A potência da mulher-palavra: mulheres do Cerrado realizam rodas de conversa

Rodas de conversas entre mulheres do Cerrado tecem lutas e resistências

CPT e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Pensando na potência dos processos coletivos, povos e comunidades tradicionais, assim como movimentos sociais, tecem suas estratégias numa rede que se fortalece a cada dia mais pela potência do plural. E foi a partir dessa trilha que mulheres do Cerrado brasileiro passaram a se reunir em torno das “Rodas de Conversa Mulheres do Cerrado”, atividade que se insere no âmbito do projeto Dos Territórios ao Tribunal do Cerrado: agrotóxicos em pauta, coordenado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e financiado pela Swiss Philanthropy Foundation e a Fundação Heinrich Böll. O projeto busca colaborar com a construção da Sessão Especial do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) dedicada ao Cerrado,  que vem sendo desenvolvida pela Campanha em Defesa do Cerrado desde 2021. 

As Rodas de Conversas são instrumentos potentes que permitem a elaboração de sistematizações através do intercâmbio de informações e vivências com a participação direta das principais protagonistas: mulheres de povos e comunidades tradicionais do Cerrado, desde às quebradeiras de coco babaçu, raizeiras, quilombolas, ribeirinhas, indígenas de várias etnias, assentadas da Reforma Agrária, entre outras. Nesse ano de 2022 foram realizadas três Rodas de Conversa, todas facilitadas por Cristiane Faustino, assistente social, feminista negra ambientalista, membra do Instituto Terramar. 

Em uma delas,  um momento específico foi destinado para escuta e intercâmbio entre as mulheres indígenas do Cerrado, em que  reuniu virtualmente mulheres dos povos Xerente, Krahô, Krahô Kanela, Apinajé, Krahô-Takaywra, Javaé-Karajá Xakriabá (TO), Tapuia (GO), Xavante (MT), Akraô Gamela (MA), Puruborá (RO), Guarani e Kaiowá, Terena e Kinikinau (MS). O intercâmbio entre as experiências vividas a partir da perspectiva das mulheres traz uma riqueza e profundidade mostrando as similaridades, desafios e potencialidades existentes entre os territórios e as lutas cotidianas dessas mulheres. 

“Se a gente não ajuntar, se a gente não conversar, pegar mesmo na mão pra ir em frente pra poder encaminhar as coisas nós não vamos fazer nada. (…) E nós que somos semente da terra, que somos broto dessa terra, temos direito de fazer isso. E nós, mulherzada, nós que sofre, nós que somos mãe, avó, nós que cuida das nossas panelas, das nossas roupas, dos nossos maridos, dos nossos netos, dos nossos filhos, nós tem todo o direito de falar, de correr atrás das coisas, pra poder esse presidente ou qualquer governo que entrar, respeitar nós, porque nós ainda existe. Os nossos tataravós, nossos bisavós foram, mas nós existe. Nós existe e tamo aqui com eles, com a fala deles, com as ideias dele, tamo aqui forte.”, afirma Gercília Krahô durante uma das Rodas de Conversa. 

As Rodas de Conversa têm sua metodologia baseada na educação popular e ambiental, contemplando também uma abordagem feminista e antirracista que permite que questões-chave históricas sejam trazidas pelos movimentos dos povos do Cerrado e ganhem visibilidade a partir da sistematização. Dessa maneira, as rodas de conversa são instrumentos fundamentais para fortalecer o processo na defesa dos direitos territoriais, da justiça hídrica e da soberania alimentar dos povos e comunidades do Cerrado. 

Para Tatinha, apanhadora de flores sempre viva, em Diamantina (MG), e participante das Roda de Conversa, é preciso refletir em toda uma cadeia de destruição que afeta as mulheres e seus territórios: “O primeiro ponto que afeta é a cultura, que está relacionada ao território. É uma destruição da história e da vida, e atinge as mulheres, principalmente. (…) Os povos tradicionais é que garantem soberania e segurança alimentar. Se destrói o território, destrói a segurança. São as mulheres na região que garantem a segurança alimentar. O que está destruindo o Cerrado é a monocultura de eucalipto, a mineração e as unidades de conservação. Isso coloca em risco o modo de vida tradicional e o território tradicional das apanhadoras de flores.”, explica. 

Sobre a experiência das Rodas de Conversa, Valéria Santos, coordenadora da Articulação das CPTs do Cerrado e da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, afirma que: “As Rodas de Conversas foram um espaço de troca de saberes, partilha dos desafios e resistências das mulheres, que estão em constante luta em defesa de seus corpos e territórios. Suas lutas são contra os monocultivos de soja, eucalipto, cana de açúcar e mineração; lutam contra os agrotóxicos que contaminam as águas, o ar, a terra, animais e as pessoas. Elas defendem a libertação dos territórios e dos corpos que ainda são aprisionados por relações de opressão de classe, raça, etnia e gênero. As mulheres defendem a agroecologia e os seus modos de vida como forma de manter o Cerrado em pé, com disponibilidade de alimentos e bens comuns saudáveis a todas e todos”.  

As denúncias sobre a destruição do modo de vida das comunidades, seus territórios e seus habitantes – sejam de que espécie for – é também um depoimento constante que aparece com frequência na fala das mulheres e assim, mesmo de territórios diferentes, elas vão reconhecendo como o modo de vida tradicional, que garante saúde, sustentabilidade e longevidade, vai sendo minado. “A gente está sendo muito afetado pelos agrotóxicos, afetou tanto a vida das mulheres, como de crianças, adultos, como de todos os animais, né. Vou falar primeiro dos animais porque eles sumiram depois que começaram a usar esses agrotóxicos, que o agronegócio chegou perto da gente, os pássaros sumiram. Animais como veado, tatu, essas caças assim, elas sumiram. Sumiram por conta do desmatamento. Os passarinhos se alimentavam dos grãos envenenados, se intoxicavam e morriam. (…) Depois aqui na nossa região eles começaram a jogar veneno de avião, a gente fez denúncia para Defensoria Pública do município, por conta desse agrotóxico jogado de avião. Depois disso a gente perdeu a nossa safra de arroz, milho, feijão, abóbora, etc. (…) E também sobre as pessoas, depois que o agronegócio chegou para perto, ficou muito difícil. (…) Quando a gente passa de moto dentro das áreas dos campos quando pega aquela poeira de veneno, não dorme direito que os olhos ficam irritados, fica muito inflamado. Isso tudo é prejuízo para nós mulheres, para nossas crianças, nossos idosos, a gente está vivendo tempos difíceis mesmo”, conta Raimunda Nonata, do Quilombo Cocalinho (MA), também durante as Rodas de Conversa. 

A documentação gerada durante as Rodas de Conversas resultou na produção de uma carta-denúncia sobre as mulheres em contexto de Cerrado, que será apresentada na próxima audiência temática do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) – “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Cerrado” – a ser realizada nos dias 15 e 16  de março, como forma de complementar informações junto ao Júri do TPP.

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