A crise da água no Rio de Janeiro é a necropolítica pela torneira

por Juliana Gonçalves, em The Intercept Brasil

A NECROPOLÍTICA NÃO ACONTECE só quando o governador Wilson Witzel diz que é para atirar na cabecinha das pessoas. Ela também está saindo da torneira dos cariocas em forma de água com cor diferente, gosto estranho e cheiro esquisito – bem longe de ser inodora, insípida ou incolor, como aprendemos na escola. A crise da água é mais uma face da política da morte – e o Rio de Janeiro é seu grande laboratório. É mais fácil enxergar a necropolítica em ação quando pensamos em snipers atirando a esmo nas favelas, mas a gestão da morte também acontece quando o estado sucateia um serviço que garante um direito universal: o acesso à água.

O conceito de necropolítica, criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe em 2006, se baseia na premissa de que o estado pode decidir quem vai viver e quem vai morrer. Essa teoria explica o Brasil desde o período colonial, quando pessoas eram escravizadas e torturadas para satisfazer outras por causa de sua raça, e se mantém até hoje. A necropolítica acontece, por exemplo, quando o estado define qual região recebe ou não determinada política pública – o que acaba determinando quem tem mais chances de morrer. Essa escolha também cria uma condição de quase morte, deixando as pessoas inertes para que não tenham forças para se rebelar contra o inaceitável – o que responde aos que questionam por que o carioca não tomou as ruas depois de semanas de água suja saindo das torneiras.

Os problemas com a água no estado, assim como a necropolítica do governo, não são novidade. A poluição por esgoto doméstico e industrial na Bacia do Guandu, de onde vem a nossa água, é caso antigo e a discussão sobre a privatização da Cedae, a Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio de Janeiro, também. Inclusive, já contamos como a venda da estatal coloca em risco o acesso à água como direito humano.

Mas é no governo Wilson Witzel que boa parte do corpo técnico da Cedae é exonerado, ampliando o sucateamento do sistema. E é Witzel que chantageia a população dizendo que a despoluição só vem depois da privatização, criando uma situação de emergência para a venda da companhia. Governar usando a gestão da morte para atingir seus próprios interesses também é necropolítica (o que não é exclusividade de Wilson Witzel, vale lembrar).

Enquanto o governador pensa na boa grana que vai entrar com o leilão da Cedae, o “piriri” foi normalizado entre os cariocas. Apesar das autoridades garantirem que a água é potável, as emergências dos hospitais estão lotadas de pessoas com enjoos e diarreias – o que agrava o já falido sistema de saúde do estado. Quem tem dinheiro corre para comprar água mineral: moradores da zona sul da cidade limparam as prateleiras dos supermercados e garantiram seus engradados enquanto nas regiões mais pobres da cidade, que por sinal foram atingidas primeiro, só resta ferver a água ou ainda escolher entre beber água mineral ou comer.Falamos de racismo porque o CEP também tem cor.

O estado pode ter várias políticas de morte diferentes. Mas há algo em comum: elas sempre atingem primeiro quem é pobre. Morre primeiro quem não tem grana para pagar o hospital, quem não tem saneamento básico e está exposto a condições insalubres de vida ou quem precisa escolher entre a água mineral e a comida.

O necropoder não tem interesse em saúde, educação, geração de renda e bem estar – diretamente impactados pelo acesso à água e ao saneamento básico. O necropoder, nesse caso, atua por meio do racismo ambiental que determina quem vai ter esgoto tratado e água encanada e quem vai estar exposto a rejeitos tóxicos ou aos efeitos diretos de indústrias poluidoras. E é por isso que temos Belford Roxo (4,52%), Nova Iguaçu (0,15%) e São João de Meriti (0%), três cidades da Baixada Fluminense, no ranking dos 10 piores municípios por esgoto tratado no Brasil, e não Copacabana, Ipanema e Leblon. Falamos de racismo porque o CEP também tem cor.

A mesma pesquisa ‘O saneamento e a vida da mulher brasileira’, da Trata Brasil, responsável pelo ranking, também revela que as mulheres são as mais afetadas pelo acesso precário à água e saneamento. Especialmente as mulheres negras. Diretamente atingidas como consequência de uma estrutura machista que as coloca como cuidadoras da casa, são elas que têm um maior contato com a água contaminada e com outras pessoas que adoecem por conta da infraestrutura de saneamento. É, de novo, o racismo ambiental.

Mad Max de décadas

As cidades da Baixada Fluminense já vivem a crise da água faz anos. Em alguns locais, não chega nem a água suja. O poço dos desejos da minha infância sempre foi o artesiano. Quem tinha poço na rua conseguia fornecer alguns baldes para o banho e para cozinhar no verão quando não caia água de jeito nenhum das torneiras. Já para beber, a melhor opção sempre foram os galões de vinte litros (que na atual crise já estão em falta).

Nas favelas, o cenário não é muito diferente – mas um pouco pior. Os encanamentos improvisados se misturam e não se sabe onde passa cano de água ou de esgoto. O Complexo da Maré, por exemplo, não é atendido pela vizinha ETE Alegria, uma das maiores estações de tratamento da América Latina, por causa de um impasse no governo. Aliás, a Maré não recebe nenhum dos itens previstos pela Lei Nacional de Saneamento Básico. Em outra comunidade da zona norte, Manguinhos, os dejetos dos moradores são despejados nos mesmos rios em que as crianças nadam – uma imagem que se repete em outros lugares pobres da cidade.

O descaso com o saneamento está diretamente ligado à crise da água. O sistema é poluído pelo esgoto. O governo do Rio e a Cedae dizem que a água está alterada por causa de uma substância chamada geosmina, produzida por uma alga. Teoricamente, ela não deveria causar danos à saúde. Mas as autoridades não conseguem explicar por que as pessoas adoecem após o consumo da água. Enquanto o caos se instala, ninguém consegue prever quando o abastecimento voltará ao normal.

Esse Mad Max carioca foi construído por anos baseado em uma necropolítica que escolhe quem recebe ou não políticas públicas e direitos. Somos fantoches do estado que tem como objetivo exterminar preto e pobre – os ricos também são lesados, mas bebem água mineral. O governo do Rio de Janeiro trabalha para a destruição das pessoas. Seja na bala, seja por sede. Cuidem-se!

Prateleiras vazias, sem água, em um supermercado na Barra da Tijuca: os ricos também são lesados, mas bebem água mineral.

Foto: Marcelo Fonseca/Folhapress

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