Marcia Tiburi: ameaçado, capitalismo apela à violência policial para intimidar a população

Ultraneoliberalismo se aproveita e estimula medo e tristeza nas pessoas para intimidar e impedir a revolta da população, avalia filósofa e professora

por Redação RBA

Em meio ao aumento da exploração dos trabalhadores e a retirada de direitos sociais básicos, a filósofa e professora Marcia Tiburi avalia que o estímulo ao aumento da violência policial é uma ação planejada da elite econômica para intimidar a população que se vê cada vez mais acuada. “O capitalismo em sua fase atual, selvagem, em que a exploração tem que ser levada ao limite para poder se sustentar, entra também em colapso. E toda essa violência policial serve a isso. A polícia serve como um braço do Estado a serviço do capital. Coloca-se a polícia a pôr medo na população, a matar quanta gente se puder. A partir dessa violência praticada, se produz muito medo”, avalia, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

A necessidade desse medo está diretamente relacionada à crise do capitalismo e à tomada de consciência de parte da população sobre os prejuízos que esse sistema causa à vida da maioria das pessoas. “A gente se encontra hoje, como sociedade, como cultura, em um momento desesperador para o neoliberalismo. O capitalismo realmente está ameaçado. Hoje muito mais gente entende como funciona a exploração capitalista. E muito mais gente não quer essa exploração porque sabe que a sua vida não fica boa sob essa exploração. E também porque entende que a exploração é violenta”, argumenta Marcia.

Para ela, esse medo atua em duas situações. Por um lado, encurrala a população que mais sofre com as medidas de austeridade e retirada de direitos. Por outro, fortalece o “comércio da segurança”. “O medo é muito bom para o capitalismo na sua fase atual, porque sem ele não tem como sustentar também a sua indústria armamentista. A indústria armamentista é muito importante mundo afora. E se tornou muito importante no Brasil – desde que o presidente da República vem sendo um garoto propaganda importante dessa indústria. A indústria armamentista é a indústria do medo e ao mesmo tempo da segurança. São entrelaçadas. Ambas dependem do medo da população.”

Ela percebe que discursos como dos governardores João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), bem como do presidente Jair Bolsonaro, procuram explorar esse medo e oferecer a violência como solução. E as vítimas preferenciais são os jovens negros, pelos quais é preciso agir. “Os fascistas no Brasil prometeram a morte de muita gente e têm praticado essa morte, sobretudo em cima dos corpos dos jovens negros. Nós não podemos esquecer disso. A gente precisa lembrar que os jovens não vão salvar o mundo. Nós precisamos salvar os jovens para que haja mundo”, defende.

A filósofa entende que outra parte da reação do capitalismo a essa crise se dá pelos meios de comunicação empresariais. “O grande poder que rege os demais poderes no Brasil é o poder da mídia. Ela define o que os outros poderes serão ou deixarão de ser. A grande mídia hegemônica que controla a produção do discurso e a tendência dominante do pensamento são corporações. A gente não pode olhar para os grandes jornais e TVs como se fossem instituições livres. São grandes empresas. Da mesma forma que as redes sociais. Existe sempre jogos de poder e muito dinheiro envolvido nesse tipo de empresa”, afirma.

Marcia avalia que o cidadão que não tiver noção dessa situação acaba por ser um “escravo”, sem perceber a parte que lhe toca na perda de diretos, no aumento da exploração. E o caminho para enfrentar isso é a melhora na educação. “A educação desmonta tudo isso. Não é à toa que no Brasil haja uma verdadeira guerra contra a educação. Essa é a função de vários agentes governamentais hoje. Há uma destruição da educação que é programa, para realmente acabar com o país. Destruindo um país, as elites econômicas conseguem manter o seu próprio poder”, defende.

Ao mesmo tempo que acabam manipulados pela mídia comercial, os cidadãos que não possuem formação política, que não participam de grupos ou organizações, são alvos e público preferenciais de grupos de extrema direita. “Essa pessoa que não sabe muito bem o que quer é o alvo da propaganda política de extrema direita hoje. É importante que essas pessoas acordem que são seus filhos, seus sobrinhos, que estão sendo dizimados em cima de uma ignorância e falta de participação delas. Elas são as pessoas mais importantes hoje porque elas são usadas e abusadas na sua mentalidade para o crescimento da extrema direita”, conclui.

Imagem: Policiais já não se intimidam com a presença de câmeras, jornalistas ou advogados, ao serem violentos contra a população – WIKIMEDIA COMMONS

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