Colóquio celebra os 100 anos de Clarice Lispector, de 19 a 21/10

Por Claudia Costa, no Jornal da USP

Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere.
(Clarice Lispector, em Um Sopro de Vida)

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) sempre foi um desafio à crítica, desde que despontou como uma voz singular nas letras nacionais, nos anos 40, até hoje, quando sua obra ganha projeção mundial com novas traduções e leituras originais. Em comemoração ao seu centenário – a ser completado no próximo dia 10 de dezembro -, o Colóquio Internacional Cem Anos de Clarice Lispector vai reunir críticos do Brasil, Portugal, França e Estados Unidos para discutir as várias faces dessa autora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira.

O colóquio é promovido pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com organização das professoras Yudith Rosenbaum e Cleusa Rios Passos, respectivamente, dos Departamentos de Letras Clássicas e Vernáculas e de Teoria Literária e Literatura Comparada. As mesas-redondas e atividades acontecem entre 19 e 21 de outubro, das 8h50 às 17h30, com transmissão ao vivo e gratuita pelo canal da FFLCH na plataforma Youtube. Segundo a professora Yudith, a proposta é reunir uma grande diversidade de críticos e de abordagens sobre Clarice Lispector. “Queremos dar espaço para as diferenças e para os modos de olhar a obra da Clarice, que é sempre muito instigante e múltipla. O evento será um grande painel que vai agregar essas várias leituras, permitindo que se possa compreender a complexidade de sua obra”, afirma.

A leitura crítica de Clarice Lispector tem crescido e a autora está sendo revisitada, como informa Yudith. “Clarice teve uma recepção crítica expressiva quando estreou de forma impactante, nos anos 40”, diz, citando o primeiro livro da escritora, Perto do Coração Selvagem, Depois foi ganhando um público maior, a partir de Laços de Família, e ainda mais, após a publicação de suas crônicas no Jornal do Brasil (1967-73). “Ela foi reconhecida, mas há ondas dessa repercussão. E agora está tendo uma ressonância mundial, com a tradução de sua obra para várias línguas”, destaca a professora, sem esquecer as muitas traduções que já foram feitas da obra de Clarice Lispector. Segundo a professora, esse novo boom da autora demonstra que a atualidade presente em sua obra continua despertando interesse.

“A sensação que eu tenho é que ela tem algo na linguagem, na escrita, que toca muito as pessoas. Ela faz com que o leitor se sinta desvelado, desnudado. Mostra um espelho, nem sempre belo, às vezes até deformado. Ela nos propicia um conhecimento de nós mesmos e do mundo das relações, da sociedade, da condição humana”, comenta Yudith. “Nós nos sentimos olhados com muita nudez pela Clarice. Dá a impressão de que ela tem uma visão muito fustigada pela realidade, com uma sensibilidade peculiar. Quando coloca as questões, ela não acrescenta camadas de ilusão. Ao contrário, vai descascando-as até chegar à nudeza da alma”, completa. “Ela não está interessada em nos apaziguar, e sim em nos despertar, chacoalhar mesmo, para que possamos sair de uma certa alienação”, continua a professora, ressaltando a potência da escrita de Clarice.

“Era uma vez um pássaro, meu Deus!”

Clarice Lispector, ainda muito nova, acreditava que os livros nasciam em árvores, mas, quando percebeu que havia pessoas que os escreviam, decidiu que era isso que queria, como conta a professora. Segundo Yudith, desde os 7 anos de idade, escrevia e enviava histórias infantis para um jornal de Recife, que nunca as publicou. Já adulta, publicou a crônica Ainda Impossível, na qual explica por que nunca foi publicada quando criança: “Eu nunca tinha escrito uma história com começo, meio e fim. Eu escrevia a repercussão que algo causava em mim”. E ela tentou escrever uma ‘história arrumada’, mas na primeira frase percebeu que isso seria impossível: “Era uma vez um pássaro, meu Deus!”. Segundo a professora, tudo era tão arrebatador para Clarice que a linguagem não dava conta de representar algo tão simples como o voo de um pássaro.

“A literatura de Clarice surpreende muito. Não é uma linguagem convencional. Ela escreve por vias oblíquas”, afirma Yudith. Para a professora, um dos melhores livros de contos da literatura brasileira do século 20 é Laços de Família, “um livro revolucionário, que reúne contos de excelência e que prepara para outros livros de Clarice, em que ela radicaliza”.

As mulheres de Clarice fazem constantemente movimentos de libertação, buscando sua própria força, como lembra a professora. “Nem sempre conseguem, como em Laços de Família. Mas, a partir de 1964, em A Legião Estrangeira e A Paixão Segundo G.H., elas vão mais longe, até chegar ao ponto de se perder na estranheza do mundo”, explica Yudith. Na opinião da professora, Clarice é uma escritora do efeito de estranhamento, em que as personagens estranham seu dia a dia e são empurradas a olhar de um jeito diferente para o mundo, levando-as a perceber a vida de forma menos limitada.

A professora ainda nota que Clarice usa expressões antitéticas, como alegria difícil ou felicidade insuportável, mostrando que as coisas não são o que aparentam e que estão muito longe de ser o que o senso comum determina. “Ela quer romper os clichês e estereótipos, por isso ela torce a linguagem. E não só a linguagem, mas os valores também, ou seja, o que consideramos louco ela pode considerar sadio, e o que consideramos normal ela pode considerar absurdo”, afirma a professora, comentando ainda que a escritora faz tudo “virar pelo avesso”, como  quando define o que é uma janela: “O que é uma janela senão o ar emoldurado de esquadrias?”.

“Perder tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser”

Clarice Lispector morou no Nordeste do Brasil e no Rio de Janeiro, e também em vários países, por isso sua abertura cosmopolita. “Ela é uma autora brasileira, vertente muito importante dos estudos de Clarice, mas que ganhou o mundo”, comenta Yudith. Para a professora, ela tem essa universalidade: “Ao mesmo tempo em que escreve sobre o Brasil, tematizando a questão da desigualdade, das injustiças, da intolerância e das diferenças, ela propõe questionamentos sobre a fragilidade, o desamparo, as contradições”.

Além disso, diz a professora, Clarice Lispector é uma autora muito ampla e profunda. “Ela não apresenta um panorama, mas pega instantes da vida que trazem grandes transformações, por isso já foi chamada de ‘escritora do instante’”, revela Yudith. “Instantes que podem acontecer no mais prosaico cotidiano. Aliás, é aí mesmo que ela gosta de colocar situações que reverberam mais”, conta. “O fato de ter tanta sensibilidade devia fazer até mal para ela. Ver tanto é algo que perturba. Mas, como a própria Clarice dizia: ‘Escrever é uma maldição. Mas uma maldição que salva’”. E, como lembra a professora, “a escrita é lugar da transmutação dessas experiências muito intensas – Clarice era uma personalidade muito intensa –, e essas intensidades ganham forma na literatura”.

Pode ser difícil ler Clarice Lispector, afirma a professora. Segundo ela, muitos leem e não gostam porque a sua crueza gera um certo mal-estar. “No fundo, Clarice mostra que nossas estruturas, psíquica e social, estão assentadas em uma ilusão de segurança, e que nos servimos de muletas. E ela tira esses apoios”, acredita Yudith. “Mas as pessoas vão aos poucos descobrindo Clarice, tomando coragem e se aventurando mais em sua obra”, diz. Para Yudith, toda a aventura da obra de Clarice está em uma frase do seu romance mais perturbador, A Paixão Segundo G. H.: “Perder tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser”.

“Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa”

Colóquio Internacional Cem Anos de Clarice Lispector vai reunir pesquisadores do Brasil e do exterior para descobrir como as pessoas leem Clarice, como diz a professora. “São críticos de várias gerações, com representantes dos estudos canônicos, que são sempre objeto de referência, e novas gerações trazendo abordagens mais recentes de estudos da Clarice”, informa Yudith, lembrando ainda que a proposta do evento é promover um encontro de saberes pautado pela diversidade. “Não vamos dar conta de todas as faces de Clarice. Ela é inesgotável, assim como os grandes autores”, avisa.

Entre os convidados estão pesquisadores que já deixaram vários legados e continuam estudando a autora, caso das professoras Lucia Helena (Universidade Federal Fluminense) e Regina Pontieri (USP), que estarão na primeira mesa do evento, no dia 19, às 9 horas; e da biógrafa Nádia Battella Gotlib (USP) ao lado da estudiosa Aparecida Nunes (Universidade Federal de Alfenas, MG), que participam, na sequência, da segunda mesa.

Outro destaque da programação é a relação entre Clarice Lispector e as linguagens artísticas. No dia 21, quarta-feira, a partir das 15h45, a mesa Clarice no Cinema apresenta um debate entre a psicanalista Maria Lucia Homem e a cineasta Marcela Lordy, diretora do filme O Livro dos Prazeres, baseado no romance Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, com a exibição de alguns trechos do longa. Ainda em fase de finalização, o filme já foi selecionado para mostras internacionais. Na sequência, será apresentado o monólogo Clarice Lispector e Eu – O Mundo não é Chato, com a atriz carioca Rita Elmôr (Prêmio Shell de melhor atriz em 1998 com a peça Que Mistérios Tem Clarice?), uma coletânea de trechos da obra da escritora, que já foi montada no Rio de Janeiro.

“Queremos nos aproximar de Clarice por vários ângulos. E que as pessoas possam refletir com densidade e profundidade sobre ela e a sua obra”, espera a professora. Ao final, como escrevem as organizadoras no material de divulgação do evento, que restem intervalos, vazios e lacunas, sem nomes que encubram o silêncio – desejo maior de Clarice Lispector -, ou como a própria escritora diz: “Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e, no entanto, vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão” (Água Viva).

Colóquio Internacional Cem Anos de Clarice Lispector acontece de 19 a 21 de outubro, das 8h50 às 17h30, com transmissão ao vivo e gratuita pelo canal da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP no Youtube. Não há necessidade de inscrição. Mais informações estão disponíveis no site da FFLCH e na página do evento no Instagram e no Facebook.  

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