Pará concentra mais de um terço das mortes de quilombolas por Covid-19 no Brasil, afirma Conaq

De acordo com o levantamento, o estado registrou 16 mortes de habitantes de quilombos pela doença e quatro seguem em análise. Em todo o país, 47 mortes nessas comunidades pelo novo coronavírus já foram registradas.

Por G1 PA 

O Pará concentra cerca de 34% das mortes de quilombolas por Covid-19 no Brasil, segundo dados da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). O levantamento aponta que o estado registrou 16 mortes de moradores dessas comunidades pela doença. Outros quatro óbitos estão sob análise. Em todo o país, 47 mortes de quilombolas por Covid-19 já foram registradas.

O levantamento realizado pelo CONAQ é único no país. Os dados epidemiológicos do Ministério da Saúde (MS), órgão que acompanha os casos de infecção pelo novo coronavírus no Brasil, não especificam quantos casos foram registrados em comunidades quilombolas pelo país.  O G1 entrou em contato com o ministério para obter esses dados, mas até a publicação desta reportagem, não obteve resposta.

O estudo aponta que, no Pará, as comunidades que registraram óbitos ficam nos municípios de: Acará (1), Baião (2), Cametá (2), Abaetetuba (2), Barcarena (3) e Moju (6). O estado tem cerca de 600 comunidades quilombolas com 70 mil famílias, reunindo, aproximadamente, 400 mil pessoas.

De acordo com o último boletim da Secretaria de Saúde do Pará (Sespa), publicado às 19h de sexta-feira (29), o estado possui 37.296 casos e 2.900 óbitos por Covid-19. Segundo a Sespa, são 24.578 pacientes recuperados. Há ainda 131 exames em análise e 5.267 casos descartados.

Pesquisa independente

O monitoramento dos casos de Covid-19 em quilombos é feito de forma independente pela CONAQ. Segundo o instituto, a pesquisa é feita por telefone e o acompanhamento dos dados é realizado com o auxílio de uma rede de voluntários que incluem advogados, médicos, enfermeiros e outros profissionais. Segundo o CONAQ, a pesquisa ainda conta com apoio da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).

“O monitoramento é feito por meio de telefone e WhatsApp. Temos a regional do Baixo Amazonas, do Marajó, Nordeste, região Guajarina e Tocantina. As regionais têm contato com os líderes de cada comunidade e levantam esses dados”, explica ao G1 Magno Cardoso, quilombola integrante da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (Malungu) e morador de comunidade da cidade de Moju, no Pará.

Prevenção precária

De acordo com Cardoso, as comunidades adotaram barreiras sanitárias como medida de prevenção. Dessa forma, as populações limitam o acesso de residentes de outras localidades. No entanto, essas barreiras são feitas pelos próprios moradores, sem apoio de órgãos do estado.

“O trabalho é feito pelos próprios moradores. As pessoas vão se revezando para tomar conta desse espaço, orientando quem precisa entrar para ver se realmente necessita, se está usando máscara, usando álcool em gel. Só que é um trabalho que é feito somente pelas comunidades, não tem apoio da prefeitura, não tem apoio de governo do estado, nem federal”, relata Magno.

O CONAQ destaca que entre uma das dificuldades enfrentadas pelos quilombolas é que há diversas comunidades sem acesso à internet e energia elétrica.

“Há muitas dificuldades para o monitoramento. Há dificuldade de acesso à tecnologia, há comunidades sem energia elétrica. Há a barreira de desinformação. O governo não leva a informação do que é a Covid-19. Temos a falta de política de saúde para que essas pessoas sejam diagnosticadas, para fazer isolamento e tratamento adequado. Boa parte dos quilombolas do Pará não tem sequer o direito de fazer uma simples consulta. As comunidades são distantes e não temos acesso a isso. Enfrentamos essas dificuldades há muito tempo, essa falta de acesso à saúde básica, e agora na pandemia essa questão se mostra ainda mais inflamada”, diz Magno.

No Pará, o apoio aos quilombolas vem das universidades. Uma parceria entre Universidade Federal Oeste do Pará (Ufopa) e a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo – Malungu está apoiando comunidades quilombolas em ações de combate à pandemia. O projeto realiza o levantamento de casos da doença nos territórios quilombolas e analisa as dificuldades vividas pelas comunidades. Cerca de 800 comunidades são atendidas.

Comunidades pelo Brasil reclamam ausência governamental

A falta de apoio dos governos estaduais no combate à Covid-19 em comunidades quilombolas também é alvo de reclamações pelo Brasil. Em Minas Gerais, moradores de comunidades quilombolas reclamam de falta de apoio financeiro durante a pandemia. A maioria das pessoas que vivem nestes locais, trabalha como autônoma e está sofrendo com a falta de trabalho.

Já no Ceará, as comunidades reclamam da falta de saneamento básico. Segundo eles, as práticas básicas de higiene, fundamentais para o combate ao vírus, são impraticáveis pela ausência de água encanada. Além disso, as comunidades contam que as localidades são muito distantes das unidades de saúde, tornando difícil o acesso ao atendimento médico.

Câmara prevê apoio aos quilombolas

A Câmara dos Deputados aprovou na última quinta-feira (21) um projeto de lei que prevê o apoio a comunidades indígenas e quilombolas no combate à Covid-19. O projeto, apresentado pela deputada Professora Rosa Neide (PT-MT), prevê o acesso das comunidades a insumos, como testes e EPIS.

O projeto prevê encaixar as populações indígenas e quilombolas na categoria de população extremamente vulnerável. Com isso, o plano, que será coordenado pela união, prevê o acesso das comunidades a água potável, materiais de higiene e testes rápidos. Além disso, o projeto busca oferecer uma estrutura para atendimento às comunidades, como acesso a atendimento médico e material informativo.

Comunidade Quilombola Santo Antônio, em São Francisco do Guaporé. Foto: Incra /Divulgação

Deixe uma resposta

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

16 − sete =