Pela retomada da reforma agrária, sem-terra ocupam sedes do Incra em seis estados

Organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Jornada Nacional de Lutas realizou ações em treze estados e no Distrito Federal; trabalhadores exigem retomada da reforma agrária e denunciam militarização do Incra

Por Julia Dolce, em De Olho nos Ruralistas

Ocupações de superintendências regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), doação de alimentos e manifestações em todas as regiões do país marcaram a Jornada Nacional de Lutas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) deste ano, iniciada na quarta-feira (10) e encerrada uma semana depois (17), Dia Internacional da Luta Camponesa.

A data marca os 23 anos do massacre de Eldorado dos Carajás (PA), quando 19 integrantes do MST foram assassinados por policiais militares, que abriram fogo contra marcha que reivindicava melhorias para os assentamentos no Sudoeste do Pará.

Sob o lema “Direitos camponeses já, com reforma agrária e justiça social”, a Jornada de Lutas consolida a retomada do protagonismo dos sem-terra, após um período de reestruturação após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL). Em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, o dirigente nacional do MST, João Paulo Rodrigues, afirmou que o movimento perdeu 15% de sua base diante do receio de uma retomada dos ataques contra acampamentos de trabalhadores sem-terra.

Na segunda-feira (15), em sua conta do Twitter, Bolsonaro chegou a comemorar o fato de o MST ter realizado “apenas uma ocupação de terra” nos cem primeiros dias de seu governo.

SEM TERRA OCUPAM SEDES DO INCRA EM SEIS CAPITAIS

As mobilizações aconteceram em treze estados e no Distrito Federal, exigindo a retomada da reforma agrária e denunciando a militarização do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), além de posicionar-se contra a proposta de reforma da Previdência defendida pelo governo Bolsonaro.

Em São Paulo, trabalhadores sem-terra ocuparam a Superintendência Regional do Incra na capital paulista e realizaram uma manifestação em frente do Parque da Água Branca, onde seria realizada, em maio, a IV Feira Nacional da Reforma Agrária. A concessão de uso do parque foi vetada pelo governador João Doria, sob a alegação de que o espaço, que já sediou edições anteriores do evento, não é adequado para receber a feira.

Sedes estaduais do Incra foram ocupadas em Recife, Goiânia, Natal, Aracaju e Fortaleza. Na capital pernambucana, cerca de mil camponeses seguiram em marcha rumo à Secretaria de Desenvolvimento Agrário do estado, onde foram recebidos pelo secretário Dilson Peixoto.

Em Maceió, 3 mil trabalhadores marcharam exigindo uma reunião com o governador Renan Filho. Em Salvador, 3 mil pessoas marcharam denunciando a violência no campo e denunciando as mudanças na aposentadoria rural.

No Rio de Janeiro, o protesto exigiu medidas contra a extração ilegal de areia que ocorre dentro do Assentamento Terra Prometida, na Baixada Fluminense, e relembrou os dezesseis anos da Chacina do Borel. O movimento realizou ações também em Curitiba, Porto Alegre, João Pessoa e Florianópolis, onde ocorreu o lançamento da 6ª Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária.

No DF, famílias sem-terra doaram alimentos para motoristas e passageiros de ônibus na BR-080, em frente do acampamento Noelton Angélico, em Brazilândia, e na BR-020, em frente do acampamento Oziel Alves, na região de Planaltina. Foram entregues legumes, frutas e raízes produzidas de forma orgânica.

Os sem-terra chamaram atenção também para o aumento de mortes decorrentes de conflitos no campo. Segundo relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgado na sexta-feira (12), 28 pessoas foram assassinadas no ano passado. Em 2019, já são onze assassinatos no campo contabilizados pela entidade.

Palco do Massacre de Carajás, o Pará é o estado com o maior número de ocorrências de conflitos e de assassinatos nos últimos anos. Desde o dia 10 de abril, 300 jovens sem-terra formaram um acampamento pedagógico na “curva do S”, nome do local exato onde ocorreu o massacre, em 1996. Em Belém, foi realizada uma feira com produtos da reforma agrária de assentamentos da região.

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