Espiritualidade Libertadora é tema de formação com comunidades camponesas de Monte Santo (BA)

Por Maria Aparecida de J. Silva e Clériston Oliveira/ CPT Centro-Norte

Camponeses/as de comunidades de fundo de pasto, quilombolas e assentamentos da reforma agrária participaram, no dia 12 de março, da primeira etapa de formação do Liderar em Monte Santo (BA), que teve como tema a Espiritualidade Libertadora. O encontro teve como objetivo fortalecer as lideranças na espiritualidade de Jesus que caminha com o povo e na forma de organização na luta da terra por direitos, preservação da natureza e dos laços comunitários, tendo em vista o bem viver das comunidades.  

Os integrantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Bonfim Pe. Luís Tonetto, Maria Aparecida Silva e Clériston Oliveira assessoraram essa primeira etapa do Liderar. Pe. Luís destacou que “a espiritualidade é um patrimônio de todos os seres humanos, é o espírito que dá ânimo, a fé que move as pessoas e tem relação com o modo de viver das pessoas. Sendo assim, existem diversas espiritualidades, dentre elas, a espiritualidade libertadora, nascida a partir da realidade de opressão vivida pelos povos”. 

O padre mencionou a Conferência de Puebla, na qual a Igreja da América Latina, a partir do Concílio Vaticano II, afirmou a opção preferencial pelos pobres. Destacou ainda, que durante uma Assembleia Diocesana o Bispo Dom Jairo Ruy Matos, constatou que os mais pobres da Diocese são os lavradores e lavradoras e que a espiritualidade libertadora exige uma leitura crítica da realidade, ter os pés bem fincados no chão e realizar ações que mudem o contexto da América Latina, dominada pelo imperialismo/capitalismo, onde os ricos ficam cada vez mais ricos à custa dos pobres.

Outro momento importante durante o curso foi o aprofundamento a partir das leituras bíblicas: história da libertação do povo hebreu (Êxodo 1, 2 e 3,7-12); as vinhas de Nabot (1 Reis 21, 1-28), o Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37) e o Lava Pés (João 12, 3-14). Essas leituras têm em comum a centralidade do pobre no projeto de Deus, a experiência de fé no Deus vivo que se concretiza na luta do povo de Deus pela terra, contra a ganância dos poderosos e a opressão.

Outros elementos significativos que remetem à espiritualidade libertadora presente nas leituras são o papel fundamental das mulheres no caminho da libertação; a prática da misericórdia, compaixão e solidariedade ao “caído à beira do caminho”; a humildade e serviço a quem mais necessita a presença de um Deus amoroso, próximo do seu povo, que caminha junto com os explorados, dá testemunho de humildade e serviço ao próximo e exige comprometimento com a causa da libertação para enfrentamento de sistemas tirânicos e de poderes religiosos, políticos e econômicos que escravizam o povo.

Para os cursistas, a espiritualidade de Jesus questiona as falsas espiritualidades, que manipula, aliena e paralisa a pessoa humana de se libertar do cativeiro, que individualiza as relações, com uma fé egoísta num Deus “meu” e distante, que fragiliza as relações de natureza comunitária, Deus de todos, “Deus conosco”, humano e próximo. Questiona o poder, os vícios e a ideologia dominante que concentra as decisões e dita às regras/leis em favor dos abastados e não se coloca à serviço dos humilhados, excluídos e perseguidos.

O encontro possibilitou muitas aprendizagens sobre a espiritualidade na sua diversidade de manifestações do sagrado, dos modos de viver e celebrar, avaliaram os participantes.  Os cursistas se comprometeram em realizar celebrações da Semana da Água nas suas respectivas comunidades e outros momentos que possibilitem a vivência da espiritualidade libertadora, “sentir Deus na vida da comunidade”, e fazer o caminho da libertação, na luta por direitos, sobretudo, neste momento da conjuntura marcada por um golpe em curso.

Foto: Maria Aparecida de J. Silva e Clériston Oliveira/ CPT Centro-Norte, Diocese de Bonfim (BA)

Deixe uma resposta

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

7 − três =