Jovens manauaras saem do isolamento para poder sobreviver

Por Edda Ribeiro*, na Amazônia Real

“Saímos por questão de sobrevivência.” Por mais que pareça contraditória, a frase do jovem negro Vitor Rocha, 19 anos, é um relato comum de inúmeras pessoas que, em meio à pandemia do novo coronavírus, se viram obrigadas a abandonar o isolamento social. Morador da região do Distrito Industrial, na zona sul de Manaus, Vitor pôde cumprir a quarentena apenas em março. No mês seguinte, voltou a sair de casa para ajudar a mãe, que trabalha com vendas. A família dele acredita que já foi infectada, mas apresentou sintomas leves. Nunca foi testado. É mais um que se sente abandonado pelo governo do Amazonas.

“Não chamo o que o governo faz de ‘ações’. O governo não fez, não faz e não fará algo por nós. Eles flertam com a nossa morte, o nosso apagamento, eles têm plena convicção de tudo o que fazem”, explica Vítor.

Menos de três meses após o início da quarentena, a capital do Amazonas teve queda nos índices de isolamento social. Em meados de setembro, chegou a 34%. É o que revelou a plataforma Inloco – índice de Isolamento Social, que reúne dados sobre pandemia no País. Duramente criticados, os ‘furos’ de quarentena também revelam abismos sociais. Jovens entre 15 e 29 anos confirmam ter saído de casa mesmo nos meses mais críticos de pandemia, quando a saúde pública de Manaus entrou em colapso. O motivo, porém, estava bem distante do lazer. 

“O isolamento é privilégio de parte da população. Enquanto determinam que fechem os bares, parte da população continua se expondo andando de ônibus para trabalhar”, explica a estudante Laura Gomes, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). “Há trabalhadores que, infelizmente, têm que se expor mais que outros. E querendo ou não, depois desse período mais severo ficou difícil se manter em casa”, acrescenta a cantora Karen Francis, 20 anos. Ela conseguiu manter-se em isolamento por cinco meses, com exceção de quando teve de trabalhar. No seu caso, a exposição é ainda maior, pois precisa cantar sem máscara de proteção. 

Embora saibam que estar em confinamento seja a melhor forma de prevenção, jovens como Karen acabam sofrendo por não poderem estar vivendo as experiências típicas das novas gerações. “Claro que muita coisa acontece no isolamento. No ambiente familiar a gente passa por várias questões.  Está todo mundo meio debilitado da saúde mental; se torna mais difícil quando você fica isolado”, diz ela, que encara o isolamento dentro de casa como uma prova de fogo. 

Com saídas restritas para trabalhar e estudar, Franklin Raikar 23 anos, que cursa Licenciatura em Música na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), teve queda de rendimento nos estudos. “Senti muita falta das interações. Trabalhar com arte pede que você se comunique com o mundo externo além do seu próprio. Percebi o quão ausente sou em minhas relações, e só mantive contato virtual com os amigos”.

Morador do Novo Aleixo, na zona norte, Franklin não foi testado, mas chegou a ficar doente. “Fiquei bastante vulnerável ao vírus, já que moro com duas pessoas que trabalham na área da saúde, e não deixaram de trabalhar nesse período.”

Para Jhonatan Silveira, 26 anos, que trabalha como recepcionista, os novos hábitos mais restritos também pressionaram a sua estabilidade emocional. “No começo, não sabia muito bem o que fazer, o medo era muito grande e ficava sempre ligado nos jornais e nas notícias, depois de um tempo isso começou a fazer mal pra minha saúde mental, e parei de acompanhar”, diz. “No trabalho, a rotina é outra: o uso de máscara e luvas é constante. No início foi bem difícil de acostumar, os hábitos de usar a máscara, passar álcool em gel e lavar as mãos vieram para ficar.”

Com álcool gel nas mãos e máscara no rosto, a maioria dos entrevistados pela Amazônia Real para esta reportagem apresentou sintomas do vírus, mesmo entre aqueles que saíram apenas para trabalhar ou para ir ao supermercado. “Cheguei a ter perda de olfato e paladar, além de febre, porque moro com meus pais e eles não puderam parar de trabalhar. Então talvez a gente tenha se contaminado por aqui”, revela a moradora do bairro São José I, na zona leste de Manaus, Glenda Vanessa Bernardino. Dois vizinhos  da estudante morreram de Covid-19 nesse período. 

Uma das notícias mais esperadas entre os jovens é a chegada da vacina contra o vírus. A estudante Pâmilly Frota, de 19 anos, disse que não vê a hora de retornar à rotina e que a produção da vacina é necessária para redução das mortes. “(A quarentena) mudou meu interesse em muitas coisas. Fiquei muito tempo dentro de casa e não produzi nada de interessante, tive desânimo e às vezes fico ansiosa. Isso acaba me impedindo de começar a fazer alguma coisa”, explica.

Pedro Costa, indígena do povo Tukano, voltou a trabalhar em julho. Estudante do oitavo período de jornalismo, ele conta que ficou doente em março, logo após o falecimento de sua mãe, que teve complicações cardíacas. “Tive que ter muita cabeça, fiquei doente, minha mãe também. Ficamos isolados na casa. Ela morreu. Tive que me acostumar novamente com novas maneiras de viver”, diz o jovem de 22 anos.

O estudante diz que a população de Manaus poderia levar o isolamento com mais seriedade se o governo tivesse agido mais rápido. “Então, a irresponsabilidade é pelo descaso do tratamento do assunto”. Pedro, como muitos jovens, é mais um brasileiro que teve que voltar a pegar ônibus lotado para trabalhar ainda no período de alta transmissão. 

No Amazonas, o novo coronavírus atingiu 152.796 pessoas, sendo que 4.363 morreram por Covid-19. Em Manaus, foram 58.619 casos confirmados e 2.768 óbitos. Os dados são do Ministério da Saúde do dia 20 de outubro de 2020.


Pedro Costa, indígena Tukano, contraiu o coronavírus em março e perdeu a mãe na pandemia em Manaus (Foto: Arquivo pessoal)

Esta reportagem foi financiada pelo Fundo Global de Auxílio Emergencial ao Jornalismo do Google News Initiative para notícias locais no âmbito da pandemia da Covid-19.

*Amazonense, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio. Tem interesse em Saúde, Gênero, Segurança Pública, Política e Direitos Humanos. Tem passagem como repórter pelo jornal O Dia e assessoria de imprensa em agências cariocas. Já colaborou com reportagens para Revista Viração, Agência de Notícias de Favelas, Alma Preta, Agência Patrícia Galvão, Ponte Jornalismo, Projeto Colabora e Le Monde Diplomatique. (edda@amazoniareal.com.br)

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