Chuva e seca extremas aumentaram em cinco anos

Estudo analisou mudanças na gravidade da Terra e constatou eventos climáticos extremos, que começaram a acontecer em 2000. Populações pobres são desproporcionalmente mais afetadas; governos tardam a agir

por Alessandra Monterastelli, em Outra Saúde

Cientistas norte-americanos conseguiram mapear, através de imagens de satélite, as distorções de água acima do solo e de aquíferos profundos abaixo da superfície da terra. Para tanto, usaram dados da missão Gravity Recovery and Climate Experiment, executada pela Nasa – que usa satélites específicos para detectar mudanças na gravidade e, assim, medir flutuações na água.

Os resultados revelam não só que eventos climáticos extremos ocorrem desde o início dos anos 2000, como também que aumentaram de frequência e intensidade nos últimos cinco anos. Foram descobertos, pela nova pesquisa, 505 episódios ligados à alta pluviosidade e 551 à seca entre 2002 e 2021.

Na África, a seca entre 2005 e 2006 que causou uma escassez aguda de alimentos foi taxada como evento climático extremo – ou seja, uma variação fora do resultado esperado das mudanças climáticas. Entre 2011 e 2014, a Rússia e parte da Ásia Central também tiveram problemas com suas safras de trigo devido a uma forte seca que afetou a região. O mesmo ocorreu na Europa entre 2018 e 2021, enquanto no Canadá e no Alaska (EUA) vem sendo notado um aumento progressivo das temperaturas ligado ao desequilíbrio da fauna e flora locais.

A partir de 2019, as fortes chuvas aumentaram o transbordamento de rios na África Central, levando a alagamentos e centenas de famílias desabrigadas. Situações semelhantes ocorreram na América Latina entre 2009 e 2010 e nos Estados Unidos em 2019. As fortes chuvas na Austrália no início da década de 2010 aumentaram o nível global da água durante 18 meses.

“Os últimos oito anos de registro meteorológico foram os mais quentes que já vivemos”, explica Márcio Astrini, Secretário-executivo do Observatório do Clima. Segundo ele, os últimos meses também marcaram registros recordes de calor no Japão e Sibéria, enquanto a Antártida vive intenso degelo. “A sucessão de informações sobre eventos extremos nos mostra a dimensão do problema. Mais que isso, a rapidez com que tudo tá acontecendo”, alerta.

A mesma preocupação foi registrada pelo estudo norte-americano: as consequências das mudanças climáticas estão chegando muito mais rápido do que o previsto pelos cientistas. “O desespero disso tudo é ver que as medidas adotadas pelos países, assim como as negociações para encontrar soluções, estão muito aquém do que está acontecendo em termos práticos”, desabafa Astrini. A última Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP-27), que ocorreu no Egito, levantou críticas por parte de representantes da sociedade civil devido a falta de conclusões mirando ações práticas e urgentes para frear o colapso ambiental.

Enquanto nas salas de negociações com ar condicionado as coisas caminham a passos lentos, da porta para fora a mudança climática está fazendo mais vítimas ao redor do mundo. Estudos já apontam que os países subdesenvolvidos são os que mais irão sofrer com os eventos climáticos extremos, apesar de serem os menos responsáveis pela emissão de gases na atmosfera ao longo dos séculos. Um exemplo da situação foi o calor extremo que atingiu parte da Índia e do Paquistão no primeiro semestre de 2022.

No Brasil, o estudo identificou um recorde de calor entre 2015 e 2017 e, posteriormente, períodos de seca até o final da pesquisa – que levaram a fortes queimadas por todo o país. Além da alteração nos ciclos de produção de alimentos, a produção de energia, no caso do Brasil, é diretamente afetada. “Dependemos de estabilidade climática, principalmente por conta da questão hídrica, responsável pela eletricidade que chega em nossa casa e também que movimenta a indústria”, lembra o especialista. Sem chuva, arriscamos ficar sem energia elétrica. Com menos produção, os empregos também diminuem – agravando os indicadores sociais. As pessoas mais pobres são também as mais vulneráveis a perder suas casas em uma enchente, porque também vivem em áreas com menos estruturas. O efeito é em cascata.

“São as mesmas populações que já sofrem uma desigualdade enorme no Brasil, e que historicamente são as que menos contribuíram para o problema do clima”, explica Astrini, que conclui: “essa questão do clima, em países como o Brasil, é uma fábrica de gerar pobreza”.

Efeitos a longo prazo

Outro aspecto dos satélites responsáveis por coletar os dados utilizados na pesquisa é que sua tecnologia é capaz de medir mudanças que persistem por longos períodos de tempo, e não desastres momentâneos que poderiam ocorrer em uma estação normal. Foi assim que os pesquisadores puderam avaliar que os acontecimentos extremos estavam ficando mais graves no final do período de estudo, ou seja, em 2021.

A descoberta fortalece a possibilidade de que, à medida que o mundo esquenta, veremos extremos mais frequentes e fortes – com destaque para os trópicos, que já estão experimentando períodos de chuva mais intensos, enquanto as regiões continentais tendem à seca.

No entanto, 20 anos de observações é pouco em termos de escalas de tempo climáticas, reforçam os cientistas.  Outro limite da pesquisa é que as medições pelos satélites da Nasa são mensais e publicadas com atraso, tornando impraticável o rastreamento de eventos à medida que eles se desenrolam.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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