A cultura do ódio

Por Helenice Rocha

É a cultura do ódio a responsável pelo país sombrio e miserável que estamos habitando.

Quem elegeu Bolsonaro? O ódio. O ódio ao PT, à velha política, à esquerda, mas ódio.

Bolsonaro inventou o ódio no Brasil? Óbvio que não, mas ele o legitimou como nenhum outro presidente o fez.

Bolsonaro prega o ódio diariamente, sem nenhum pudor, às claras. Nem no regime militar vimos isto. Naquela época, na maior parte do tempo, o ódio se recolhia aos porões.

Quando Bolsonaro exaltou publicamente, na casa do povo, um torturador que colocava baratas e ratos vivos nas vaginas das mulheres e não foi preso ali, naquele momento, ele mandou um recado: doravante poderemos exercer nossa sordidez sem nenhum verniz.

E assim ele se tornou presidente.

Quando o mandatário de uma nação, a figura que ocupa o cargo mais respeitável de um país prega o ódio sem trégua, ele legitima a expressão da fúria para todos.

No texto “psicologia das massas” Freud nos adverte sobre o perigo da ascendência do “líder louco” sobre a massa. Foi assim na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini e na Espanha de Franco.

No Brasil de Bolsonaro, o caso do rapaz que espancou a amante grávida e depois suicidou-se é emblemático. É a expressão do ódio em suas formas mais caricatas.

É emblemático por vários motivos: porque no país do bolsonarismo as mulheres são odiadas; porque o rapaz chamava as feministas de cadela na música que cantava em homenagem ao presidente e porque como tantos jovens no país governado por este pulha, o rapaz enlouqueceu e se matou.

É emblemático porque os comentários dos eleitores do presidente nas redes sociais vão desde a esculhambação da moça ora hospitalizada, até a teoria de que o rapaz não se matou, na verdade “ele foi morto por alguém da esquerda.”

E enfim, é emblemático porque o presidente, ao expressar em seu twitter as condolências à família do rapaz, não fez uma menção sequer à vítima e sua família, da mesma forma que até hoje não deu um pio sobre outras mortes que chocaram o país.

Bolsonaro sempre foi da ralé. Enquanto vivia no submundo da ralé militar e da ralé política, foi nocivo ao país que servia, sem dúvida, mas era um “rato de porão”. No momento em que se tornou presidente com 57 milhões de votos, saiu da ralé e escancarou o que excita seus defensores: o ódio.

Bolsonaro ama as armas, as milícias, a burrice, os homens e as mulheres violentos.

Ele odeia a educação, a arte, a sexualidade, a saúde e o meio ambiente.

Somos hoje um país a beira de um colapso econômico e social. Muitos países já viveram esta experiência no pós guerra e se recuperaram com dignidade.

A guerra que agora vivemos é a da insensatez, da mediocridade, da boçalidade, da estupidez e da ignorância.

Somos mais de 200 milhões nas mãos de um crápula que não economiza na incompetência, desprezo e sadismo que constitui sua verdadeira essência.

Mas somos mais de 200 milhões e serão exatamente aqueles que Bolsonaro odeia que vão levantar este país uma vez mais pra fazer com que a pestilência que hoje envenena a todos volte para os porões de onde nunca deveria ter saído.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Isabel Carmi Trajber.

Destaque: Hieronymus Bosch – detalhe de O Juízo Final

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