo, e o caos no qual este elemento nos está colocando.

O Carnaval exibiu a sede de justiça no caso Marielle, a luta pela liberação de Lula como preso político, a luta dos movimentos negros e LGBT, fortemente rejeitados pelo Capitão, e a presença das mulheres pela luta de um Brasil melhor, menos violento, respeitoso e não discriminador. A festa de Baco e dos Exús mostrou que o bolsonarismo não está à altura do país e que o Brasil é maior, mais belo, mais nobre, mais vivo, mais verdadeiro e solidário do que o presidente e seu séquito virtual.

Cada vez mais, o bolsonarismo vai se restringindo a essa esfera virtual na qual robôs e seguidores fanáticos (muitos que colocam o número 17 depois de seu nome, bem como bandeirinhas do Brasil, Israel e Estados Unidos, que se identificam como “anti-petistas” e “anti-esquerdistas”, “defensores da família” e “cristãos”) seguem defendendo uma figura humana minúscula. Cada vez mais, fica claro que o olavismo e suas ideias estreitas e falsas não dão conta da realidade, muito menos de servir de base ideológica para um governo. O desfile e o campeonato da Estação Primeira de Mangueira nesse carnaval talvez sejam a síntese dessas relações de força. O contraste é muito expressivo.

De um lado, uma das manifestações culturais mais pungentes e vivas que o Brasil já pode assistir. Uma festa que trouxe a história dos negros, dos índios e dos pobres para a avenida em um cortejo emocionante e arrebatador. Um Brasil de Marias, Mahins, Marielles e malês como centro de nossa cultura. Do outro lado, a melancolia de uma figura raquítica, política e moralmente, e seus 140 caracteres. O pálido Brasil bolsonarista é o túmulo do samba, o calabouço da cultura. É para onde seu cortejo fúnebre da barbárie neoliberal nos conduz.

Ao que parece, o Brasil está entrando na fase anal.

Viva o carnaval e sua riqueza cultural.

Andrés del Río é professor doutor de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense.

André Rodrigues é professor doutor de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense.

Notas:
[1]https://glo.bo/2VAS4q0
[2]https://bit.ly/2ERnN0F
[3]https://bit.ly/2tWVZSd
[4]https://bit.ly/2IVOmpI
[5]https://bit.ly/2H111G5

Ilustração: Justificando

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