Ainda a obscenidade política

Por Ordep Jose Trindade Serra

Na sexta-feira da semana passada interrompi a leitura de um ensaio de Paul Ricoeur para assistir um espetáculo asqueroso. Claro que não o fiz por gosto. Ninguém em sã consciência deixa de bom grado a fruição de um texto enriquecedor para assistir uma pornochanchada estúpida. Mas obriguei-me a fazê-lo e consegui controlar a náusea cedendo ao sentimento de um dever de ofício. Coloquei-me diante da tela como cientista social, lembrando-me da necessidade de refletir sobre o neofascismo, de estudar o que tenho chamado de obscenidade política. Por isso assisti com estoica paciência à exibição pela tevê da gravação da reunião ministerial do dia 22 de abril próximo-passado.

O vocabulário chulo do presidente não me surpreendeu. Ele não tem outro em que se exprima melhor. O baixo calão lhe quadra, a linguagem porca é a que traduz à perfeição seus sentimentos, suas ideias, seus valores. Não é nesse nível que se acha o núcleo da radical obscenidade de sua fala, de suas atitudes e do comportamento de sua equipe. Sua completa falta de decoro é sintoma de coisa pior: de um mal cuja virulência se manifesta de modo muito mais deletério na distorção sistemática de conceitos e valores, uma constante em seu discurso. É o que ocorre quando ele fala em democracia e louva a Ditadura; quando agride a Constituição de modo contumaz e protesta ser-lhe fiel, “esclarecendo” depois, com ridícula soberba, que a Constituição é ele mesmo; ou quando invoca a verdade para dizer mentiras em série, sem o mínimo pudor.

Um dos sentidos do termo latino “obscenus” o relaciona com os signos do nefasto, com o hediondo e o nefando. As marcas do sinistro que oclui o sentido e corta a luz da esperança caracterizam o nefasto. É que na linguagem religiosa dos antigos o traço da abominação indica uma impureza que anula o kairós (a oportunidade do bem, da boa sorte). O nefando — também por natureza importuno — chama a desventura com sua impropriedade. Assim considerado, o obsceno tem a ver com o que há de mais destrutivo. Participa do “immundus”, como se diria em latim. Já nos esquecemos do vínculo originário que liga como opostos os nomes “mundo” e “imundo”. Importa recordá-lo. A “immunditie” é originaria e essencialmente uma ameaça caótica ao arranjo do cosmo, uma poluição funesta. No plano moral corresponde-lhe o que Hanna Arendt chamava de mentira organizada. Ela afeta brutalmente o universo político. O próprio da mentira organizada é desorganizar: desarranja a comunicação, ataca o conhecimento (inibe a vontade de saber, a vontade de verdade), infesta os valores e assim vicia o sistema das relações sociais. A impureza que ela produz constitui uma das formas fatais do obsceno. Um sintoma da sua presença destruidora no corpo social é a corrupção da linguagem, abuso em que pensadores como Elias Canetti e George Steiner, entre outros, viram um efeito cruel do fascismo. Creditaram ambos a essa brutal ideologia uma doença do verbo cujo agravamento ameaçava, segundo eles temiam, danificar-lhes o idioma. Dá-se que essa lepra da linguagem transcende a fala: contagia as práticas, falsifica os conceitos, perturba a interação social, afeta negativamente todo o campo dos valores. Uma de suas consequências é a destruição da dignidade.

O discurso desconexo do presidente na citada reunião ministerial, seus impropérios que transpiravam furor e medo, sua grosseria e sua torpeza são apenas fenômenos de superfície. É mais profunda a obscenidade que eles indicam. Os psicanalistas terão muito a dizer sobre a irresistível atração pela sujeira que orienta a língua do mandatário. Não me deterei neste ponto. Desejo aqui assinalar o desarranjo radical que essa incontinência acusa. Mas de passagem chamo a atenção para um efeito reflexo da disposição perversa de que sua fala imoral é apenas uma manifestação. (Volto a dizer que ela se reduz a sintoma de um desarranjo bem mais profundo, uma imundície — no sentido originário do termo — que ataca a raiz da significação). Eis o efeito aludido: sucede que a linguagem violentada se vinga ferozmente do moedeiro falso que a manipula assim. Tanto o desorienta sua corrosão da lógica, sua turvação verbal, que ele acaba dizendo aos tropeços o que não quer, revelando o que lhe interessava ocultar. Não é preciso ser especialista em análise do discurso ou em hermenêutica para perceber que a fala sórdida do presidente e as explicações posteriores com que ele tentou remendá-la constituem uma involuntária mas irrecusável confissão de crimes. De diversos crimes.

Dito isso, passo a um rápido exame da cena obscena, a uma sumária consideração do que ela mostrou de radicalmente obsceno. Observo primeiro que essa reunião logo de saída consagrou uma burla. Em sua pauta estaria um projeto, o Pró-Brasil, de que pouco se falou, que não se chegou a expor, apenas se anunciou de modo confuso, atropelado, atabalhoado a tal ponto que uma coisa ficou logo evidente: ninguém ali tinha a menor ideia de seu teor, do modo como se pretende construí-lo. Atribuiu-se ao mal esboçado plano a meta da recuperação econômica do país depois da pandemia. Seria, em princípio, uma pauta republicana, mas de questionável prioridade no momento. Quando ocorreu essa reunião a pandemia estava (ainda está) muito longe de declinar no Brasil. Ao contrário, não só ganhava impulso como já tinha vulto de calamidade terrível, ceifando vidas numa progressão exponencial, inundando hospitais e cemitérios. Já era considerável o número de médicos, enfermeiros, agentes de saúde mal equipados que sucumbiam e sucumbem tentando deter a peste, afastados do front de sua luta desesperada pelo contágio, pela morte. O território nacional já se achava convertido em vale de lágrimas, pasto de horror. Seria de esperar que uma reunião ministerial no país assim flagelado tomasse por objeto prioritário de sua atenção, de suas preocupações, a terrível enfermidade que a tantos aniquilou, a tantos abatia e muitos ainda ameaça matar. Era preciso mais que nunca um esforço conjunto de governo para reduzir o número das vítimas da cruel enfermidade. Evitar a escalada do morticínio devia ser o alvo prioritário do planejamento econômico e estratégico, o ponto de convergência da atenção de todas as pastas. Não foi o que sucedeu. O constrangido ministro da saúde balbuciou algumas palavras que não tiveram eco na reunião. Ninguém mostrou qualquer interesse pelo combate efetivo ao vírus assassino, ninguém mostrou empenho na luta contra a mortandade. E a prepóstera pauta- pretexto tampouco veio a ser o foco da reunião. As autoridades máximas do poder executivo em nível federal então deixaram o exercício de seus cargos para tratar da “segurança” da bem protegida família do presidente; melhor dizendo, para discutir sua blindagem contra investigações policiais. Desde o momento em que seu mesquinho chefe lhes impôs esta pauta ilegítima e eles a aceitaram, todos os presentes à dita reunião deixaram de ser titulares de seus elevados cargos para converter-se em simples áulicos, meros lacaios desqualificados, prontos a ouvir humildemente desaforos e pornéias. Foi algo como uma renúncia coletiva à dignidade. Não se viu um gesto altivo, uma justa reclamação contra o desvio que os tirava de suas funções. Houve, sim, quem se associasse ao furor presidencial. E caprichasse no desplante. Diante do terrível sofrimento da população, não se ouviu uma palavra sequer de condolência, nenhuma frase que exprimisse o respeito aos enlutados, o cuidado com os aflitos. Mas foram muitas as declarações de ódio, desprezo, achincalhe, ameaça. O inacreditável ministro da educação fez questão de dizer que odeia a China, detesta que se fale em povos indígenas, tem horror a Brasília (que comparou a um câncer), abomina os concidadãos por ele chamados de vagabundos, entre os quais incluiu os ministros do STF. Muita antipatia para um homem só. Como pode uma pessoa odiar um país inteiro, quase um quinto da humanidade? Que sabe da China esse analfabeto funcional que falando e escrevendo não consegue exprimir-se de maneira razoável em sua língua nativa? Que sabe dos povos indígenas? Em que base apoia sua presunção de decidir o que sejam povos um homem incapaz de compreender a relevância das ciências humanas? Quem imagina ser para fazer-se juiz da cidade que parasita? Por que julga estar acima do STF?

Ele não foi o único a grunhir desse jeito. O ministro da economia gastou parte de sua fala a blasonar-se de forma ridícula, sem pejo de mentir: acreditando na cumplicidade de seu auditório e sem prever que chegaria a público bem maior sua especiosa autocelebração, afirmou deslavadamente que sob sua égide o país estava progredindo antes da epidemia. Escondeu que antes da peste ele fizera aumentar o desemprego, crescer o precariado e encolher de forma doentia o PIB, além de queimar reservas enquanto celebrava cinicamente a alta escandalosa do dólar. Gabou-se até de ter socorrido os flagelados pela pandemia, quando suas providências no particular foram de sórdida mesquinhez: primeiro autorizou que empresas mantivessem seus funcionários sem salário por quatro meses; em seguida propôs acudir aos necessitados com a esmola ridícula de duzentos reais por mês, estrebuchando quando o Congresso elevou para parcos seiscentos reais essa quantia. Mostrou na sua distribuição rara incompetência, filha de má vontade evidente. E quer agora converter o auxílio em empréstimo. É certo, porém, que acudiu aos bancos imediata e generosamente sem nada lhes exigir em troca de farto dinheiro público. Nada de novo… O cuidado desse ministro com a verdade é tão restrito que em seu autoelogio ele falou respeitosamente da recuperação econômica do Chile sob Pinochet. Essa triste zombaria lançada em face dos nossos aflitos irmãos chilenos foi apenas mais uma das manipulações do “Posto Ipiranga”. Mas ele não ficou nisso, também fez questão de seguir o chefe na explosão de ódio. Seu alvo: os funcionários públicos de que todos dependem para a prestação dos serviços devidos pelo Estado à sociedade. Usou com orgulho uma metáfora brutal para gabar-se do tratamento iníquo que lhes dispensou, congelando seus salários por dois anos: disse que lhes colocara uma granada no bolso. Não percebeu que em vez de proeza guerreia a imagem descreve um ato ignóbil de traição. Não há o que estranhar: a covardia namora o ódio.

A ministra dos Direitos Humanos não surpreendeu. Tudo se espera da célebre inventora da Mamadeira de Piroca. Na certa o deleite provocado pelas pornéias do chefe foi um estímulo para suas fantasias, fazendo-a brandir secretos processos contra governadores e ataques contra sabe-se lá que grupos misteriosos por ela acusados de planejar o massacre dos índios a fim de transferir-lhe a culpa. Fantásticas também foram suas alegadas providências em defesa dos indígenas, que estão, sim, morrendo desamparados, vítimas do corona-vírus e de grileiros assassinos.

Os ministros militares pouco falaram, mas acataram sem protesto o projeto do chefe de armar o povo para a luta contra a ditadura (de prefeitos e governadores que não obedecem ao virulento desatino presidencial). Se o povo precisa tanto assim de ser municiado para a suposta defesa da liberdade, que função se dará às forças armadas? Integrarão as novas milícias? O silêncio eloquente dos generais mostrou com clareza que equivale ao do presidente o seu respeito pela Constituição.

Foram muitos os disparates e enormes as aleivosias, mas o ministro-réu do meio ambiente roubou a cena obscena. Ele falou, sim, da pandemia. Categorizou-a como uma OPORTUNIDADE para o governo. Propôs ao chefe aproveitar-se dela com vistas a uma geral desregulamentação, uma franquia a todos os abusos, uma castração dos instrumentos e normas que na sua e em outras pastas impedem a violação do interesse público. Celebrou a TRANQUILIDADE do momento, declarou-o propício à governança tal como a concebem ele mesmo e quem o nomeou.

É difícil de classificar uma pessoa que fala em tranquilidade quando o país é abalado pelos estertores dos moribundos, pelos soluços dos enlutados, pelo choro de órfãos e viúvas, pelo lamento de esposos e esposas privados de seu amor, de pais e mães que perdem os seus filhos, de amigos separados pela peste, de tantos que deploram seus entes queridos sem poder sequer prestar-lhes as honras fúnebres. Tranquilo está esse áulico assim como o governo funesto de que participa. Sereno, disposto a aproveitar a chance numa hora em que o colapso do sistema de saúde pública leva multidões ao desespero e de norte a sul ecoam seus gemidos, seus apelos inúteis. Agentes de saúde se descabelam, médicos e enfermeiros derramam lágrimas de aflição e de impotência. O governo está tranquilo. Cientistas perdem o sono, buscando remédio contra a praga, apesar dos parcos recursos de que dispõem em função de repetidos cortes de verbas. O governo está tranquilo. O país bate recordes sinistros na soma de cadáveres. O governo está tranquilo. A infecção se difunde, o número de contaminados aumenta a galope. O governo está tranquilo. Pode dar-se ao deboche, aos espasmos de ódio, à destruição de florestas, ao incremento da grilagem, ao sonho dourado da guerra civil.

Segundo os antigos romanos, têm em comum a característica do importuno a irrupção do nefasto e a manifestação do obsceno. Aqui em plena pandemia o ministro de um país em prantos fala em oportunidade. Prefiro a lição dos velhos áugures.

O ministro Sales tornou-se mundialmente conhecido por seu incansável empenho na devastação do patrimônio natural do Brasil. Pelo jeito, tem amor à infâmia. Pode ficar tranquilo quanto a isso. Seu desempenho na cena obscena vai com certeza aumentar sua hedionda notoriedade.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Isabel Carmi Trajber.

Destaque: O Triunfo da Morte, c.1562, de Pieter Bruegel, o Velho, Museu do Prado, Madri. Detalhe

Deixe uma resposta

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

vinte − 18 =