Quando entrar setembro. Por Mauro Luis Iasi

O que me agradaria uma vez passada esta crise, é que nossas casas fossem novamente habitadas por seres humanos que reaprenderam a valorizar o que realmente é importante.

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Você que tem condições para tanto e está de maneira responsável seguindo as orientações de isolamento – e portanto não faz parte de uma espécie de gente que aderiu ao irracionalismo e acredita em falsos pastores e irresponsáveis nos mais altos cargos da República – deve estar buscando uma forma de enfrentar este período difícil.

É provável, afinal, você parece ser uma pessoa culta, que buscaria abrigo em livros, canções, filmes e material relevante nas redes sociais (e algumas bobagens irrelevantes também para se distrair). Podemos aproveitar este momento dramático para redescobrir certas coisas essenciais que temos relegado. Para lembrar como era gratificante enfrentar um romance e seus desafios, desligar-se do mundo para prender-se a ele pelo elo da imaginação e a criatividade do autor, navegar por outros mundos, enfrentar guerras planetárias ou travar batalhas contra os seres das trevas, viver grande paixões e amores infinitos, emocionar-se com a bondade do mundo, revoltar-se contra a injustiça.

Sentar-se quietos para ouvir as vozes e os sons que nos enternecem e nos fazem crescer em nossa humanidade tão maltratada, nossa sensibilidade esquecida e apequenada neste mundo frio e violento – receber suas mensagens de esperança e força, abraçar suas dores como se nossas fossem e cantar juntos.

Quando estivermos em nossas casas recebendo essa poderosa ajuda, quando nos sentirmos um pouco melhor e mais humanos porque lemos um livro, assistimos a um filme, escutamos uma música, lemos um poema, quando mergulhamos nas cores e pinceladas de um quadro ou quando nos deixamos levar pelos passos da dança… guardemos um momento de nossos pensamentos para as pessoas que nos proporcionam tudo isso. Artistas, músicos, poetas, escritores, cineastas, bailarinas, fotógrafos, pintores, teatrólogos, escultores, desenhistas, gente que exilou parte de sua sensibilidade para atravessar muros, distancias, pandemias, só para abraçar com um carinho e uma força infinita e te fazer um pouco melhor.

Então, quando tudo isso passar, “quando entrar setembro e a boa nova andar pelos campos”, quem sabe, nos lembremos de não achar normal que a Cultura receba 0,03% do Orçamento Federal enquanto os juros e amortização da dívida tenha rapinado 38,27% do dinheiro público (dados do Orçamento executado em 2019). Que sejamos capazes de perceber que os trabalhadores da cultura não podem viver de projetos e esmolas, com fluxo e ritmo variável e inconstante, que a gente não quer só comida, quer comida, diversão e balé.

A menos que, neste momento difícil, você tenha recebido um gesto de humanidade e carinho de qualquer banqueiro ou especulador. Quando os museus do futuro, pois acredito que haverá futuro e museus, forem expor a alma de nosso tempo não estarão emolduradas as notas de câmbio, hipotecas e contratos financeiros e fake news com cento e quarenta caracteres.

Dizem que as águas dos canais de Veneza estão mais limpas e as baleias voltaram a nadar em algumas costas das quais haviam sumido. Pra mim, o que me agradaria uma vez passada esta crise, é que nossas casas fossem novamente habitadas por seres humanos que reaprenderam a valorizar o que realmente é importante.

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. 

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