É fundamental refletirmos sobre a postura jornalística ante os atos terroristas no Rio de Janeiro

Tania Pacheco

Em menos de 24 horas, dois atos terroristas foram anunciados no Rio de Janeiro: primeiro, o atentado contra a produtora do programa “Porta dos Fundos”, divulgado na véspera de Natal, 24; ontem, 25, a publicação de um vídeo reivindicando sua autoria para um suposto grupo integralista de nome quilométrico. De bataclava, sob o sigma e sobre a bandeira do império e imagens da ação terrorista, ameaças em voz distorcida e afirmações de que “quando a Revolução Integralista vier, todos estão condenados ao justiçamento revolucionário”.

No dia 24, passei boa parte do dia na dúvida quanto a noticiar o atentado, dividida entre a indignação e a consciência de que seus autores com certeza esperavam provavelmente cada vez mais ansiosos pela reverberação do seu ato nas mídias. Acabei por noticiá-lo já de noitinha, quando ele já rodava o mundo.

Ontem, entretanto, me neguei – e continuo a fazê-lo de forma radical – a permitir que este blog seja usado para dar publicidade à insânia criminosa desses seres.

Não estive sozinha. Nas redes sociais, o debate se manteve intenso: enquanto uns não resistiam a soltar em suas páginas (incluindo sites) cópias do vídeo da extrema-direita terrorista, outras pessoas abriam mão do ‘furo’ (!) e das curtidas, afirmando o óbvio: que os criminosos queriam e querem exatamente esse tipo de propaganda e que, por isso, era e é fundamental negá-la.

No final da noite de ontem, O Globo informou a existência de vídeos das câmaras da redondeza, através dos quais seria possível identificar a placa de um dos veículos utilizados pelos terroristas, assim como o rosto de um deles. Esta manhã, a Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que está usando as imagens em suas investigações. De Brasília, o silêncio. Afinal, terrorismo é assunto mais corriqueiro e menos perigoso que roubo de shampoo em supermercado. Nojo!

Ontem à noite, um dos comentários mais lúcidos que li veio do twitter, escrito pela jornalista Cecília do Lago. Veio através dela também a lembrança de uma indicação que socializo abaixo:

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O assunto é mais que sério. Não podemos continuar a caminhar para o abismo nos limitando a ridicularizar a ignorância, a corrupção e a torpeza dos atuais detentores do poder. Estamos fazendo o jogo deles.

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“Terrorismo e a mídia: um manual para jornalistas” foi escrito para a Unesco por Jean-Paul Marthoz, jornalista e ativista belga. Abaixo, como um convite à reflexão, cito seu Prefácio.

Prefácio, por Moez Chakchouk

Deve ficar claro para todos por que uma publicação como esta, sobre a cobertura do terrorismo e do extremismo violento na mídia, é necessária de forma urgente.

Em todo o mundo, vemos diversos atores cometendo atos de violência contra civis para fomentar o medo e a desconfiança de outros. Vemos populações em muitos países convencidas de que o terrorismo representa a ameaça mais significativa à sua vida cotidiana. Vemos movimentos políticos que se aproveitam da tragédia e jogam cidadãos uns contra os outros para obter mais apoio. É fundamental refletir sobre como a mídia pode estar inadvertidamente contribuindo para esse clima tenso, e quais medidas devem ser tomadas para lidar com esse problema.

É importante lembrar que o terrorismo não é um fenômeno novo. Muitos países têm sofrido por décadas com grupos, tanto internos quanto externos, e incluindo atores estatais e não estatais, praticando violência contra civis como estratégia política. Em muitos casos, a população local se tornou mais forte e resiliente, provando que, a longo prazo, a brutalidade não é páreo para o progresso da união e dos valores compartilhados.

Nesse contexto, a mídia é fundamental para fornecer informações verificáveis e opiniões conscientes. Durante a atmosfera tensa de uma crise, com populações nervosas e temperamentos inflamados, isso se torna ainda mais importante. A relação entre o terrorismo e a mídia é complexa e tensa. Nos piores momentos, é uma relação simbiótica perversa – grupos terroristas planejam espetáculos de violência para continuar a atrair a atenção do mundo, e a mídia é incentivada a realizar uma cobertura completa, devido ao enorme interesse do público.

Naturalmente, a intenção não é minimizar o real sofrimento humano causado pelo terrorismo. Muitas vidas foram interrompidas por essa razão. Esses atos devem ser sempre lamentados, e os responsáveis levados à Justiça.

É importante lembrar que o objetivo desses atores violentos não é provocar o terror pelo terror. Eles não desejam criar medo na mente de homens e mulheres simplesmente por seus interesses, ódio ou ideologias. Seu objetivo real é dividir a sociedade ao meio, jogando as pessoas umas contra as outras por meio da repressão, da discriminação e da discórdia. Ao mesmo tempo, pretendem provar que estão corretos em suas previsões de perseguição generalizada e atrair novos seguidores à sua causa violenta. Buscam criar um clima de derrotismo diante de ataques e reações polarizadas.

O risco real do terrorismo é que o medo e a desconfiança conduzirão a uma nova onda de nacionalismo e populismo, e que as liberdades pelas quais todos nós lutamos tanto para alcançar serão sacrificadas no altar da retaliação. Estes não são ataques contra uma nação ou um povo, mas ataques contra todos nós como cidadãos do mundo. Devemos ser particularmente críticos em relação a qualquer resposta que caia intencionalmente nas mãos de atores violentos e que produzam suas próprias vítimas, as quais se tornam mártires para promover o recrutamento terrorista.

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Nesses momentos difíceis, com públicos fragmentados e muitas organizações de mídia passando por graves desafios financeiros, os jornalistas devem resistir ao desejo de tratar os assuntos de forma sensacionalista com o intuito de atrair olhares, ouvidos e cliques.

Eles devem manter uma perspectiva global e prestar atenção às palavras utilizadas, aos exemplos que citam e às imagens que mostram.

Devem evitar especulações e acusações na confusão imediata após um atentado, quando não se sabe de nada, mas quando a demanda por informação seja talvez a mais forte de todas.

Devem considerar de forma cuidadosa o fato de que existe algo inerente ao terrorismo, como um ato violento, que provoca medo em muitas pessoas, o qual é muito desproporcional ao nível real de risco.

Devem fazer tudo isso enquanto não colocam a si próprios, ou sua equipe, em perigo na busca por uma matéria.

Acima de tudo, devem evitar fomentar a divisão, o ódio e a radicalização em ambas as margens da sociedade.

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Durante períodos de crise, de desastres naturais à fome e ao conflito e, nesse caso, ao terrorismo, a UNESCO trabalha ativamente por meio de seus setores especializados para monitorar a situação, avaliar as necessidades e responder de forma apropriada e eficiente.

Estamos contribuindo com nossa experiência e com nosso conhecimento para a implementação do Plano de Ação do secretário-geral das Nações Unidas para Prevenir o Extremismo Violento, por meio da educação, da participação e do empoderamento dos jovens, promovendo a liberdade de expressão, e salvaguardando e celebrando a diversidade cultural em todo o mundo.

Estamos trabalhando com nossos parceiros para combater o tráfico ilegal de objetos culturais que possam fornecer uma fonte de financiamento para grupos extremistas, assim como continuando a promover nossos valores fundamentais de tolerância, compreensão e paz em um momento em que estão sendo ameaçados.

Espera-se que este manual, desenvolvido com a contribuição de jornalistas, editores e produtores de mídia, funcione como um recurso valioso para aqueles que cobrem atos terroristas. Nem toda pergunta feita tem uma resposta clara e incontestável, mas irá ao menos estimular a autorreflexão por parte dos profissionais de mídia sobre como eles podem evitar contribuir para a estigmatização e a divisão. Também pode fornecer uma base para a criação e a revisão de códigos de conduta, para garantir que os valores supramencionados sejam consagrados nas operações diárias das organizações de mídia.

Este manual também é apenas um passo em uma resposta da UNESCO para a questão de como a mídia cobre o terrorismo e o extremismo violento. Os conselhos e as sugestões contidos neste manual serão desenvolvidos em materiais de treinamento para ajudar jornalistas em todo o mundo a se tornarem mais conscientes sobre as várias dimensões dessas questões.

O terrorismo e o extremismo violento são, provavelmente, problemas que estarão conosco ainda por algum tempo. Todavia, se formos capazes de trabalhar juntos para reduzir a retórica explosiva, a cobertura exagerada e a estigmatização de grupos minoritários, talvez desapareçam alguns dos incentivos para a prática de atos violentos contra civis.

Moez Chakchouk – Diretor-geral adjunto de Comunicação e Informação da UNESCO

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Baixe o livro na íntegra AQUI. .

Destaque: Hieronymus Bosch – A Violent Forcing Of The Frog (detalhe).

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