Carta aberta pela preservação e recuperação da Aldeia de São Fidélis, Valença

Valença, 24 de Abril de 2020 – Dia de São Fidélis

Mais um monumento em Valença poderá cair. Não estamos falando dos casarões da Praça da República, do Teatro Municipal, da Câmara, da Cadeia (embora estes requeiram também atenção urgente). Trata-se da Igreja de São Fidélis, cujos festejos (outrora comemorados com uma cavalgada) esse ano passaram despercebidos. Documentos mostram que é ela, talvez, uma das construções mais antigas ainda em pé, já que sua existência remonta ao período em que se iniciou a construção da Igreja do Amparo, em 1757.

Situada às margens da BA 542, a cerca de dez quilômetros da entrada da cidade de Valença, a Aldeia de São Fidélis foi fundada por frades capuchinhos. Segundo o historiador André de Almeida Rego a povoação foi fundada “por frei Anselmo de Andorno em 1745 e reunia índios de matriz tupinambá, era composta por índios boimés aos quais foi incorporado o contingente de aimorés trazidos de Nossa Senhora dos Remédios”. Eles “exerciam a função de canoeiros no transporte de cargas, principalmente de madeiras, se deslocando do rio Piau até ao longo do curso do rio Una, na direção do florescente porto de Valença.” (REGO, André de Almeida. OS ALDEAMENTOS INDÍGENAS FUNDADOS NA BAHIA E CAPITANIAS VIZINHAS DURANTE O PERÍODO COLONIAL. 2006. p 23). Conclui-se com essa informação que a igreja estaria completando nada menos que 275 anos, o que a coloca, talvez, como A MAIS ANTIGA CONSTRUÇÃO AINDA EM PÉ NO MUNICÍPIO DE VALENÇA.

A importância econômica da Aldeia de São Fidélis na História de Valença pode ser percebida na contribuição para o corte de madeiras de lei, como o Pau-Brasil. Desde o século XVI, esse povoado forneceu madeira [para] construção civil e naval – inclusive contribuindo para a recuperação de Lisboa, depois do terremoto e incêndio em 1755. Segundo o Capitão Moniz Barreto, em documento datado em 1794, descreve que os índios e seus descendentes

“desta aldeia são peritos navegadores do caudaloso rio Mapendipe, pelo qual descem com incrível facilidade sobre monstruosos paus até a boca ou foz da divisão deste rio e do de Una, donde são embarcados para o porto da Bahia em embarcações próprias que ancoradas esperam a sua correspondente carga. Do mesmo modo são os melhores serradores de madeira, principalmente de vinhático, que abundam aquelas matas, insignes fabricadores de grandes embarcações de um só pau, que no Brasil chamam de canoas, muito próprias para a navegação do interior dos rios. Têm grandes conhecimentos de ervas medicinais. Agricultam arroz correspondendo a colheita com grande excesso à sementeira por serem as terras na baixa das matas muito próprias para esta plantação. São também grandes cordoeiros de diferentes estrigas, no que poupam muito à Real Fazenda no trabalho das puxadas dos grossos e pesados paus. As índias são famosas tecedeiras de pano de algodão, principalmente para as chamadas tipoias (redes) que são camas ordinárias de que fazem uso geral quase todos os índios daquela capitania, sustentadas por cordas”.

Durante o asfaltamento da estrada que une a cidade de Valença com a BR 101, nos anos sessenta do século XX, a veneranda igreja quase foi demolida. Segundo a tradição oral, a imagem de São Fidélis por noites seguidas, foi retirada da igreja e levada para a Matriz, em Valença (já que dia seguinte a derrubariam); misteriosamente, cedo, ela amanhecia dentro da igreja. Embora se desconfiasse que fora obra do pároco da época, há quem diga que o próprio São Fidélis foi visto na redondeza tanto por moradores como por trabalhadores da empresa responsável pela obra. A história é relatada e confirmada por Ceci Queiroz, 67 anos, cujo pai trabalhou na construção da estrada.

Infelizmente, a despeito da Igreja de São Fidélis ser o mais antigo prédio do município e marco arquitetônico colonial, a mesma sofre com o desgaste físico e descaso do poder público. Em documento histórico datado em 1813 e pesquisado por Luiz Mott (1981, p. 11), o Padre Nogueira, vigário dos índios de São Fidélis nesta época, colocou uma cobertura de palha para proteção total o camarim e frontispício da capela da aldeia – considerando que o mesmo sacerdote já tinha feito anteriormente pequeno concerto no telhado da mesma. Atualmente, na parede lateral do templo, parte do reboco sucumbe, deixando à mostra uma estrutura onde ainda pode-se notar a presença de uma arquitetura feita com óleo de baleia. Rachaduras aumentam, dado o número de carretas que diariamente trafegam pela BA. Religiosos dos arredores recobrem com cimento, na tentativa de que a igreja não caia. Apesar do descaso público e do avanço do progresso nesses quase 300 anos, a Igreja e Aldeia de São Fidélis resistem.

Muitos dos moradores ribeirinhos da Aldeia permanecem com os hábitos de pesca, caça, extrativismo vegetal e artefatos de cipó, utilizando técnicas que remontam às práticas dos povos indígenas que passaram pelo aldeamento. Na Comunidade e redondezas é comum encontrar dezenas de pessoas que foram batizadas e casadas nas festas do Padroeiro (comemorada oficialmente no dia 24 de abril). Da mesma forma, muitos membros da comunidade estão sepultados no cemitério localizado no entorno da Igreja de São Fidélis. Além disso, existe a suspeita (conforme afirmam os moradores locais) de que a região tenha as ruínas de um antigo cemitério indígena. “Aqui, em qualquer lugar, se cavar mais de meio metro encontra-se objetos antigos enterrados” – afirma Marivaldo, filho do senhor Fidélis Argemiro de Jesus , antigo zelador da igreja, falecido no início deste ano (09 /01 / 2020), aponta, atrás do antigo cemitério, uma lagoa onde dizem existir destroços de um trator, atolado e afundado ao tentar demolir o templo.

Tais informações evidenciam a importância da preservação da Aldeia. MAIS QUE A RECUPERAÇÃO E REVITALIZAÇÃO DA IGREJA, o que querem, reivindicam e merecem, tanto a comunidade do Distrito Guerem (onde se localiza a povoação), como a população valenciana no geral, é O RECONHECIMENTO E TOMBAMENTO DA ÁREA ENQUANTO SÍTIO DE PRESERVAÇÃO HISTÓRICA dado o seu valor para o estudo e compreensão de aspectos etnográficos da formação do povo valenciano.

Neste sentido, pede-se, EM CARÁTER DE URGÊNCIA, QUE A CÂMARA TOMBE A ALDEIA COMO PATRIMÔNIO MATERIAL. PARALELO A ISSO, QUE A PREFEITURA ENVIDE ESFORÇOS, INCLUSIVE, JUNTO À INICIATIVA PRIVADA PARA RECUPERAR A IGREJA, DEVOLVENDO-A À COMUNIDADE. QUE SEJA CRIADO UM COMITÊ GESTOR, envolvendo membros não apenas da comunidade, como pesquisadores e instituições educacionais, incluindo a Escola Municipal Padre José de Anchieta, existente na comunidade pelo menos desde a década de 1980. Juntos, a Igreja e a Escola já podem abrigar documentos, textos, imagens e, até mesmo, artefatos que remontam a história do distrito.

Tal ação tem sobretudo um impacto econômico positivo uma vez que a região, com sua localização privilegiada, próxima a uma das principais entradas da cidade, agrega também valor turístico, já que se encontra numa grande cobertura vegetal de Mata Atlântica, nas imediações da Ilha do Conde e do recém inaugurado balneário 3 Ilhas, além da proximidade com a área de Campo do IFBaiano). É, também, a região cortada por corredeiras do Rio Piau, uma das nascentes do Rio Una.

Apesar do estado de calamidade decretado na cidade em virtude da pandemia do COVID-19, constata-se a urgência e necessidade de ações em prol da recuperação do referido espaço, em virtude do atual estado da igreja e dos riscos que apresenta nesta época de chuvas e ventanias que têm derrubado árvores nas redondezas.

Assinam este documento:

1. Adriano Pereira de Queiroz – estudante e pesquisador; vice presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais.
2. Araken Vaz-Araken Vaz Galvão – Escritor, ex presidente do Conselho Estadual de Cultura da Bahia e atual diretor do Instituto Cultural Euzedir e Araken Vaz-Galvão.
3. Ariosvaldo Conceição Duarte – Agricultor da Comunidade
4. Arnulfo Prazeres – publicitário e professor de arte no Colégio Estadual do campo Hermínio Manuel de Jesus em Valença.
5. Avani Santos do Nascimento – guardadora comunitária da igreja
6. Brenna Lohana Rocha Moura – Graduanda em História pela UFBR.
7. Deusdete Andrade de Jesus – guardadora comunitária da igreja
8. Fabiano de Jesus Santos – Membro da comunidade – Vizinho da Igreja, mestrando em Biodiversidade Vegetal pela UNEB;
9. Flordolina Andrade – Professora da Rede Estadual de Educação, Licenciada em História pela UNEB.
10. Francisco Nascimento Mangoleji – Dramaturgo, educador e Diretor do Núcleo Territorial de Educação no Baixo Sul da Bahia.
11. Gilson Antunes da Silva – Doutor em Literatura e Cultura, professor do IF Baiano (Valença), membro da AVELA e pesquisador do GLICAM – Grupo de Pesquisa em Linguagens, Culturas e Ambientes.
12. Isaias Menezes Pereira /Zai Pereira– Professor, Graduado em História, Mestre em História da África, da Diáspora e dos povos indígenas – UFRB.
13. Jefferson Duarte Brandão ( Táta Sobodê) – Agricultor da Comunidade – Mestre em Educação do Campo.
14. Jilzinê Araújo dos Santos – morador da comunidade, vizinho da Igreja – Fotografo.
15. Leonardo Fiusa Wanderley – Professor do Curso de Direito na UNEB -Campus XV, Valença.
16. Leonardo Luz Crispim – graduando em História pela UFRB.
17. Lucas Santana Barbosa – Cineasta, Educador e Produtor Cultural
18. Nelma Barbosa – professora do IF Baiano – Campus Valença, Dra. em Estudos Étnicos e Africanos
19. Profa Drª Mauren Pavão Przybylski Da Hora Vidal -Doutora em Letras – UFRGS, Professora de Língua Portuguesa e Literatura do IFBAIANO- Campus Santa Inês / Representante no Brasil do Laboratório Nacional de Materiais Orais da Universidade Nacional Autônoma do México – UNAM Campus Morelia, Pesquisadora do GLICAM – Grupo de Pesquisa em Linguagens, Culturas e Ambientes – IFBAIANO – Campus Valença
20. Prof. José Ricardo Da Hora Vidal -Escritor e professor efetivo no Colégio Estadual Hermínio Manoel de Jesus / Distrito de Bonfim, Mestre em Crítica Cultural / UNEB, membro da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes – AVELA, Pesquisador do GLICAM – Grupo de Pesquisa em Linguagens, Culturas e Ambientes – IFBAIANO – Campus Valença.
21. Rosângela Góes – escritora e professora.
22. Violeta Martinez – cineasta e produtora cultural.
23. Tania Pacheco – blog Combate Racismo Ambiental.

Foto: Jilzinê Araújo

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Táta Sobodê.

Comments (1)

  1. Que riquíssimo documentário. Tenho muito interesse em conhecer mais sobre essa aldeia e essa igreja erguida em honrar ao nosso amado proto mártir dos capuchinhos. Sou nascido e criado na cidade de São Fidélis, situado no interior do estado do Rio de Janeiro. Onde sou membro ativo da Paróquia erguida em sua honra e que esse ano completa 211 anos de fundação. Aguardo ansiosamente um e-mail de resposta. Paz e bem.

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