Agroecologia e comunicação popular transformam vidas no interior do Ceará

Por Alana Soares, no Brasil de Fato

No alto da Chapada do Araripe, a 29 quilômetros da sede do município do Crato, na região do Cariri cearense, 48 famílias vivem o sonho de gerações passadas e trabalham na construção de um futuro melhor para as que virão, sem esquecer da trajetória que os trouxe até aqui.

Erguida em 1991, nas proximidades do sítio histórico do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, foi apenas a partir dos anos 2000, com a implementação de projetos sociais e agroecológicos, que a comunidade se fortaleceu.

Entre eles, estão as cisternas de enxurrada e sistemas de tratamento e reúso da água; programas para aproveitamento do espaço e produção de hortaliças, mandalas e criação de galinhas. Tem também ações para a geração de oportunidades de trabalho, renda e lazer para a juventude rural, com capacitações em sustentabilidade, gestão e comunicação popular.

“Estamos com a vida fácil hoje, mas naquele tempo era muito difícil”. A agricultora Ana da Silva, de 67 anos, é uma das fundadoras do Assentamento. Para fugir da fome cruel, largou Nova Olinda, também no Ceará, e saiu pelas veredas junto ao Movimento Sem Terra.

“Tudo o que eu plantar aqui, dá. E é meu. Antigamente eu varria um quintal com muita folha e queimava tudo. Hoje em dia não faço mais isso”, Dona Ana se refere às técnicas de agrofloresta que colaboram com a produtividade. Ela mistura as folhas ao estrume, o que rende o adubo orgânico que usa na horta.

“Era cruel. Não era tão doce a vida de viver em fazenda”, Francisco Gomes, de 78 anos, recorda os tempos de meeiro. São relatos de trabalho forçado, más condições, maus tratos e falta de opção. Na fazenda onde trabalhava em Santana do Cariri, havia outras 53 famílias. Netos e bisnetos do trabalho arrendado.

“A vida do povo melhorou 100% tanto pela educação, quanto pela condição de vida”, seu Francisco agora tem terreno, roça e criação de gado no Assentamento 10 de abril, onde mora com a esposa e os filhos há 28 anos.

Já o técnico em agropecuária José Antônio, 26, representa bem o perfil dos jovens assentados que abraçaram a oportunidade de ter uma profissão na cidade sem esquecer as raízes rurais.

Apaixonado por comunicação, José é uma pessoas que gerenciam a rádio poste “Vozes e Conquista”. Lá eles produzem e transmitem programas com a história da comunidade e seus personagens, dicas e cuidados agroecológicos, além de notícias sobre saúde, política e cotidiano.

“A gente assiste televisão, assiste o Jornal Nacional e lá tem várias informações que não tem nada a ver com a nossa realidade. E na rádio, as pessoas escutavam e se identificavam, porque o que a gente falava de acordo com nossa realidade, nossa vivência de comunidade”, Bruna Gomes, de 20 anos, faz faculdade e se organiza para estar na rádio, trabalho que a aproximou significativamente da comunidade e do Movimento Sem Terra.

“Sempre vinham pessoas de fora contar nossa história, mas nós queríamos contar nossa própria história”, “O Movimento percebeu que estávamos organizados e hoje nós somos referência de juventude para o MST no Ceará”.  

“De uma comunicação popular, comunicação comunitária, feita por nós, crianças, jovens, adultos e pessoas idosas que tem muito a nos ensinar e orientar”, em meio a riqueza da produtividade e da sabedoria para conviver com o semiárido diante do passado de seca e fome, o Assentamento 10 de Abril oferece moradia, trabalho e esperança de vida nova às famílias camponesas antes desoladas.

Edição: Dani Stefano.

Imagem: Nascido e criado no Assentamento José Antônio, 26, consegue equilibrar o trabalho na cidade e suas raízes no campo / Alana Soares

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